terça-feira, 13 de setembro de 2022

Creio no incrível, nas coisas assombrosas



Publicação de Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, I.P.

"Natália Correia nasceu no dia 13 de setembro de 1923 em São Miguel, nos Açores:

‘Creio nos anjos que andam pelo mundo’

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo
pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.


- Natália Correia, in ‘Natália Correia – Antologia Poética’



Foi poeta, dramaturga e jornalista, tendo deixado uma vasta obra que se estende por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio.

Organizou também várias antologias de poesia portuguesa como “Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses” ou “Antologia da Poesia do Período Barroco”. Com a sua personalidade carismática, desafiou as convenções, nomeadamente nos anos em que foi deputada na Assembleia da República. Na década de 80, foi autora da série “Mátria”, da RTP, que apresentava uma visão do lado matriarcal da sociedade portuguesa.

Recebeu o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores em 1991, pelo livro “Sonetos Românticos”. No mesmo ano, foi-lhe atribuída a Ordem da Liberdade. Em 1981, tinha já sido feita Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.

Morreu no dia 16 de março de 1993, em Lisboa."



sábado, 10 de setembro de 2022

vocação urgente




Co-criações, com Carlos Gomes (Maio 2022)


DÁ-ME AS TUAS MÃOS


As mãos foram feitas
para trazer o futuro,
encurtar a tristeza, encher
o que fica das mãos
de ontem - intervalos
(duros, fiéis) das palavras,
vocação urgente
da ternura, pensamento
entreaberto até
aos dedos longos
pelas coisas fora
pelos anos dentro.

Vítor Matos e Sá, in 'Companhia Violenta'

Mu'danças




estrada de Coruche, Verão 2022



Alentejo
Além Tejo

Ver além de... 
Além da copa das árvores, 
Além das ramificações.
Além das raízes...
Além dos padrões e além dos bloqueios...

Passar-lhes por cima, passar-lhes por baixo, contorná-los ou atravessá-los. Não quer dizer que lá não estejam, como copas de árvores a que nos habituámos por proporcionarem fresca sombra, mas às vezes temos de sentir o vento na cara, o sol na pele, o frio que enregela, para fazer diferente, desfazer com carinho as couraças com as quais nos revestimos em defesa e apreciar o que nos espera do outro lado de nós.
E é uma dança perene, sempre em "mud'ança". Porque nesta viagem do eu, como diz Miguel Torga, "em qualquer aventura, o que importa é partir, não é chegar".

@festival.andancas 2022
Campinho

o "quero voltar para a ilha" tomou sentido palpável




Ilhas Cíes, Vigo (Verão 2022)

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo?
e ai Deus, se verrá cedo?

Ondas do mar levado,
se vistes meu amado?

e ai Deus, se verrá cedo?

Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
e ai Deus, se verrá cedo?

Se vistes meu amado,
o por que hei gram coidado?
e ai Deus, se verrá cedo?

Cantiga de Amigo, Martin Codax