"De lágrima fácil". eu sei, pois sou. que belo serão.
A palavra saboreada na língua arrepia-me de prazer literário.
O envelhecimento, tema que me é tão caro, nestas vozes de rádio belíssimas, numa fotografia de cena maravilhosa e dura até, doce e cruel.
A Boni, como carinhosamente chamamos à Companhia Bonifrates, presenteia-nos uma vez mais com o dom da palavra, le théatre du mot, a palavra personificada em cena, o divino do Homem, em Quero Dançar o Poente, memórias rebuscadas no lixo comum que se tornam tão, mas tão vívidas e especiais.
E hoje de manhã, o anúncio terrível, mas esperado, negado mas real, uma Grândola Vila Morena de trás para a frente. Tudo ao contrário.
Aí está, já cá estamos, começou.
Não sei se chegarei a conhecer a velhice, ninguém sabe a não ser quem já a experiencia, mas a esperança ainda vai sorrindo no meio da incerteza.
Pela Ucrânia <3
"Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne."
Herberto Helder
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