-Conhecias o Pina? Sim, o noivo da Ester. Teve um desastre, operei-o, morreu.
-O Pina...?
Mas reagiu prontamente, animando o marido:
- Fizeste o que pudeste, tenho a certeza. Porque te afliges?
-Tinha vísceras esmagadas, um braço esmagado, Paula. Operei-o, morreu. Ia casar em breve. Morreu.
Ela ficou em silêncio, de mãos dadas no regaço, e a noite cresceu entre eles - uma noite maravilhosa, absoluta, fremente de memórias. "Recuperar a vida com a morte no meio. Acreditar, embora se saiba que se acredita no nada. Tão difícil. E tão raivosamente necessário.".
-Se tu tocasses um pouco, Paula.
-Mas tu... Tão tarde, Cipri. Os filhos dormem.
-Baixinho.
Paula não tocou. Mas armou o gira-discos, regulou a intensidade do rádio. E a noite revelou-se numa profunda harmonia, como uma verdade tranquila. Cirpiano abriu as janelas para a cidade, para o rio ao longe, olhou ao alto, no céu húmido, pelos espaços abertos entre as nuvens, o brilho fugitivo das estrelas. "Segurar a mãos ambas um sentido para tudo isto. E ser feliz na resignação". Bach cantava. Cantava nos limites do universo para a luz fria dos astros, para o silêncio dos espaços, fechado de recolhimento, de melancolia grave. E Cipriano, segurando a mão de Paula, sentia comovidamente que o mistério do mundo, da vida e da morte, se revelava a seus olhos, apaziguado, como uma simples flor aberta...
Vergílio Ferreira (1982),
Cântico Final, Círculo de Leitores, p.118.