domingo, 27 de fevereiro de 2022

those who were seen dancing


Never too late for love - Gratitude*

“And those who were seen dancing were thought to be insane by those who could not hear the music.”― Friedrich Nietzsche

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Sed libera nos a malo


A Deus, a todos os deusas e deusas do Panteão Greco-Romano, a Budha, a Alá, a יהוה, aos Antepassados, a Odin, Thor, Loki, aos Orixás, Rá, Agni, Krishna, Huang Di, Sucellus, Taranis, Viracocha (...)


Mais AMOR, por favor


Enya, Caribbean Blue 

Donde é o meu coração

 Das coisas lindas que se aprendem na olaria do Sr. Álvaro, na Bajouca: 


"-Bons tempos eram", - diz o Sr. Álvaro, de lágrima no olho e sorriso embevecido - "que se rezava a Nossa Senhora pelas colheitas e para que a fornada das peças cozesse bem".


"-Um dia, numa azeitonada em Alcobaça"- conta-me - "aprendi esta canção":


"Diz-me lá ó rapariga, 
Donde é o teu coração?
Donde é o meu coração, 
Tão cheiinho de alegria
Sou da lagoa do cão
Desta linda freguesia"


E conta ainda que um casal jovem, que não tinha posses nem sustento para casar e passava fome, mas verem-se todos os dias já "alimentava" os olhos e a alma:


"- Ó Zé, estás a ver-me?
 - Estou.
 - Pronto, já almoçaste!
o moço tornava à hora do jantar:
-Vai pr' aquem, vai pr'além
Já não te vejo bem"


Que a fome era negra e a malta andava descalça e só calçavam os sapatos na missa.
 
O sr Álvaro, mãos de barro, sentado na roda, sorri: "Aqui rezo, aqui choro, 
aqui falo com as peças: o barro é um filho, dá uma libertação à pessoa".


Gratidão tenho eu, por estas partilhas.


Bajouca, Setembro 2021












a força sustida das coisas


"De lágrima fácil". eu sei, pois sou. que belo serão.

A palavra saboreada na língua arrepia-me de prazer literário.

O envelhecimento, tema que me é tão caro, nestas vozes de rádio belíssimas, numa fotografia de cena maravilhosa e dura até, doce e cruel.

A Boni, como carinhosamente chamamos à Companhia Bonifrates, presenteia-nos uma vez mais com o dom da palavra, le théatre du mot, a palavra personificada em cena, o divino do Homem, em Quero Dançar o Poente, memórias rebuscadas no lixo comum que se tornam tão, mas tão vívidas e especiais.

E hoje de manhã, o anúncio terrível, mas esperado, negado mas real, uma Grândola Vila Morena de trás para a frente. Tudo ao contrário.

Aí está, já cá estamos, começou.

Não sei se chegarei a conhecer a velhice, ninguém sabe a não ser quem já a experiencia, mas a esperança ainda vai sorrindo no meio da incerteza.

Pela Ucrânia <3


"Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne."

Herberto Helder

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Da enim supremum tempus

Quamquam, o di boni, quid est in hominis natura diu? Da enim supremum tempus;

Mas, ó bons deuses, que há na natureza do homem que dure muito tempo? Dá-nos o máximo tempo de vida!


De Senectute, Cato Maior, XIX.69








segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

a boca fala da abundância do coração

"a boca fala da abundância do coração", Mateus 12:34

Siddhartha escutou. Era agora todo atenção, todo mergulhado no escutar, totalmente vazio, impregnando-se por completo; sentiu que aprendera agora a escutar até ao fim. Muitas vezes já escutara tudo isto, as muitas vozes do rio, mas hoje elas tinham um som diferente. Já não era capaz de distinguir as muitas vozes, as alegres das chorosas, as infantis das adultas, estavam todas juntas, lamento de saudade e sorriso do sábio, grito de ira e gemido do moribundo, tudo era uno, tudo estava interligado e combinado, enlaçado de mil maneiras diversas. E tudo junto, todas as vozes, todos os objectivos, toda a nostalgia, todo o sofrimento, todo o prazer, tudo o que é bom ou mau, tudo junto era o mundo, Tudo junto era o fluxo dos acontecimentos, era a música da vida, E quando Siddhartha escutava com atenção este rio, esta canção a mil vozes, quando não escutava apenas o lamento ou o sorriso, quando a sua alma não se prendia a apenas uma voz e entrava nela com o seu Eu, mas antes de tudo escutava a totalidade, quando acolhia a unidade, então a grande canção a mil vozes consistia apenas numa única palavra, chamada Om: a Perfeição.

-Ouves? - perguntou-lhe novamente o olhar de Vasudeva.

O sorriso de Vasudeva cintilou, flutuou luminoso sobre todas as rugas do seu rosto envelhecido, tal como o Om flutuava sobre todas as vozes do rio. O seu sorriso cintilou, ao olhar para o seu amigo; no rosto de Siddhartha cintilava agora o mesmo sorriso. A sua ferida florescera, a sua dor irradiava, o seu Eu mergulhara na unidade. 

Nesse momento, Siddhartha desistiu de lutar com o destino, desistiu de sofrer. No seu rosto brilhava a serenidade da sabedoria a que nenhuma vontade se opõe, que conhece a perfeição, que está em sintonia com o fluxo dos acontecimentos, com o curso da vida, cheia de compaixão, cheia de simpatia, entregue à corrente, parte da unidade.

Quando Vasudeva se ergueu do seu lugar junto à margem, quando olhou para os olhos de Siddhartha e viu neles a serenidade da sabedoria, tocou-lhe suavemente no ombro com a mão, à sua maneira cautelosa e terna, e disse:

-Esperei por esta hora, meu amigo. Agora que ela chegou, deixa-me partir. Esperei muito tempo por esta hora, fui durante muito tempo o barqueiro Vasudeva. Agora chega, adeus cabana, adeus rio, adeus Siddhartha.

Siddhartha respondeu-lhe com uma reverência profunda.

-Já sabia - disse devagar.- Irás para a floresta?

-Vou para a floresta, vou mergulhar na unidade -disse Vasudeva radiante.

Partiu radiante; Siddhartha ficou a vê-lo partir. Olhou-o com profunda alegria, com grande seriedade, viu os seus passos cheios de paz, viu a sua cabeça brilhante, viu a sua forma cheia de luz.

Siddhartha, um poema indiano de Herman Hesse

sábado, 5 de fevereiro de 2022

bathed in moonlight

à Rosária,

"The day my mother died, I wrote in my journal, "A serious misfortune of my life has arrived." I suffered for more than one year after the passing away of my mother. But one night, in the highlands of Vietnam, I was sleeping in the hut in my hermitage. I dreamed of my mother. I saw myself sitting with her, and we were having a wonderful talk. She looked young and beautiful, her hair flowing down. It was so pleasant to sit there and talk to her as if she had never died. When I woke up, it was about two in the morning, and I felt very strongly that I had never lost my mother. The impression that my mother was still with me was very clear. I understood then that the idea of having lost my mother was just an idea. It was obvious in that moment that my mother is always alive in me.

I opened the door and went outside. The entire hillside was bathed in moonlight. It was a hill covered with tea plants, and my hut was set behind the temple halfway up. Walking slowly in the moonlight through the rows of tea plants, I noticed my mother was still with me. She was the moonlight caressing me as she had done so often, very tender, very sweet... wonderful! Each time my feet touched the earth I knew my mother was there with me. I knew this body was not mine but a living continuation of my mother and my father and my grandparents and great-grandparents. Of all my ancestors. Those feet that I saw as "my" feet were actually "our" feet. Together my mother and I were leaving footprints in the damp soil.

From that moment on, the idea that I had lost my mother no longer existed. All I had to do was look at the palm of my hand, feel the breeze on my face or the earth under my feet to remember that my mother is always with me, available at any time."


~ Thich Nhat Hanh, monge budista (faleceu dia 22 de Janeiro)

 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

O no!


 

Let me not to the marriage of true minds

Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove.
O no! it is an ever-fixed mark
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wand'ring bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.
Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
If this be error and upon me prov'd,
I never writ, nor no man ever lov'd.

sonnet 116, by William Shakespeare