domingo, 25 de dezembro de 2022

Vem tu, Poesia, vem

Philos-the-cat in Xmas Nostalgia (24 dez 2022)




Natal à Beira-Rio

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me a água da infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado…

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia…
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, do Mar, ou de Poesia?

(David Mourão Ferreira, Cancioneiro de Natal, 1971)

domingo, 11 de dezembro de 2022

Que o luar te amanheça

Recordar o poeta e declamador José Carlos Pereira Ary dos Santos 
(7 de Dezembro de 1937 – 18 de Janeiro de 1984)




Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.
Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia
Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia.

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria
Ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza!

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite se deram
E entre os braços da noite, de tanto se amarem, vivendo morreram.

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria
Ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza!

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso se é pranto
É por ti que adormeço e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

in As Palavras das Cantigas

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

na neve branca e fofa

Como numa tela cinematográfica, passei no recorte da janela e vi-te sentada no bar.
sorrias e o mundo parou. a vida suspendeu-se num fôlego que parecia uma eternidade como as cenas em slow motion dos filmes e o olhar cruzou-se, fulminante aparição.
depois morreste. ou matei-te. não me lembro. morreste, veio no jornal.
o avião despenhou-se no cimo dos Alpes suíços, a explosão quebrou esse corpo amado em pedacinhos que caíram na neve branca e fofa aqui e ali e não mais me sorriste. só vejo o vermelho a salpicar a neve. um desperdício, a paisagem arruinada.

não mais acordei com o teu olhar verde na fronha da almofada, nunca mais ouvi o teu riso feliz nas madrugadas de netflix que nem assim te tiravam a energia para nos encontrarmos na escuridão e arrancar ao outro uma nota mais, um suspiro, "eu vou-me..." avisavas-me ao ouvido com a boca entreaberta, os cabelos espalhados na almofada e, simplesmente, no estalido frenético e num tsunami coreográfico, o teu corpo explodia e inundavas o mundo de prazer.

morreste.... ou foi a abrir na N125... não me lembro, matei-te numa páscoa ensolarada, o carro ficou irreconhecível, pois foi, uma amálgama de peças a arder contigo, embate frontal, sem hipótese. 
o teu sorriso...
e volta e meia voltas do Hades, nas noites de insónia, e passo na janela e o tempo pára naquele recorte fotográfico em que o olhar se cruzou.

caminho no mundo dos vivos e não desejo qualquer tipo de catábase, mantém-te no Letes, dorme e sossega.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

porque sim, porque sim.

encontrar a(s) nossa(s) tribo(s) é uma sensação de pertença incrível.

quando finalmente entendes que sentires-te sem valor durante anos, incompreendido, não fazia sentido, porque afinal descobres que não eras tu que não tinhas valor, não estavas era entre gente com a mesma energeia, a mesma tribo.

e dás-te conta de que essas pessoas que falam a mesma língua que tu, que amam a arte, o Belo, o bem, a partilha, o Amor, que fazem, acontecem e caminham a par e passo com a felicidade de fazer o que se ama, existem mesmo, estão, são, e tu podes estar e ser simplesmente na tua essência.

porque sempre tiveste uma Voz, a Voz é, está, mesmo em silêncio gritante sempre esteve, mesmo não havendo ninguém a ouvir (uma árvore no deserto, se cair e ninguém ouvir, será que emite algum som?) e não será preciso gritar para te fazeres ouvir, mesmo que sussurres a medo a tribo aí está para te dar a mão, para te escutar. 

a Voz é e está, sempre esteve, sempre estará, uma respiração que une as pessoas da mesma Tribo, um cheiro, um olhar comum, é por aqui que vou, é por aqui que vamos, e cria-se e cocria-se.

não estás só, tens uma energeia que une o Humano, simplesmente vê a que te cheira o ar, segue o odor, o mais primitivo, a tua necessidade primária, o choro, o riso, quem o acolhe? 

rodeia-te das Tuas pessoas. a tua Tribo são as Tuas pessoas e jamais te sentirás de novo incompreendido ou a sentir não pertencer ali ou que não te sentes Tu. até porque a partir do momento em que deixares a tua Voz ser, percebes que nunca estás só, pois estás contigo e és suficiente e isso é um passo largo não para encontrares a tua tribo, mas para a tua ou as tuas tribos te encontrarem a ti, porque atrais o que és. também atrais quem deseja o mesmo que tu e quem deseja o que és sem conseguir e esses procurarão fazer-te-mal, mas sem tudo isto, a Vida não seria a mesma, e não se agrada a gregos e a troianos, mas sentes-te e sentes a energia que trespassa, que atravessa e que te une aos teus iguais, mesmo na ausência.

mesmo que não saibas, escolhes e responsabilizas-te. o que queres? concretiza, foca, afunila, simplifica. 

corres o risco de chorar se te deixas cativar, mas assim sabes quão magníficos e belos são os laços humanos e quanta riqueza reside no apprivoisement e na tão tuga saudade. fuma um metafórico cigarro pensativo, porque depois de misturares a teoria da Gestalt com o Principezinho, é melhor parares um pouco... olha, vai dormir, mas é, boa noite*



então e porquê o Salvador Dali e a Coco Chanel a partilhar uma cigarreira ? porque sim, porque sim (1938).

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Pull Up! Pull Up! Nhôs dexa-n livri pa N ser

Manga, Mayra Andrade 

Quase, quase, Mayra <3

Mas txeu Mas fundu Si krê’u fúndia na mi Pa bu nasi di mi un, ku dôs, ku tres bes Mas un bes, tantu bes, tantu bes Pamó dia ki N nasi y ki N torna ranasi Mundu fla-n ma N nasi pa bo Dexa-n djata, N krê djata N krê djata, N krê djata N krê kebra distánsia, N krê kebra distánsia Pa nhas brasu kamba na bo Y bu koxa bira di meu Bu saliva na nha pé Un manga na bu bóka É si ki N gosta di bo Forti N gosta di bo Ah mundu N gosta di bo Mas txeu Mas fundu Si krê’u fúndia na mi Pa bu nasi di mi un, ku dôs, ku tres bes Mas un bes, tantu bes, tantu bes Pamó dia ki N nasi y ki N torna ranasi Mundu fla-n ma N nasi pa bo Dexa-n tadja, N krê tadja, N krê tadja, N krê tadja, Tadja pa ka azara, tadja pa ka azára Pamó ki nu al ser menus Si dja nu podi ser mas Abo djô podi ku mi Sima dja N podi ku bo É si ki N gosta di bo Forti N gosta di bo Ah mundu N gosta di bo Mas txeu Mas fundu Si krê’u fúndia na mi

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

se não se puder perder

"Tentar provar o futuro é muito mais interessante do que poder conhecê-lo.

Como no jogo, não o ganhar, mas o poder ganhar.

Porque nenhuma vitória se ganha se não se puder perder"







Vergílio Ferreira, Jornal PQ, nº40, Cultura, p.21
(consultado a 16 de Novembro 2012)

De sonhar ninguém se cansa


"De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer 
não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos."

PESSOA, F. Livro do Desassossego, por Bernardo Soares. Vol. II. Mem Martins: Europa-América, 1986.

Como é por dentro outra pessoa?

Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.

Fernando Pessoa , Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955.

sábado, 19 de novembro de 2022

das Gewissen

sabem aquele momento, aquele último olhar antes do mergulho? 

antes do ponto de não retorno, aquela magnífica sensação do limiar da acção?

é nele, nesse instante de aparição de nós a nós mesmos, que somos unos, corpo e consciência, 

das gewissen

voz interior gritante e pungente, que jorra de nós para nós, brotando furiosa e nos permite sentir e dizer Eu.



Co-criações com Carlos Gomes



domingo, 13 de novembro de 2022

Com o coração no sítio certo

 A LS

"com o coração no sítio certo, ou tentando", foi a frase que encantou o dia de hoje.

são processos que demoram, lentos, internos, que devagar devagarinho nos levam tão mais longe do que de início havíamos pensado.

"se não se pode estar inteiro mais vale não estar". 

não é bem assim quando se trata de simplesmente nos encontrarmos em dia-não. já fui leccionar em dias-não, e aí ser-se honesto é a chave para que, mesmo não podendo oferecer a minha pessoa a cem por cento, pelo menos estou em presença e dou o meu melhor. o mesmo se passa em relações, sejam elas familiares, de amizade, amorosas ou profissionais, volta e meia vivemos fases menos boas, fechamo-nos um pouco em nós, mas não deixamos de estar, simplesmente respeitamos o nosso ser e o ser do outro.

contudo, se se trata de ter de tomar uma decisão, quando um caminho deixa de fazer sentido, trabalhar com esta ou aquela pessoa, neste ou naquele lugar, manter uma amizade ou uma ligação quando já nada nos diz, mas alimentamos a ideia de que ainda nos poderemos vir a animar, "ahh, mas se isto" ou "se aquilo, talvez eu ainda"... nah, quando já nada nos é natural e nada ressoa, então... é isso mesmo: "Se não se pode estar inteiro mais vale não estar".

passito a passito, "com o coração no sítio certo, ou tentando", seguramente com mais firmeza no eu, mais do que ontem e menos do que amanhã.

que assim seja*

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Sou a beleza da vida

GAL COSTA MUSA DE QUALQUER ESTAÇÃO

Me visa, me bisa
Me planta na imaginação
Me queira, me cheira
Me usa como definição
Me dá minha bola
Que eu mato no peito
Entro na área e faço um gol de efeito
Me ama, me chama
De porta-estandarte
Que eu sou uma obra de arte
Me leia, me creia
Faça fé no meu violão
Me cota, me vota
Me cai no gosto da multidão
Por que me eleger só no verão
Se eu sou musa de qualquer estação?
Sou sol e a chuva
A fruta e a flor
Eu sou um ano inteiro de amor
Sou a beleza da vida
Sou o que der e vier
A natureza da nova mulher
Sou um milagre que existe
Um coquetel da paixão
Bonitos acordes dessa canção.

Gal Costa, Musa de Qualquer Estação (1986)

Gratidão aos meus pais por me darem a conhecer Gal Costa, um dos meus vinys preferidos.
A ouvir boa música desde a barriga da mãe e canções sobre a emancipação feminina desde forever.


Gratidão, Gal Costa, pela tua arte e luta pela liberdade e poder da mulher
(26/09/1945-9/11/2022)






terça-feira, 8 de novembro de 2022

Tens carne, tens fadiga e tens pudor

CÂNTICO
Rio de Janeiro , 1946


Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde - são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante... a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas...
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

eterno o movimento do teu corpo

Fica dentro de mim, como se fosse
eterno o movimento do teu corpo,
e na carne rasgada ainda pudesse
a noite escura iluminar-te o rosto.
No teu suor é que adivinho o rastro
das palavras de amor que não disseste,
e no teu dorso nu escrevo o verso
em pura solidão acontecido.
Transformo-me nas coisas que tocaste,
crescem-me seios com que te alimente
o coração demente e mal fingido;
depois serei a forma que deixaste
gravada a lume com sabor a cio
na carícia de um gesto fugidio.


António Franco Alexandre, DUENDE
(Poeta distinguido com o Grande Prémio de Poesia Diogo Bernardes, APE / Município de Ponte da Barca, 2022)








terça-feira, 25 de outubro de 2022

petit chou d'amour

Bougainvillé, Riachos, Torres Novas

 


À Clémence, Thierry, Philomène et Aloíce

la bougainvillée et l'avocat

Il était une fois, deux jeunes filles qui finissaient leur doctorat, une en géographie et l'autre en littérature portugaise. Elles se sont rencontrées chez un Airbnb où la deuxième attendait aussi ses cours de danse.

Elles ont partagés de la soupe, des marrons grillées et surtout des sourires, des idées philosophiques et de l'amour et de l'amitié, jusqu'à nos jours.

Le temps s'est passé, elles ont réussi leurs doctorats et la vie partagée continuait son chemin, de temps en temps au sud, de temps en temps au centre, avec des belles visites et des belles soirées. 

La petite Philomène est née et ils sont tous venus visiter les beaux monuments de la ville du nord. Après, la famille est allée vivre à la terre des chevaux. La pandemie l' a obligé d'être fermée et les visites repoussées, mais le monde est devenu plus riche avec la naissance d'Aloíce, un petit chou d'amour.

Et maintenant, le centre-nord visite finalement la terre des chevaux ailés, avec une belle bougainvillée dans la voiture et un avocat. C'est le cadeau pour le baptême d'Aloíce et elles vont planter l'arbre et la fleur toutes ensemble.

En dormant dans l'autocaravane, elle a été réveillée à l'aube par le son fort du coq chanteur. Elle souriait devant les merveilles du monde et son bonjour était le plus beau, en regardant les choses plus simples, les chants de la messe, les petits bras d'Aloíce qui l'embrassait et les plaisanteries de Philomène, les bras forts de Thierry qui la serraient et la tendresse de Clémence. 

Il n'y aura jamais des mots suffisantes pour montrer la reconnaissance et l'honneur d'avoir partager cet événement, la bougainvillée et l'avocat vont croître et les enfants vont grandir et nous n'oublierons jamais le geste collectif et amoureux de les planter et de les voir pousser.


domingo, 16 de outubro de 2022

las puertas de la vida

    



"O Sorriso", Photo by LS, Ponte de Lima

A  LS

TU RISA

Quítame el pan, si quieres,
quítame el aire, pero
no me quites tu risa.

No me quites la rosa,
la lanza que desgranas,
el agua que de pronto
estalla en tu alegría,
la repentina ola
de plata que te nace.

Mi lucha es dura y vuelvo
con los ojos cansados
a veces de haber visto
la tierra que no cambia,
pero al entrar tu risa
sube al cielo buscándome
y abre para mi todas
las puertas de la vida.

Amor mío, en la hora
más oscura desgrana
tu risa, y si de pronto
ves que mi sangre mancha
las piedras de la calle,
ríe, porque tu risa
será para mis manos
como una espada fresca.

Junto al mar en otoño,
tu risa debe alzar
su cascada de espuma,
y en primavera, amor,
quiero tu risa como
la flor que yo esperaba,
la flor azul, la rosa
de mi patria sonora.


Ríete de la noche,
del día, de la luna,
ríete de las calles
torcidas de la isla,
ríete de este torpe
muchacho que te quiere,
pero cuando yo abro
los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van,
cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire,
la luz, la primavera,
pero tu risa nunca
porque me moriría.

Pablo Neruda, cancioneiro 'Los versos del Capitán', 1952

meus olhos longos de escutar sem fim

SAUDADES TRÁGICO-MARÍTIMAS

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.
Na praia, de bruços,
fico sonhando, fico-me escutando
o que em mim sonha e lembra e chora alguém;
e oiço nesta alma minha
um longínquo rumor de ladainha,
e soluços,
de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

São meus Avós rezando,
que andaram navegando e que se foram,
olhando todos os céus;
são eles que em mim choram
seu fundo e longo adeus,
e rezam na ânsia crua dos naufrágios;
choram de longe em mim, e eu oiço-os bem,
choram ao longe em mim sinas, presságios,
de além, de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Naufraguei cem vezes já...
Uma, foi na nau S. Bento,
e vi morrer, no trágico tormento,
Dona Leonor de Sá:
vi-a nua, na praia áspera e feia,
com os olhos implorando
– olhos de esposa e mãe -
e vi-a, seus cabelos desatando,
cavar a sua cova e enterrar-se na areia.
– E sozinho me fui pela praia além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Escuto em mim, – oiço a grita
da rude gente aflita:
– Senhor Deus, misericórdia!
– Virgem Mãe, misericórdia!
Doidos de fome e de terror varados,
gritamos nossos pecados,
e sai de cada boca rouca e louca
a confissão!
– Senhor Deus, misericórdia!
– Misericórdia, Virgem Mãe!
e o vento geme
no bulcão
sem astros;
anoitecemos sem leme,
amanhecemos sem mastros!
E o mar e o céu, sem fim, além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Ah! Deus por certo conhece
minha voz que se ergue, branca e sozinha,
– flor de angústia a subir aos céus varados
p'la dor da ladainha!
Transido, o clamor da prece
do mesmo sangue nos veio
Deus conhece os meus olhos alongados;
onde o mar e o céu deixaram
um pouco de vago anseio
nesse mistério longo do seu halo...
Rezam em mim os outros que rezaram,
e choraram também;
há um pranto português, e eu sei chorá-lo
com lágrimas de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Ó meu amor, repara
nos meus olhos, na sua mágoa clara!
Ainda é de além
o meu olhar de amor
e o meu beijo também.
Se sou triste, é de outrora a minha pena,
de longe a minha dor
e a minha ansiedade.
Vês como te amo, vês?
Meu sangue é português,
minha pele é morena,
minha graça a Saudade,
meus olhos longos de escutar sem fim
o além, em mim...

Chora no ritmo do meu sangue, o mar

Afonso Lopes Vieira, Ilhas de Bruma, 1917


São Jorge, Açores, Junho 2022



domingo, 9 de outubro de 2022

O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou

Castelo da Lousã, fotografia de AS (5/10/2022)




SERRA-MÃE

O agoiro do bufo, nos penhascos,...
foi o sinal da Paz.
O Silêncio baixou do Céu,
mesclou as cores todas o negrume,
o folhado calou o seu perfume,
e a Serra adormeceu.

Depois, apenas uma linha escura
e a nódoa branca de uma fonte antiga :
a fazer-me sedento, de a ouvir,
a água, num murmúrio de cantiga,
ajuda a Serra a dormir.

O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou
e anda agora à procura, pela Serra,
da verdade dos sonhos que na Terra,
nunca alcançou.

E outros murmúrios de água escuto, mais além :
os Poetas embalam sua Mãe,
que um dia os embalou .

Na noite calma,
a poesia da Serra adormecida
vem recolher-se em mim.
E o combate magnífico da Cor,
que eu vi de dia :
e o casamento do cheiro a maresia
com o perfume agreste do alecrim ;
e os gritos mudos das rochas sequiosas que o Sol castiga
--passam a dar-se em mim .

E todo eu me alevanto e todo eu ardo.
Chego a julgar a Arrábida por Mãe,
quando não serei mais que seu bastardo.

A minha alma sente-se beijada
pela poalha da hora do Sol-pôr ;
sente-se a vida das seivas e a alegria
que faz cantar as aves na quebrada ;
e a solidão augusta que me fala
pela mata cerrada,
aonde o ar no peito se me cala,
descem da Serra e concentrou-se em mim.

E eu pressinto que a Noite, nesse instante,
se vai ajoelhar ...

...............................................


Ai não te cales , água murmurante !
Ai não te cales , voz do Poeta errante !

-- se não a Serra pode despertar.


Poema de Sebastião da Gama

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Creio no incrível, nas coisas assombrosas



Publicação de Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, I.P.

"Natália Correia nasceu no dia 13 de setembro de 1923 em São Miguel, nos Açores:

‘Creio nos anjos que andam pelo mundo’

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo
pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.


- Natália Correia, in ‘Natália Correia – Antologia Poética’



Foi poeta, dramaturga e jornalista, tendo deixado uma vasta obra que se estende por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio.

Organizou também várias antologias de poesia portuguesa como “Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses” ou “Antologia da Poesia do Período Barroco”. Com a sua personalidade carismática, desafiou as convenções, nomeadamente nos anos em que foi deputada na Assembleia da República. Na década de 80, foi autora da série “Mátria”, da RTP, que apresentava uma visão do lado matriarcal da sociedade portuguesa.

Recebeu o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores em 1991, pelo livro “Sonetos Românticos”. No mesmo ano, foi-lhe atribuída a Ordem da Liberdade. Em 1981, tinha já sido feita Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.

Morreu no dia 16 de março de 1993, em Lisboa."



sábado, 10 de setembro de 2022

vocação urgente




Co-criações, com Carlos Gomes (Maio 2022)


DÁ-ME AS TUAS MÃOS


As mãos foram feitas
para trazer o futuro,
encurtar a tristeza, encher
o que fica das mãos
de ontem - intervalos
(duros, fiéis) das palavras,
vocação urgente
da ternura, pensamento
entreaberto até
aos dedos longos
pelas coisas fora
pelos anos dentro.

Vítor Matos e Sá, in 'Companhia Violenta'

Mu'danças




estrada de Coruche, Verão 2022



Alentejo
Além Tejo

Ver além de... 
Além da copa das árvores, 
Além das ramificações.
Além das raízes...
Além dos padrões e além dos bloqueios...

Passar-lhes por cima, passar-lhes por baixo, contorná-los ou atravessá-los. Não quer dizer que lá não estejam, como copas de árvores a que nos habituámos por proporcionarem fresca sombra, mas às vezes temos de sentir o vento na cara, o sol na pele, o frio que enregela, para fazer diferente, desfazer com carinho as couraças com as quais nos revestimos em defesa e apreciar o que nos espera do outro lado de nós.
E é uma dança perene, sempre em "mud'ança". Porque nesta viagem do eu, como diz Miguel Torga, "em qualquer aventura, o que importa é partir, não é chegar".

@festival.andancas 2022
Campinho

o "quero voltar para a ilha" tomou sentido palpável




Ilhas Cíes, Vigo (Verão 2022)

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo?
e ai Deus, se verrá cedo?

Ondas do mar levado,
se vistes meu amado?

e ai Deus, se verrá cedo?

Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
e ai Deus, se verrá cedo?

Se vistes meu amado,
o por que hei gram coidado?
e ai Deus, se verrá cedo?

Cantiga de Amigo, Martin Codax

terça-feira, 16 de agosto de 2022

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

escrever porque sim

A poeta Ana Luísa Amaral faleceu há quatro dias, a 6 de Agosto.

Escrevia, segundo dizia, porque assim tinha de ser. Bem-Haja pela sua obra!


Assim se Revisita o Coração

Só mal tocando as cordas
Da memória
Consegue o coração ressuscitar

Porque era este lugar
que eu precisava agora
como em deserto até
ao infinito,
e de repente,
uma gravidez imensa,
um cacto verde e limpo

Porque os olhos conhecem
estes sons
de dar à luz o vento
e são-lhe amantes
de tangível luz

Só mal tangendo as cordas
da memória
como estas flores
se tingem de alegria

Porque era neste azul
que eu me queria
como a rocha transpira
e se resolve
em mar

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

irão estar sempre aqui

Ao V

Fui despedir-me de um amigo, na casa onde dou aulas. Uma enchente de amigos calorosos, um choro comum reunido. A mesma idade dos meus pais. Apertei o braço dos dois com força.

Ao abraçar a mulher e as filhas, recordei-me deste belíssimo poema, quando ela disse, "seremos sempre 4, e agora 5, um dia 6", referindo-se às netinhas.

Porque enquanto vivermos, as pessoas que nos são queridas e que recordamos viverão também.

na hora de pôr a mesa, éramos cinco

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Luís Peixoto, in 'A Criança em Ruínas'

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

um corpo que dança


Entre muitas outras informações preciosas que este documentário bem conseguido de Marco Martins nos traz, narra a história do Ballet Gulbenkian, de 1965 a 2005, cruzando-se com a vida portuguesa, no seio da ditadura salazarista, depois com Marcelo Caetano, a Pide, a Guerra Colonial, a Emigração em massa, o analfabetismo, a pobreza e a cultura elitista. 
Tão, mas tão bom, com imagens de arquivo da RTP inéditas, ver tantas figuras do mundo da dança, como Jorge Salavisa, Clara Andermatt, Vera Mantero, Olga Roriz, Vasco Wellemkamp, misturadas com Zeca Afonso, Carlos Paredes, Ramalho Eanes, Mário Soares...

É incrível o que os bailarinos da época procuraram criar, trazer para Portugal novas ideias, tornar a dança cultural, levá-la ao Portugal profundo e analfabeto, levar a mensagem da classe operária a palco, enfim, o muito que lutaram para tornar digno o ser-se bailarino, pois eram olhados de lado, nem era considerado profissão...

Maurice Béjart, conhecidíssimo coreógrafo francês, esteve a trabalhar com a companhia em 1968 e numa noite do seu espectáculo Romeu e Julieta, no Coliseu dos Recreios, que coincidiu com o dia do assassinato do presidente Kennedy, nos EUA, pediu um minuto de silêncio ao público, após o bailado, em nome também de todas as vítimas de todos os regimes fascistas. Escusado será dizer que, no dia seguinte, foi extraditado silenciosa e discretamente pela Pide, que o levou até à fronteira espanhola e o deixou lá, cancelando os restantes espectáculos. Béjart regressou, obviamente, depois de Abril de 74!

Porque dançar é respirar!

resumo: aqui

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Eid Mubarak



عيد مبارك

Na aula, contaram-me que sábado, domingo e segunda-feira é festa, Eid, uma festa muçulmana, em que agradecem a Deus a honra da vida. Hoje à noite, as raparigas adornam-se com henna na pele; no fim de semana vestem vestidos do Afeganistão e visitam-se, dançam, partilham comida.

Já me ensinaram os primeiros passos de Attan e convidaram-me a participar da roda.

Grata por tanta aprendizagem!

Attan Dance

you must learn to join the dance

Eid Mubarak a todos os meus alunos!!!

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Make Love Not War


 Bom saber que as teorias de Reich, o pai da Psicoterapia Corporal, também inspiraram este movimento!

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Tinder - a mais breve história de desamor

Maria Francisca franze o nariz. A sério? O tipo da toalha ao lado, que acabou de chegar à praia, mal se senta, liga o bluetooth do telemóvel a uma coluna... Tipo, não vim para ouvir música, não quero ouvir a tua música, não tens uns phones? Quando quero ouvir música, pago para ir a um concerto. Na praia fluvial gosto de ouvir as cigarras e o burburinho da malta na água.

Virei uma velha do Restelo, pensa. Foi como naquela sexta-feira, havia quase três semanas. Separada havia quatro anos, instigada por duas amigas por não ter tido ninguém, lá acedeu aos rogos de instalar aquela afamada aplicação no telemóvel. Eram 15h36 da tarde. Duas fotografias de rosto, o primeiro e o último nome, que raras vezes usava, se gostava de acampar, caminhadas, enfim, lá respondeu ao inquérito breve, clicou que não queria acrescentar mais nada ao perfil e abriu para ver como funcionava.

Choveram "olás" de moços com descrições como "uma jóia de rapaz, segundo a minha avó" ou pérolas como "Queres ser a minha Tinderella?". Contam-se pelos dedos de uma mão os verdes e mais de mil os NOPES. 

Trabalhou, lanchou, estudou, as notificações caíam vorazmente ao longo da tarde e ao serão. Maldisse as amigas e aquela ideia contra a qual lutara tanto tempo e, pelos vistos, com as suas razões. Não é para mim, está visto.

"Tão linda e tão longe!" (revirava os olhos de tédio).

"Olá, estás bem?" (não se lembrava de ter estado doente e aquela pessoa não a conhecia, mas adiante) "Olá Francisca, que idade tens?" (pimbas, este não sabe ler, a idade está lá escarrapachada... next)

Enfim.

O desencanto. Se a conversa não flui nem é interessante, não é um sorriso colgate que salvaria o dia. Tudo insípido, como se fazia a comida para os diabéticos, antes de se saber o que se sabe hoje. Oh sorte, pensou.

Nada, e nem é por uma prateleira de fotografias que se julga uma pessoa. Isto é difícil assim. Sou mesmo uma velha do Restelo. Tenho saudades de uma boa conversa, de um olhar, de uma mão a roçar na mão, para arrepiar o outro. Esconder-se atrás de um ecrã é tão fácil e ao mesmo tempo tão triste... 

Chegou a casa tarde das aulas, fatigada, começou a despir-se, a preparar-se para dormir. 

A lavar os dentes, choveu mais um plim plim da APP. Ena, espreitou ainda sem abrir, este escreveu um parágrafo inteiro. Pode ser que seja mais promissor.

Terminou de se arranjar e deitou-se nos lençóis frescos, abrindo a janela da conversa: "Olá Francisca! Tudo bem? Preferes sushi no restaurante ou pizza no sofá a ver TV?"

Tempuras, eu gosto é de tempuras. 

Morreu. Não dá. Clicou com o indicador persistentemente, durante uns segundos: "Desinstalar?" 

Sim, por favor. Olhou de soslaio para o relógio, eram 23h46, nem oito horas durara a APP. Desligou o candeeiro. Talvez um dia, por um acaso, esbarre com alguém de jeito, em presença, ao vivo, "à antiga". Deitada de bruços, abraçou a almofada e adormeceu.

Tinder, a mais breve história de desamor.


quarta-feira, 29 de junho de 2022

a gente está tão farta que já nem se importa

Da página do Facebook Para Português Ler

"Teolinda Gersão escreveu:
Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.
Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.

Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. ”O Quim está na retrete”: “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é uma característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar, etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12.º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Luisa Fortes da Cunha um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8.º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).

terça-feira, 28 de junho de 2022

O que em mim sente está pensando

Pudesse eu ser como a ceifeira de Pessoa e ter uma alegre inconsciência que me impedisse de pensar demais, porque segundo o Caeiro "Amar é a eterna inocência, / E a única inocência é não pensar..."


Co-Criações com Carlos Gomes


Ela canta, pobre ceifeira,

Ela canta, pobre ceifeira,

Julgando-se feliz talvez;

Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia

De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave

No ar limpo como um limiar,

E há curvas no enredo suave

Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,

Na sua voz há o campo e a lida,

E canta como se tivesse

Mais razões para cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!

O que em mim sente está pensando.

Derrama no meu coração

A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!

Ter a tua alegre inconsciência,

E a consciência disso! Ó céu!

Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!

Entrai por mim dentro! Tornai

Minha alma a vossa sombra leve!

Depois, levando-me, passai!


Fernando Pessoa