segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

um templo, um poema

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O Mosteiro da Batalha

"(...)

E ei-lo aí que se levanta
Com majestosa grandeza,
Daquela gentil proeza
Sublime recordação:
Ei-lo aí aos céus erguido,
Como um colosso gigante
Apontando ao caminhante
O sítio da grande acção.

Altos pórticos, lavores
D'ostentosa arquitectura,
Coruchéus d'imensa altura
Roçando a fronte nos céus;
Dentro, a nobre majestade
Do santuário profundo,
Onde, extinta a voz do mundo,
Só lembra o passado, e Deus.

Sobre os góticos pilares
Brilham trémulos fulgores,
Que das vidraças de cores
Entorna a mística luz.
Tudo cala, mas, se o órgão
Por entre as naves ressoa,
Tudo se anima, e apregoa
O santo Verbo da cruz.

Então a mente se enleva
Nas torrentes da harmonia
Que da abóbada vazia
Retumbam pela multidão;
E, abrasada nos fulgores
Dos vivos, sagrados lumes,
Sobre as asas dos perfumes
Revoa à etérea mansão.

Se tudo cai em silêncio,
Cai em si mesma, e medita,
Recordando a data escrita
Nesses góticos umbrais.
Pensa então nos heroísmos,
E crenças de meia idade,
Combatendo a escuridade
Daqueles tempos feudais;

(...)

E pensa também no artista,
Nesse arquitecto inspirado,
Que um poema sublimado
Ali traçou a cinzel;

(...)

Que as gerações passando reverentes
Possam, volvendo as páginas da história,
Largas eras saudar, curvando as frentes,
Esse padrão d'imerredoira glória!"


Soares de Passos, Poesia, Colecção Mnésis, Assírio Bacelar 1983, pp.165-171.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A vida zumbe à volta/ das pétalas fechadas dos sentidos

Epithalamium

 I

As persianas todas abre e o dia deixa entrar
como um ruído ou um mar.
Que da inútil sombra nenhum recanto
os pensamentos da noite constranja
ou o confronto traga
de algumas coisas serem tristes.
Porque hoje é o dia de todos se alegrarem.
É manhã! É a plena manhã! Inteiro
o sol nasce do abismo onde
por trás da oculta orla da sombra do horizonte
ontem à noite mergulhou.
(...)

Fernando Pessoa, "Epithalamium", English Poems III, tradução de Natália Correia, in Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e SatíricaDos Cancioneiros Medievais à actualidade, Antígona&Frenesi, Lisboa 1999, p.350.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Pretextos para fugir do real

A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher
E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência 
Nua nos meus braços

              *

Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos



Alexandre O´Neill
Poesias Completas
1951/1981
Biblioteca de Autores Portugueses
Imprensa Nacional  Casa da Moeda