quarta-feira, 30 de junho de 2021

Parece um sonho

Parece um sonho


Parece um sonho que ela tenha morrido!
diziam todos... Sua viva imagem,
tinha carne!... E ouvia-se, na aragem,
passar o frêmito do seu vestido...

E era como se ela houvesse partido
e logo fosse regressar de viagem...
- até que em nosso coração dorido
a Dor cravava o seu punhal selvagem!

Mas tua imagem, nosso amor, é agora
menos dos olhos, mais do coração.
Nossa saudade te sorri: não chora...

Mais perto estás de Deus, como um anjo querido.
E ao relembrar-te a gente diz, então:
Parece um sonho que ela tenha vivido!

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Ao menos tu sê ave

Ergue-te de mim,
substância pura do meu canto.
Luz terrestre, fragrância.
Ergue-te, jasmim.

Ergue-te e aquece
a cal e a pedra,
as mãos e a alma.
Inunda, reina, amanhece.

Ao menos tu sê ave,
Primavera excessiva.
Ergue-te de mim:
canta, delira, arde.


Coração do Dia, Eugénio de Andrade


quinta-feira, 10 de junho de 2021

E é isto. Bom feriado.

Dia de Camões, dia da nossa língua, da minha língua vejo o mar, esta frase de Vergílio Ferreira, que nos faz percorrer a língua dentro da boca e depois vir saborear os lábios com a pontinha, como se acabássemos de mergulhar no mar e e trouxéssemos no corpo esse gosto maravilhoso do sal e a frescura arrepiante de sentir cada músculo acordado no mundo. Como um choque eléctrico que te percorre as fibras e te faz querer gritar "Eu", estás ali, és imortal por instantes, na plenitude assombrosa do teu eu-corpo nas ondas do mar, na areia molhada.

Pele de sol, Língua de sal, Olhos de mar - leu há pouco nesses chavões do Instagram. Mas... olha... reconhece-se.

Há dois verões que esse sabor parece quase longínquo, mas basta fechar os olhos para o sentir. Falta pouco.

Camões falava demasiado no amor. Tal como este blogue. Ah, mon chère, méprise, mon chère, méprise, de que serve? De que serve falar dele, de que serve o amor a não ser para o sentir? Bah. 

O Amor está, é, sente-se, é poderosíssimo,  e esse, que se sente e é, é o mais puro, o mais límpido, mas o ideal para ela é ser a transcendência emocional vivida na materialização mais humana que temos, seja pelo olhar, pelos lábios, pelo mais primário suor que se partilha num abraço sufocado.

Não vê um sem o outro. É uma cobra a mudar de pele. Não se reconhece, ainda. Falta pouco, deixa o tempo passar. A transcendência trocou-lhe as voltas. A inquietude do perguntar fervilha-lhe nas entranhas. Não!! acalma essa ansiedade, tiveste aquilo que sempre quiseste, que lias em Vergílio Ferreira e que pedias para ti, que tanto estudaste e escarrapachaste na tua tese de doutoramento, não foi? o assombro encontro, a aparição de ti a ti mesma... o espanto do eu, a dorida consciência de uma existência brutal que pode terminar num segundo, o divino em ti... não era o que querias ? pois agora aguenta.

olhos que não vêem, coração que não sente, o provérbio mais mentiroso e inadequado que alguém alguma vez se lembrou de escrevinhar.

Postou este poema em 2012... pareceu-lhe bem recordá-lo hoje de novo.

E é isto. Bom feriado.