terça-feira, 29 de novembro de 2022

porque sim, porque sim.

encontrar a(s) nossa(s) tribo(s) é uma sensação de pertença incrível.

quando finalmente entendes que sentires-te sem valor durante anos, incompreendido, não fazia sentido, porque afinal descobres que não eras tu que não tinhas valor, não estavas era entre gente com a mesma energeia, a mesma tribo.

e dás-te conta de que essas pessoas que falam a mesma língua que tu, que amam a arte, o Belo, o bem, a partilha, o Amor, que fazem, acontecem e caminham a par e passo com a felicidade de fazer o que se ama, existem mesmo, estão, são, e tu podes estar e ser simplesmente na tua essência.

porque sempre tiveste uma Voz, a Voz é, está, mesmo em silêncio gritante sempre esteve, mesmo não havendo ninguém a ouvir (uma árvore no deserto, se cair e ninguém ouvir, será que emite algum som?) e não será preciso gritar para te fazeres ouvir, mesmo que sussurres a medo a tribo aí está para te dar a mão, para te escutar. 

a Voz é e está, sempre esteve, sempre estará, uma respiração que une as pessoas da mesma Tribo, um cheiro, um olhar comum, é por aqui que vou, é por aqui que vamos, e cria-se e cocria-se.

não estás só, tens uma energeia que une o Humano, simplesmente vê a que te cheira o ar, segue o odor, o mais primitivo, a tua necessidade primária, o choro, o riso, quem o acolhe? 

rodeia-te das Tuas pessoas. a tua Tribo são as Tuas pessoas e jamais te sentirás de novo incompreendido ou a sentir não pertencer ali ou que não te sentes Tu. até porque a partir do momento em que deixares a tua Voz ser, percebes que nunca estás só, pois estás contigo e és suficiente e isso é um passo largo não para encontrares a tua tribo, mas para a tua ou as tuas tribos te encontrarem a ti, porque atrais o que és. também atrais quem deseja o mesmo que tu e quem deseja o que és sem conseguir e esses procurarão fazer-te-mal, mas sem tudo isto, a Vida não seria a mesma, e não se agrada a gregos e a troianos, mas sentes-te e sentes a energia que trespassa, que atravessa e que te une aos teus iguais, mesmo na ausência.

mesmo que não saibas, escolhes e responsabilizas-te. o que queres? concretiza, foca, afunila, simplifica. 

corres o risco de chorar se te deixas cativar, mas assim sabes quão magníficos e belos são os laços humanos e quanta riqueza reside no apprivoisement e na tão tuga saudade. fuma um metafórico cigarro pensativo, porque depois de misturares a teoria da Gestalt com o Principezinho, é melhor parares um pouco... olha, vai dormir, mas é, boa noite*



então e porquê o Salvador Dali e a Coco Chanel a partilhar uma cigarreira ? porque sim, porque sim (1938).

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Pull Up! Pull Up! Nhôs dexa-n livri pa N ser

Manga, Mayra Andrade 

Quase, quase, Mayra <3

Mas txeu Mas fundu Si krê’u fúndia na mi Pa bu nasi di mi un, ku dôs, ku tres bes Mas un bes, tantu bes, tantu bes Pamó dia ki N nasi y ki N torna ranasi Mundu fla-n ma N nasi pa bo Dexa-n djata, N krê djata N krê djata, N krê djata N krê kebra distánsia, N krê kebra distánsia Pa nhas brasu kamba na bo Y bu koxa bira di meu Bu saliva na nha pé Un manga na bu bóka É si ki N gosta di bo Forti N gosta di bo Ah mundu N gosta di bo Mas txeu Mas fundu Si krê’u fúndia na mi Pa bu nasi di mi un, ku dôs, ku tres bes Mas un bes, tantu bes, tantu bes Pamó dia ki N nasi y ki N torna ranasi Mundu fla-n ma N nasi pa bo Dexa-n tadja, N krê tadja, N krê tadja, N krê tadja, Tadja pa ka azara, tadja pa ka azára Pamó ki nu al ser menus Si dja nu podi ser mas Abo djô podi ku mi Sima dja N podi ku bo É si ki N gosta di bo Forti N gosta di bo Ah mundu N gosta di bo Mas txeu Mas fundu Si krê’u fúndia na mi

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

se não se puder perder

"Tentar provar o futuro é muito mais interessante do que poder conhecê-lo.

Como no jogo, não o ganhar, mas o poder ganhar.

Porque nenhuma vitória se ganha se não se puder perder"







Vergílio Ferreira, Jornal PQ, nº40, Cultura, p.21
(consultado a 16 de Novembro 2012)

De sonhar ninguém se cansa


"De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer 
não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos."

PESSOA, F. Livro do Desassossego, por Bernardo Soares. Vol. II. Mem Martins: Europa-América, 1986.

Como é por dentro outra pessoa?

Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.

Fernando Pessoa , Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955.

sábado, 19 de novembro de 2022

das Gewissen

sabem aquele momento, aquele último olhar antes do mergulho? 

antes do ponto de não retorno, aquela magnífica sensação do limiar da acção?

é nele, nesse instante de aparição de nós a nós mesmos, que somos unos, corpo e consciência, 

das gewissen

voz interior gritante e pungente, que jorra de nós para nós, brotando furiosa e nos permite sentir e dizer Eu.



Co-criações com Carlos Gomes



domingo, 13 de novembro de 2022

Com o coração no sítio certo

 A LS

"com o coração no sítio certo, ou tentando", foi a frase que encantou o dia de hoje.

são processos que demoram, lentos, internos, que devagar devagarinho nos levam tão mais longe do que de início havíamos pensado.

"se não se pode estar inteiro mais vale não estar". 

não é bem assim quando se trata de simplesmente nos encontrarmos em dia-não. já fui leccionar em dias-não, e aí ser-se honesto é a chave para que, mesmo não podendo oferecer a minha pessoa a cem por cento, pelo menos estou em presença e dou o meu melhor. o mesmo se passa em relações, sejam elas familiares, de amizade, amorosas ou profissionais, volta e meia vivemos fases menos boas, fechamo-nos um pouco em nós, mas não deixamos de estar, simplesmente respeitamos o nosso ser e o ser do outro.

contudo, se se trata de ter de tomar uma decisão, quando um caminho deixa de fazer sentido, trabalhar com esta ou aquela pessoa, neste ou naquele lugar, manter uma amizade ou uma ligação quando já nada nos diz, mas alimentamos a ideia de que ainda nos poderemos vir a animar, "ahh, mas se isto" ou "se aquilo, talvez eu ainda"... nah, quando já nada nos é natural e nada ressoa, então... é isso mesmo: "Se não se pode estar inteiro mais vale não estar".

passito a passito, "com o coração no sítio certo, ou tentando", seguramente com mais firmeza no eu, mais do que ontem e menos do que amanhã.

que assim seja*

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Sou a beleza da vida

GAL COSTA MUSA DE QUALQUER ESTAÇÃO

Me visa, me bisa
Me planta na imaginação
Me queira, me cheira
Me usa como definição
Me dá minha bola
Que eu mato no peito
Entro na área e faço um gol de efeito
Me ama, me chama
De porta-estandarte
Que eu sou uma obra de arte
Me leia, me creia
Faça fé no meu violão
Me cota, me vota
Me cai no gosto da multidão
Por que me eleger só no verão
Se eu sou musa de qualquer estação?
Sou sol e a chuva
A fruta e a flor
Eu sou um ano inteiro de amor
Sou a beleza da vida
Sou o que der e vier
A natureza da nova mulher
Sou um milagre que existe
Um coquetel da paixão
Bonitos acordes dessa canção.

Gal Costa, Musa de Qualquer Estação (1986)

Gratidão aos meus pais por me darem a conhecer Gal Costa, um dos meus vinys preferidos.
A ouvir boa música desde a barriga da mãe e canções sobre a emancipação feminina desde forever.


Gratidão, Gal Costa, pela tua arte e luta pela liberdade e poder da mulher
(26/09/1945-9/11/2022)






terça-feira, 8 de novembro de 2022

Tens carne, tens fadiga e tens pudor

CÂNTICO
Rio de Janeiro , 1946


Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde - são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante... a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas...
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.

Vinicius de Moraes