sexta-feira, 24 de agosto de 2012

ninguém

Pois bem, e já que me permite aconselhá-lo, peço-lhe que desista de tudo isso. Está a olhar para fora de si, e é sobretudo isso que não deve fazer agora. Ninguém o pode aconselhar, ninguém o pode ajudar, ninguém. Há uma única via. Entre dentro de si. Investigue a razão que o leva a escrever, veja se ela lançou raízes no lugar mais recôndito do seu coração, pergunte se morreria caso fosse impedido de escrever. Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se esta resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um "tenho" simples e forte, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade; a sua vida, mesmo nas horas indiferentes e pequenas, terá de ser um sinal e um testemunho deste ímpeto.

Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, Primeira Carta, Quasi Edições, Famalicão 2008, p.12

terça-feira, 7 de agosto de 2012

cores falam de um céu que anoitece

Iniciação à noite

É a hora grave do entardecer. (...) Cessaram as cores da alegria, as que resplandecem espectaculares numa praia de verão, as cores intactas à sombra, quando o sol desce a pique. Mas as que as renderam não são cores da tristeza - são, quando muito, de uma serena aceitação. Assim elas amortecem na ameaça da noite que se adivinha e estendem-se na horizontal, que é a linha do repouso, o traço de uma soma. E se por vezes a linha desce na vertical, é à memória de uma taça que transborda em silêncio, num jardim deserto ao fim da tarde. São na sombra as cores do céu e da terra porque elas são a verdade de um homem, desde os olhos até aos pés. Mas são cores silenciosas, não daquelas que gritam e chamamos por isso "gritantes".
Espaço e silêncio são assim as dominantes destes quadros (...) - espaço que se abre para a infinitude do homem e o silêncio que sobe até esse homem da terra. São quadros para olharmos infinitamente e não para simplesmente nos alegrarmos - passarmos - e esquecermos. (...)
Pintura elegíaca? Pintura grave onde os gestos cessaram e as palavras que os acendiam. Pintura apenas de ser. Como tudo o que simplesmente é.

Vergílio Ferreira, Conta Corrente Nova Série I, Bertrand Editora, Lisboa 1993, p.39.