http://www.youtube.com/watch?v=hCNXp6LRP7E&feature=related
Ludovico Einaudi, Lady Labyrinth
O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os
homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXIX"
"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve", Vergílio Ferreira, Escrever
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Se amares o universo, serás do tamanho dele
Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela? Põe-na lá. Vergílio Ferreira, Escrever ![]() | |||
| http://silentstilllife.blogspot.com/2010/04/blog-post.html Intervenção sobre Edvard Munch. Noite estrelada. 1922-24. |
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Encontros imediatos
Nada podeis contra o amor,
contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
E é tão pouco!
Eugénio de Andrade, Frente a frente
contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
E é tão pouco!
Eugénio de Andrade, Frente a frente
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Nua, a poesia sai dentre o arvoredo.
Como graça fugida ao namorado,
Vem a sorrir da causa do seu medo:
O seu corpo de noiva fecundado.
Vem com seu passo ledo,
Já sem rugas na fronte; descuidado
O coração divino, onde um segredo
Só em humana luz é revelado.
Realidade, embriaguez, beleza,
Tudo ela traz e entrega no seu gesto.
Há no seu rosto aberto outra certeza,
Outro sol, outro sonho, outra alegria.
O seu próprio regresso é o seu protesto
Contra o falso pudor por que fugia
Miguel Torga, "Regresso", in Poesia Completa, volume I, Ed. Dom Quixote, Lisboa 2007, p.181
Como graça fugida ao namorado,
Vem a sorrir da causa do seu medo:
O seu corpo de noiva fecundado.
Vem com seu passo ledo,
Já sem rugas na fronte; descuidado
O coração divino, onde um segredo
Só em humana luz é revelado.
Realidade, embriaguez, beleza,
Tudo ela traz e entrega no seu gesto.
Há no seu rosto aberto outra certeza,
Outro sol, outro sonho, outra alegria.
O seu próprio regresso é o seu protesto
Contra o falso pudor por que fugia
Miguel Torga, "Regresso", in Poesia Completa, volume I, Ed. Dom Quixote, Lisboa 2007, p.181
terça-feira, 8 de novembro de 2011
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia, Herberto Helder
"Isolés dans l'amour ainsi qu'en un bois noir,
Nos deux coeurs, exhalant leur tendresse paisible,
Seront deux rossignols qui chantent dans le soir"
Paul Verlaine
É difícil lutar com o coração, pois paga-se com a alma.
χαλεπὸν θυμῷ μάχεσθαι· ψυχῆς γὰρ ὠνεῖται.
Heraclito DK B85
| Lagoa da Ervedeira, Praia do Pedrógão. Fotografia de Susana Antunes. |
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
seremos nós a vertigem
Invention of Love (2010) - Animated Short Film
Preto ou branco!
Não se pensa, sente-se e não se pode inventar.
"E das mãos que saiam gestos
de pura transformação
Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem"
Alexandre O'Neill
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
"Claro que tenho medo": a palavra no corpo
"Não pude evitar. O amor nasce assim. Às vezes, só num olhar. Não se pode resistir à felicidade.”
"Pourquoi le plaisir de la solitude s’en va avec la solitude ?"
"Todas as noites...todas as manhãs...
(...)
Vamos fazer qualquer coisa... não se faz nada aqui...
Se tenho medo? Claro que tenho medo...
É um sítio tão racional quanto inexplicável
(...)
Claro que tenho medo"
Mas "Amor é fogo que arde sem se ver", "É um não querer mais que bem querer", "é um andar solitário entre a gente", "É querer estar preso por vontade"...
Sábio soneto.
"When the fear came..."
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Porcupine tree - Prepare Yourself
Segue o teu destino
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Ricardo Reissegunda-feira, 3 de outubro de 2011
subitamente as palavras romperam
"entrego-te as palavras mais brandas
que entre os meus dedos construí
para alimentar de ti os recantos da casa
invadindo o coração da noite
entrego-te as palavras com redonda luz
das maçãs sobre a mesa e o rumor da água
rasgando o caminho da paixão
em horas que já não conseguimos sem ajuda recordar
mas que habitam a mais frágil memória de nós próprios
palavras jorrando dos meus olhos
invadindo-te o sono e tropeçando
nas esquinas das frases que decoro
ao longo dos veios da tua pele
(...)
porque nunca ninguém se prepara convenientemente
para a chegada do amor
e ele é sempre um convidado estranho
sentado em silêncio na penumbra da sala
olhando os quadros o chão o tecto
como um velho parente da província
com medo de dizer o que não deve"
Alice Vieira, Poesia, Dois corpos tombando na água, Editorial Caminho, Lisboa 2011
que entre os meus dedos construí
para alimentar de ti os recantos da casa
invadindo o coração da noite
entrego-te as palavras com redonda luz
das maçãs sobre a mesa e o rumor da água
rasgando o caminho da paixão
em horas que já não conseguimos sem ajuda recordar
mas que habitam a mais frágil memória de nós próprios
palavras jorrando dos meus olhos
invadindo-te o sono e tropeçando
nas esquinas das frases que decoro
ao longo dos veios da tua pele
(...)
porque nunca ninguém se prepara convenientemente
para a chegada do amor
e ele é sempre um convidado estranho
sentado em silêncio na penumbra da sala
olhando os quadros o chão o tecto
como um velho parente da província
com medo de dizer o que não deve"
Alice Vieira, Poesia, Dois corpos tombando na água, Editorial Caminho, Lisboa 2011
sábado, 1 de outubro de 2011
Aqui...
terça-feira, 27 de setembro de 2011
est-il d'autres vies?
"Connais-je encore la nature? me connais-je? - Plus de mots.
J'ensevelis les morts dans mon ventre. Cris, tambour, danse, danse, danse, danse! Je ne vois même pas l'heure où, les blancs débarquant, je tomberai au néant.
Faim, soif, cris, danse, danse, danse, danse!"
Rimbaud, Une saison en enfer, Poésie, Gallimard
J'ensevelis les morts dans mon ventre. Cris, tambour, danse, danse, danse, danse! Je ne vois même pas l'heure où, les blancs débarquant, je tomberai au néant.
Faim, soif, cris, danse, danse, danse, danse!"
Rimbaud, Une saison en enfer, Poésie, Gallimard
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
"A minha fala tem as vozes do círculo cromático"
À memória de Júlio Resende
"A minha fala tem as vozes do círculo cromático", afirmava Júlio Resende, em entrevista, no ano de 2008.
"A minha fala tem as vozes do círculo cromático", afirmava Júlio Resende, em entrevista, no ano de 2008.
O pintor, que faleceu esta quarta-feira, dia 21 de Setembro de 2011, nasceu no Porto a 23 de Outubro de 1917 e frequentou as Escolas de Belas-Artes do Porto e de Paris. Iniciou a sua actividade no mundo artístico como ilustrador sobretudo infantil e na imprensa diária enquanto jovem. Entre os seus trabalhos, além da pintura e exposições, inclusive em numerosas bienais, contam-se experiências com azuleijaria e trabalhos no âmbito arquitectónico, que lhe garantiram diversos prémios, como o Prémio AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte) em 1985.
Ilustrou romances como Aparição de Vergílio Ferreira, em 1959 (que lhe garantiu o Prémio Artes Gráficas na Bienal de Artes de S. Paulo) e uma edição de Retalhos da vida de um médico (Lisboa, 1973), do escritor Fernando Namora, obra que me é bastante querida e da qual deixo uma imagem.
Ilustrou romances como Aparição de Vergílio Ferreira, em 1959 (que lhe garantiu o Prémio Artes Gráficas na Bienal de Artes de S. Paulo) e uma edição de Retalhos da vida de um médico (Lisboa, 1973), do escritor Fernando Namora, obra que me é bastante querida e da qual deixo uma imagem.
![]() | |||||
“Sou médico. Um médico é um médico; não escolhe doentes nem caminhos”,
Retalhos da Vida de Um Médico I, p.28
Dizia Resende: "O Picasso não procura, o Picasso encontra. Eu procuro, continuo à procura"
(entrevista 2008)
http://www.publico.pt/Cultura/julio-resende-a-morte-cada-vez-me-preocupa-menos-1512931
terça-feira, 20 de setembro de 2011
a força que tem um verso
Poeta Castrado, Não!
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegada poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
De fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia !
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado, não!
Ary dos Santos - Resumo. Lisboa, 1973.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
This is me
Neither prison nor temple of the soul, the body has always been an important refuge of the self. The body cannot be expropriated by another (...) it cannot be plagiarized (...) Its ownership cannot be collectivized, except perhaps during pregnancy. He or she who "has" any one body gets to keep it, enjoy its pleasures, and suffer its breakdown, whatever miracles are at his or her disposal to fix it as it breaks. The body is the passport, the warrant, the seal of one's identity.
"This", said as one firmly pounds one's chest with the flat of one's hands, "is me".
Rita Charon, Chapter 5, "The Pacient, the Body, and the Self", in Narrative Medicine, Honoring the Stories of Illness, 2006, Oxford University Press.
És homem, não te esqueças!
Ao Jorge*
Recomeça...
se puderes,
sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres
nesse caminho duro
do futuro,
dá-os em liberdade.
Enquanto não o alcances
não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
Miguel Torga
(a parte do "sem pressa" não é para levar muito à letra)
Recomeça...
se puderes,
sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres
nesse caminho duro
do futuro,
dá-os em liberdade.
Enquanto não o alcances
não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
Miguel Torga
(a parte do "sem pressa" não é para levar muito à letra)
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
E suportar é o tempo mais comprido.
| Chamo-te Chamo-te porque tudo está ainda no princípio E suportar é o tempo mais comprido. Peço-te que venhas e me dês a liberdade, Que um só de Teus olhares me purifique e acabe. Há muitas coisas que não quero ver. Peço-te que sejas o presente. Peço-te que inundes tudo. E que o teu reino antes do tempo venha E se derrame sobre a Terra Em Primavera feroz precipitado. Sophia de Mello Breyner Andresen (declamação http://youtu.be/fs_Hvx8XgRA) |
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Horas, horas sem fim
Espera
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.
Eugénio de Andrade
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Palavras assim deste jaez
Pelo aniversário de Aquilino Ribeiro
"Dentro da mata, com aquele seu ar de igreja antes de dizer missa, os horizontes a esfumarem-se por detrás das dunas onduladas, o silêncio - sim, o silêncio, pois o marulho das ondas e o ramalhar das franças ao vento parece ficar de fora, de envolta às paredes duma redoma - o exército hirto e negro de troncos"
A batalha sem fim, de Aquilino Ribeiro (sobre a Mata do Pedrógão)
Como o percebo...
"Dentro da mata, com aquele seu ar de igreja antes de dizer missa, os horizontes a esfumarem-se por detrás das dunas onduladas, o silêncio - sim, o silêncio, pois o marulho das ondas e o ramalhar das franças ao vento parece ficar de fora, de envolta às paredes duma redoma - o exército hirto e negro de troncos"
A batalha sem fim, de Aquilino Ribeiro (sobre a Mata do Pedrógão)
Como o percebo...
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
A disponibilidade das palavras...
"A disponibilidade das palavras! Pedras roladas pelo ímpeto expressivo de cada povo, criações inquietas e versáteis da inquieta e versátil natureza humana, o glaciar que as empurra, e lhes vai pulindo as arestas, não lhes consente a mais pequena recusa aos caprichos da sua vontade. Tanto as abandona enigmáticamente num dos valeiros da montanha, e as condena ao esquecimento eterno da íntima inércia, como lhes muda o rumo e a significação - e torna vivo o que parecia morto, e novo o que na verdade envelhecera - ou as sublima e degrada no mesmo instante, - um som igual a brilhar na alta cúpula dum verso ou a bruxulear no rasteiro alicerce dum insulto.
No pasarán!"
Miguel Torga, A criação do mundo (o terceiro dia), 3ª edição revista, Coimbra 1952
No pasarán!"
Miguel Torga, A criação do mundo (o terceiro dia), 3ª edição revista, Coimbra 1952
domingo, 11 de setembro de 2011
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Es muss sein: o primeiro aniversário
Decorreu um ano desde que originei este blogue.
Estamos, de novo, a cinco dias dos Idos de Setembro, que é como quem diz à laia de romana, a dia 9 do dito mês...
"E já que a vida é feita de pequenos nadas..." canta a voz singular de Sérgio Godinho (“Caramba”) que a minha infância e adolescência completou com a ternura e a vivacidade das suas letras.
Se o é, de facto, evoquemos essa hipótese neste caso, o "nada que é tudo" pessoano faz, no dia de hoje, todo o sentido, já que um vazio sítio cibernáutico foi sendo povoado de literatura ao longo de 12 densos meses.
Num verdadeiro e "puro exercício de ninguém" (Natália Correia), confesso que às vezes me assustava a manutenção destas virtuais páginas onde, com gosto e dedicação, fui apontando algumas das mais deliciosas palavras que assolavam as minhas eclécticas leituras.
E volto todavia a Milan Kundera, à Insustentável leveza do ser:
"Der schwer gefasste Entschluss, a decisão gravemente pesada está associada à voz do destino (Es muss sein!); o peso, a necessidade e o valor são três noções íntima e profundamente ligadas: só é grave o que é necessário, só tem valor o que pesa". Será esta noção sustentável? "Mas o homem, porque só tem uma vida, não tem qualquer possibilidade de verificar as hipóteses através da experiência e nunca poderá saber se teve ou não razão em obedecer aos seus sentimentos" Kundera
"Espero viver dentro de mim" - afirma Natália Correia, na Defesa do poeta - ainda que seja só um cibinho, "descobrir o imponderável" de mim (Vergílio Ferreira, Em nome da terra)!
Pois seja, "Sou um poeta, jogo-me aos dados...". Então... isso quer dizer que...("Es koonte auch anders sein", Kundera) podia muito bem ser de outra maneira? Que nada está já escrito que as coisas têm de ser como são? Que são ou não o são?
"Pardieu!" (e evoco o Vaqueiro vicentino, do Auto da Visitação): nesse caso, no caso do acaso e do livre-arbítrio, com que peças de jogo nos movemos no tabuleiro? Podemos seguir este caminho e/ou aqueloutro, pois não há um "es muss sein", mas sim uma natural e ordenada desordem? Ou uma encantadora e desordenada ordem?
"Que prazer não cumprir um dever" (e conseguimos imaginar Fernando Pessoa espreguiçando-se estirado alegremento num sofá)! Se não existe um "es muss sein", o peso explodirá em leveza. Todavia, a dada altura, a leveza adquirirá o seu peso e desejá-lo-á-…?
A verdade é que "continuamos para aqui a dançar na corda bamba" (Sérgio Godinho) e o equilíbrio é desejável, mas poderá tornar-se um adynaton...o único ensejo legítimo, e que a todos assiste (além do medo), é a vontade de que o cosmos se re-reorganize, sempre, periodicamente, à medida dos nossos desejos e dos nossos tempos, pois com eles “mudam-se as vontades”…Que se reorganize calmamente e que tenhamos a consciência e o prazer de o saber saborear em cada momento, para que a "alma volte a subir à superfície do corpo como a tripulação a sair do ventre de um navio" (Kundera)
Mas que nunca alcance o peso de Para Sempre (Vergílio Ferreira), que eu não sinta as janelas da minha morada a cerrarem-se na penumbra, uma a uma como as de Paulo, o protagonista...ou, se o sentir, se o desejar - numa bela metáfora do eufemístico entardecer - , que seja já num final de vida delicioso e que, ao olhar para trás, possa compreender que, num dado momento, as tais janelas, no seu tempo oportuno, foram alegremente escancaradas para uma vida que brotava e para um mundo que me inundava.
São de veludo as palavras...nesta tão estranha vida (http://www.youtube.com/watch?v=CTyPuuq9yLM&feature=related)
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Uma coisa assim
A um Tu
"Tudo isto é difícil e eu não to sei dizer. Tudo isto está fora das leis humanas ou divinas porque é maior do que elas, do que o imaginado pelo homem para o homem e para os deuses. Há o nosso encontro aí porque tudo pesa imenso e nós devemos ser verdade. Verdade acima de um corpo que apodrece e de um espírito que se extraviou. Verdade entre a solidão que espera uma ideia deitada fora, uma palavra erradia, um olhar que alguém tenha esquecido num balde de lixo.
(...)
Para lá de ti, o inqualificável de tu seres, o absurdo indecifrável da tua presença. Um pouco isso, um nada disso. Eu digo o teu mistério e tudo fica por dizer porque o aniquilei com dizer. A tua pessoa, a transfiguração de ti na minha memória incerta. Reconheço-te, não te sei dizer, que é que de mim reconheces para um encontro plausível?
(...)
A tua essência, poderei dizê-lo? a tua divindade antes de haver deuses, uma coisa assim. E eu ir ter contigo e sermos em iluminação. Uma chama pura. O sopro do universo, não sei.
(...)
Quero estar contigo sem nada de permeio que nos divida e nos identifique em separação. Estar contigo no absoluto de nós - onde é que poderemos ser todos no indizível e incomparável?
(...)
A essência de nós e uma incerta alegria de uma estrela nos reconhecer. O fulgor de sermos e os astros estarem de acordo. E os deuses que ainda não nasceram e são puros de um início que não tiveram.
Uma coisa assim - e que pena não saber o que é".
Vergílio Ferreira, Em nome da terra
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
"O me! O life!"
Porque revi parte do Dead Poets Society:
"We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. And medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for. To quote from Whitman, "O me! O life!... of the questions of these recurring; of the endless trains of the faithless... of cities filled with the foolish; what good amid these, O me, O life?" Answer. That you are here - that life exists, and identity; that the powerful play goes on and you may contribute a verse.
What will your verse be?"
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
un fresco múltiple y variable
"Se han esfumado las fronteras de la realidad, la vida es un laberinto de espejos encontrados y de imágenes torcidas.
Así es mi vida, un fresco múltiple y variable que sólo yo puedo descifrar y que me pertenece como un secreto. La mente selecciona, exagera, traiciona, los acontecimientos se esfuman, las personas se olvidan y al final sólo queda el trayecto del alma, esos escasos momentos de revelación del espíritu. No interesa lo que me pasó, sino las cicatrices que me marcan y distinguen."
Paula, de Isabel Allende
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Miscuglio di rumori
"L'inizio era paura, paura e piacere e un' orrida curiosità di ciò che stava per venire"
Thomas Mann, Morte a Venezia
Thomas Mann, Morte a Venezia
terça-feira, 23 de agosto de 2011
"- ¿Creés en Diós?"
" - Creo en el río que va y viene, se expande, navega hacia el mar y uno va tierra adentro. A mí me commueve eso. Todos esos pensamientos, ese mundo de la naturaleza me inspira mucho"
Entrevista a la cantora Liliana Herrero, "Música del Alma", Revista Cielos Argentinos, no avião, Agosto 2011.
" - Creo en el río que va y viene, se expande, navega hacia el mar y uno va tierra adentro. A mí me commueve eso. Todos esos pensamientos, ese mundo de la naturaleza me inspira mucho"
Entrevista a la cantora Liliana Herrero, "Música del Alma", Revista Cielos Argentinos, no avião, Agosto 2011.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
os robôts da loucura é que a ignoram
Tenho apenas esta vida para viver, e seria quase uma traição que eu faltasse à sua entrevista - essa entrevista combinada desde toda a eternidade. Por isso eu a procuro à minha vida, em toda a parte onde sei que ela me espera com uma palavra a dizer.
Vergílio Ferreira, "O encontro original", in Carta ao Futuro
Vergílio Ferreira, "O encontro original", in Carta ao Futuro
domingo, 14 de agosto de 2011
É o meu corpo. Calhou-me.
"Estou velho. Há o sol e a neve e a aldeia deserta. O meu corpo o sabe, na humildade do seu cansaço, do seu fim. Alegria breve, este meu sabê-lo, esta posse de todo o milagre de eu ser e a deposição disso para o estrume da terra. Sento-me ao sol, aqueço. Estou só, terrivelmente povoado de mim. Valeu a pena viver? Matei a curiosidade, vim ver como isto era, valeu a pena. É engraçada a vida e a morte. Tem a sua piada, oh, se tem. Vim saber como isto era e soube coisas fantásticas. Vi a luz, a terra, os animais. Conheci o meu corpo em que apareci. É curioso um corpo. tem mãos, pés, nove buracos. Meteram-me nele, nunca mais o pude despir, como um cão à cor do pêlo que lhe calhou. É um corpo grande, um metro e oitenta e tal. É o meu corpo. Calhou-me. Movo as mãos, os pés, e é como se fossem meus e não fossem. É extraordinário, fantástico, um corpo. Com ele e nele tomei posse e conhecimento de coisas espantosas. Não seria uma pena não ter nascido? Ficava sem saber. Dirás tu: de que te serve se amanhã já não sabes? É certo. Mas agora sei. De que servem os prazeres que já tive e nunca mais poderei ter? Não servem de nada, serviram."
Alegria Breve, Vergílio Ferreira
Alegria Breve, Vergílio Ferreira
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Cale os seus olhos
É de olhares. É de olhares que eu preciso. (...) de um certo olhar. Preciso Doutor, que o azul dos seus olhos me faça companhia, que a cor, que é do céu e do mar, me traga a paz... Por favor, olhe-me e no seu olhar prometa-me. (...) o meu corpo é um casulo, dele só nascem borboletas. (...)
Não se esqueça, doutor, peço-lhe! É de um olhar que eu preciso. Cale-se, não fale, não anuncie tempestades, furacões, não me afunde em tristeza sem retorno. Conhece o poço, doutor? Já se debruçou? Conhece o fundo negro onde se reflecte a minha cara? Onde o eco da minha voz, ao repetir-se se apaga, como o tom dos sem vida.
(...) Perceba, Doutor, eu sou a Terra... há dentro de mim muito mais do que pode compreender. (...) Diga lá, Doutor, alguma vez dos seus olhos nasceu o Sol?
"Crónica do olhar que anuncia a morte", in Sinto Muito, Nuno Lobo Antunes
Não se esqueça, doutor, peço-lhe! É de um olhar que eu preciso. Cale-se, não fale, não anuncie tempestades, furacões, não me afunde em tristeza sem retorno. Conhece o poço, doutor? Já se debruçou? Conhece o fundo negro onde se reflecte a minha cara? Onde o eco da minha voz, ao repetir-se se apaga, como o tom dos sem vida.
(...) Perceba, Doutor, eu sou a Terra... há dentro de mim muito mais do que pode compreender. (...) Diga lá, Doutor, alguma vez dos seus olhos nasceu o Sol?
"Crónica do olhar que anuncia a morte", in Sinto Muito, Nuno Lobo Antunes
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
"duas solidões acompanhadas"
Correspondência entre Mécia e Jorge de Sena, "duas solidões acompanhadas", como o próprio escritor os descrevia, pois "esperar sempre fora parte de nos vermos".
Carta de Jorge para Mécia:
[…]”Isso desejava eu: reaprender a sonhar, a esperar, a confiar, a acreditar num futuro meramente pessoal, eu que tanto tenho acreditado em futuros colectivos. É esse o papel que te está reservado: acordar-me, encantar-me, absorver-me, chamar-me a uma vida inteiramente minha, que eu tenho dispersado, para que ma não roubem, e assim alguns bocados se salvem (creio que estou a lembrar-me sem querer, daquela lenda egípcia do Osíris cortado às fatias). Isso tens feito, naturalmente, pela tua condição de mulher, e de mulher que me quer a mim; […]
Lisboa, 5/1/1946.
In SENA, Mécia de, SENA, Jorge de – Isto tudo que nos rodeia (Cartas de amor).Lisboa: IN/CM, 1982, p. 76-77.
Carta de Mécia para Jorge:
[…] “ Para mim acho que uma obra de arte tem duas discussões: como obra de arte e como conteúdo. […] Olha lá, por favor não me dês troco, eu tenho maluqueira que chegue e sobre, tu bem sabes, e depois começo logo a andar na lua sem saber porquê. Fosse o Adão como tu e eu pasmaria como é que a Eva pôde ser tanto tempo ajuizada. Forte tola. Até amanhã, meu querido. Desculpa. Estou bem disposta e, para dizer a verdade, foi a tua carta que me dispôs bem, porque eu vinha aborrecida da rua, cheia de frio, farta de andar com rebanhos de eléctrico para eléctrico."
In SENA, Mécia de, SENA, Jorge de – Isto tudo que nos rodeia (Cartas de amor).Lisboa: IN/CM, 1982.
Vide:
Maria Otília Pereira Lage, Correspondência(S) MÉCIA / JORGE DE SENA(EVOCAÇÃO DE CARRAZEDA, anos 1940)
GUIMARÃES, Universidade do Minho – Instituto de Ciências Sociais, Núcleo de Estudos de População e Sociedade (NEPS), 2007
Carta de Jorge para Mécia:
[…]”Isso desejava eu: reaprender a sonhar, a esperar, a confiar, a acreditar num futuro meramente pessoal, eu que tanto tenho acreditado em futuros colectivos. É esse o papel que te está reservado: acordar-me, encantar-me, absorver-me, chamar-me a uma vida inteiramente minha, que eu tenho dispersado, para que ma não roubem, e assim alguns bocados se salvem (creio que estou a lembrar-me sem querer, daquela lenda egípcia do Osíris cortado às fatias). Isso tens feito, naturalmente, pela tua condição de mulher, e de mulher que me quer a mim; […]
Lisboa, 5/1/1946.
In SENA, Mécia de, SENA, Jorge de – Isto tudo que nos rodeia (Cartas de amor).Lisboa: IN/CM, 1982, p. 76-77.
Carta de Mécia para Jorge:
[…] “ Para mim acho que uma obra de arte tem duas discussões: como obra de arte e como conteúdo. […] Olha lá, por favor não me dês troco, eu tenho maluqueira que chegue e sobre, tu bem sabes, e depois começo logo a andar na lua sem saber porquê. Fosse o Adão como tu e eu pasmaria como é que a Eva pôde ser tanto tempo ajuizada. Forte tola. Até amanhã, meu querido. Desculpa. Estou bem disposta e, para dizer a verdade, foi a tua carta que me dispôs bem, porque eu vinha aborrecida da rua, cheia de frio, farta de andar com rebanhos de eléctrico para eléctrico."
In SENA, Mécia de, SENA, Jorge de – Isto tudo que nos rodeia (Cartas de amor).Lisboa: IN/CM, 1982.
Vide:
Maria Otília Pereira Lage, Correspondência(S) MÉCIA / JORGE DE SENA(EVOCAÇÃO DE CARRAZEDA, anos 1940)
GUIMARÃES, Universidade do Minho – Instituto de Ciências Sociais, Núcleo de Estudos de População e Sociedade (NEPS), 2007
sábado, 6 de agosto de 2011
E eu sei dar por isso muito bem...
| Felgar, fotografia minha (Agosto 2011) |
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Um pouco isso, um nada disso
Dorme. Está uma noite sufocante. Para lá das janelas, por sobre os telhados em frente, um aceno invisível. Para lá de ti, o inqualificável de tu seres, o absurdo indecifrável da tua presença. Um pouco isso, um nada disso. Eu digo o teu mistério e tudo fica por dizer porque o aniquilei com dizer. A tua pessoa, a transfiguração de ti na memória incerta. Reconheço-te, não te sei dizer, que é que de mim reconheces para um encontro plausível? (...)
O incorruptível, não do teu corpo, mas do teu ser. A perfeição, não da tua harmonia, mas da necessidade de existir. A tua essência, poderei dizê-lo? a tua divindade antes de haver deuses, uma coisa assim. E eu ir ter contigo e sermos uma iluminação. Uma chama pura. O sopro do universo, não sei. O começo, a origem de nós mesmos, a nossa ascensão. Quero estar contigo sem nada de permeio que nos divida e nos identifique em separação. Estar contigo no absoluto de nós.
A essência de nós e uma incerta alegria de uma estrela nos reconhecer. O fulgor de sermos e os astros estarem de acordo. E os deuses que ainda não nasceram, e são puros de um início que não tiveram.
Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra.
O incorruptível, não do teu corpo, mas do teu ser. A perfeição, não da tua harmonia, mas da necessidade de existir. A tua essência, poderei dizê-lo? a tua divindade antes de haver deuses, uma coisa assim. E eu ir ter contigo e sermos uma iluminação. Uma chama pura. O sopro do universo, não sei. O começo, a origem de nós mesmos, a nossa ascensão. Quero estar contigo sem nada de permeio que nos divida e nos identifique em separação. Estar contigo no absoluto de nós.
A essência de nós e uma incerta alegria de uma estrela nos reconhecer. O fulgor de sermos e os astros estarem de acordo. E os deuses que ainda não nasceram, e são puros de um início que não tiveram.
Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Giving is not to nullify
Restituir-me por inteiro é dar-me até ao fim.
No jardim barroco, tanques e repuxos gelaram
durante a noite, mas os limoeiros estão intactos
contra os muros caiados de branco.
O gelo no chão não tocou as flores de laranjeira:
este Dezembro, as fontes geladas e as flores
partilham a manhã em conciliada coexistência;
ao meio-dia o termómetro continua abaixo de zero,
mas as árvores meridionais frutificam.
Assim dar-me por inteiro não me isenta de mim,
do mesmo modo que na manhã de Dezembro
a fonte gelada não impede a laranjeira de florir.
Frederico Lourenço, Santo Asinha e outros poemas, Editorial Caminho, 2010, p.13
No jardim barroco, tanques e repuxos gelaram
durante a noite, mas os limoeiros estão intactos
contra os muros caiados de branco.
O gelo no chão não tocou as flores de laranjeira:
este Dezembro, as fontes geladas e as flores
partilham a manhã em conciliada coexistência;
ao meio-dia o termómetro continua abaixo de zero,
mas as árvores meridionais frutificam.
Assim dar-me por inteiro não me isenta de mim,
do mesmo modo que na manhã de Dezembro
a fonte gelada não impede a laranjeira de florir.
Frederico Lourenço, Santo Asinha e outros poemas, Editorial Caminho, 2010, p.13
Tempo e tranquilidade: "multiplicação de nós mesmos que é a felicidade"
"Se pensássemos que os olhos de uma rapariga como aquela não passam de uma brilhante rodela de mica, não ficaríamos ávidos de conhecer a sua vida e de a ligar a nós. Mas sentimos que o que brilha naquele disco reflector não se deve unicamente à sua composição material; que são as negras sombras, que nos são desconhecidas, das ideias que essa criatura concebe relativamente às pessoas e aos lugares que conhece - relvados dos hipódromos, areia dos caminhos para onde, pedalando por campos e bosques, me teria arrastado essa pequena feiticeira, mais sedutora para mim que o peri do paraíso persa -, e também as sombras da casa onde vai entrar, dos projectos que constrói ou construíram para ela; e sobretudo que é ela, com os seus desejos, as suas simpatias, as suas repulsas, a sua obscura e incessante vontade"
Marcel Proust, À sombra das raparigas em flor
Marcel Proust, À sombra das raparigas em flor
terça-feira, 26 de julho de 2011
Psicossomáticos
Poetic language can compel the reader to co-operate physically:
"...each line is like a dancer who, if you are going to read the line at all, forces you to be a partner and dance... You can pronounce the line as silently as you like, but that launching of the inner self into full kinaesthetic participation is, so to speak, compulsory."
Stephe Harrop, "Physical Performance and the Language of Translation, in Theorising Performance, Greek Drama, Cultural History and Critical Practice, p.238.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Por enquanto há a eternidade de um relógio sem ponteiros.
De nós à vida há um vidro muito puro, muito límpido e o corpo é o vidro. Vai levar tempo que ele rache e crie lixo para existir, mas por enquanto não. Por enquanto é só a necessidade e a evidência de existir como os deuses e as pedras, antes de as racharem para calcetarem as ruas. Por enquanto há o milagre sem milagre nenhum.
Por enquanto há a eternidade de um relógio sem ponteiros.
Vergílio Ferreira, Em nome da terra
Por enquanto há a eternidade de um relógio sem ponteiros.
Vergílio Ferreira, Em nome da terra
mensagem: esperar.
Não me saem da mente estes versos de Fernando Pessoa.
Mas será? Não olhar a meios para atingir os fins? Perceber o que se quer? E se nunca chegarmos a perceber?
Ponto de interrogação (arriscamos?) ou ponto de exclamação (arriscamos!) ?
Arrisquemos...
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Mensagem, Fernando Pessoa
Mas será? Não olhar a meios para atingir os fins? Perceber o que se quer? E se nunca chegarmos a perceber?
Ponto de interrogação (arriscamos?) ou ponto de exclamação (arriscamos!) ?
Arrisquemos...
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Mensagem, Fernando Pessoa
terça-feira, 19 de julho de 2011
Com as metáforas não se brinca (?)
Nunca se pode saber o que se deve querer porque só se tem uma vida que não pode ser comparada com vidas anteriores nem rectificada em vidas posteriores.
(...)
Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado.
Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um esquisso. Mas nem mesmo "esquisso" é a palavra certa, porque um esquisso é sempre o esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso de nada, é um esboço sem quadro.
O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor ... mas através do desejo de partilhar o sono.
Enquanto as pessoas são novas e as partituras musicais das suas vidas ainda só vão nos primeiros compassos, podem compô-las em conjunto e até trocarem temas.
Com as metáforas não se brinca. O amor pode nascer de uma única metáfora.
Milan Kundera, A insustentável leveza do ser
(...)
Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado.
Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um esquisso. Mas nem mesmo "esquisso" é a palavra certa, porque um esquisso é sempre o esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso de nada, é um esboço sem quadro.
O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor ... mas através do desejo de partilhar o sono.
Enquanto as pessoas são novas e as partituras musicais das suas vidas ainda só vão nos primeiros compassos, podem compô-las em conjunto e até trocarem temas.
Com as metáforas não se brinca. O amor pode nascer de uma única metáfora.
Milan Kundera, A insustentável leveza do ser
segunda-feira, 18 de julho de 2011
eu não construo conceitos de um discurso rigoroso e exacto
Texto de António Ramos Rosa
"Poema que dedico à leitura do desenho de Manuela Justino:
Toda tu és o olhar do teu corpo
e esse olhar ouve saboreia toca
e quando desenhas uma mancha no papel como uma nuvem esfarrapada
é porque a tua visão tem a luz da sombra mais vidente
que dir-se-ia que vê com as pálpebras no mar nocturno de um deserto obscuro
e reúnes a sombra e a claridade como se imergisse do ouvido
Tu danças em torno de cinzas que bailam com a vertigem de uma sensação
mas também visão funda de uma água intempestiva
Tu ofereces-nos a forma mais intensa e obscura porque é a da matéria viva
És solidária da vida nascente porque te levantas no seio da ruptura
Mas eu que te digo estas palavras fascinadas quem sou eu?
Apenas uma estilha de vida no teu caminho
e tu um elemento que inunda e frutifica
Mas de algum modo tu pintas e eu escrevo sobre ti é porque há uma relação
talvez um pouco errática mas solidária e produtiva
Se te descrevo talvez com audaciosa paixão é porque
não podendo ser quem sou sou aquilo que escrevo
e sou também o que ama e tem o desejo de penetrar na obscuridade
onde aprendeste a ver o negro no negro
Tu não és tanto o dia que multiplica os espelhos como a noite que se vai abolindo
Se te escrevo com alguma justeza ou algum fulgor sombrio
é porque vejo com o sono que é a minha face feminina
e para te dizer talvez o mais importante
eu não construo conceitos de um discurso rigoroso e exacto
mas escrevo porque para mim a nudez seduz-me e no conhecimento
com o avesso de tudo como o ar é o avesso de uma asa."
http://manuelajustino.blogspot.com/2008_03_01_archive.html
domingo, 17 de julho de 2011
São talvez enigmas com outro significado
Muitas vezes os livros falam de outros livros. Muitas vezes um livro inócuo é como uma semente, que florescerá num livro perigoso, ou inversamente, é o fruto doce de uma raíz amarga. (...)
Até então tinha pensado que cada livro falava das coisas, humanas ou divinas, que estão fora dos livros. Agora apercebia-me que, não raro, os livros falam dos livros, ou melhor, é como se falassem entre si. À luz desta reflexão, a biblioteca pareceu-me meis inquietante. Era portanto o lugar de um longo e secular sussurro, de um diálogo imperceptível entre pergaminhos e pergaminhos, uma coisa viva, um receptáculo de poderes que uma mente humana não podia dominar, tesouro de segredos emanados de tantas mentes, e sobrevivendo à morte daqueles que os tinham produzido ou deles se tinham feito mensageiros.
O nome da Rosa, Umberto Eco (finalmente a lê-lo)
Até então tinha pensado que cada livro falava das coisas, humanas ou divinas, que estão fora dos livros. Agora apercebia-me que, não raro, os livros falam dos livros, ou melhor, é como se falassem entre si. À luz desta reflexão, a biblioteca pareceu-me meis inquietante. Era portanto o lugar de um longo e secular sussurro, de um diálogo imperceptível entre pergaminhos e pergaminhos, uma coisa viva, um receptáculo de poderes que uma mente humana não podia dominar, tesouro de segredos emanados de tantas mentes, e sobrevivendo à morte daqueles que os tinham produzido ou deles se tinham feito mensageiros.
O nome da Rosa, Umberto Eco (finalmente a lê-lo)
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Viver é isto, quando se é só vida.
Ser
Cansada expectativa tão ansiosa
que ser só eu na minha vida espalha!
Na longa noite em que se tece a malha
do que não serei nunca, fervorosa
minha presença rútila e curiosa
arde sombria como um arder de palha,
curiosa apenas de saber se goza
o voar das cinzas quando o vento calha
lá onde o levantá-las é verdade.
Inutilmente se mistura tudo,
que a mesma ansiedade, já esquecida,
de novo recomeça. Mas quem há-de
contrariá-la? Eu não, que não me iludo:
Viver é isto, quando se é só vida.
Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'
que ser só eu na minha vida espalha!
Na longa noite em que se tece a malha
do que não serei nunca, fervorosa
minha presença rútila e curiosa
arde sombria como um arder de palha,
curiosa apenas de saber se goza
o voar das cinzas quando o vento calha
lá onde o levantá-las é verdade.
Inutilmente se mistura tudo,
que a mesma ansiedade, já esquecida,
de novo recomeça. Mas quem há-de
contrariá-la? Eu não, que não me iludo:
Viver é isto, quando se é só vida.
Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'
quarta-feira, 6 de julho de 2011
As três bailarinas de Picasso
Leve como a pluma
Gestos de bailarina
Aquece-se a atleta matutina
Moldada mulher, no ventre da densa neblina
Revelada a obra prima
Em carne e osso esculpida
Traspassa o ar a rosa tatuada
A correr, mais veloz do que a vida
E, do chão que ela pisa
Brotam versos de perfeita rima
Onde poetas bebem vocábulos
Como água de fonte cristalina
Gestos de bailarina
Aquece-se a atleta matutina
Moldada mulher, no ventre da densa neblina
Revelada a obra prima
Em carne e osso esculpida
Traspassa o ar a rosa tatuada
A correr, mais veloz do que a vida
E, do chão que ela pisa
Brotam versos de perfeita rima
Onde poetas bebem vocábulos
Como água de fonte cristalina
por João Luis Calliari
![]() |
| http://www.terminartors.com/files/artworks/1/9/9/19966/Picasso_Pablo-Three_Dancers.jpg |
terça-feira, 5 de julho de 2011
Não mais, silêncio, não mais
Dois poemas de O'Neill
FALA
Fala a sério, fala no gozo
Fá-la pela calada e fala claro,
Fala deveras saboroso
Fala barato e fala claro,
Fala ao ouvido e fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão.
Fala à miúda, mas fala bem.
Fala ao teu Pai mas ouve tua Mãe.
Fala françês, fala béubéu,
fala fininho e fala grosso.
Desentulha a garganta, levanta o pescoço.
Fala como se falar fosse andar,
fala com elegância, muito, e, devagar!
_________________________________
A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
FALA
Fala a sério, fala no gozo
Fá-la pela calada e fala claro,
Fala deveras saboroso
Fala barato e fala claro,
Fala ao ouvido e fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão.
Fala à miúda, mas fala bem.
Fala ao teu Pai mas ouve tua Mãe.
Fala françês, fala béubéu,
fala fininho e fala grosso.
Desentulha a garganta, levanta o pescoço.
Fala como se falar fosse andar,
fala com elegância, muito, e, devagar!
_________________________________
A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
sempre, sempre mar endins
EXCELSIOR
Vigila, esperit, vigila,
no perdis mai el teu nord,
no et deixis du´ a la tranquila
aigua mansa de cap port.
Gira, gira el ulls enlaire,
no miris les platges roïns,
dóna el front an el gran aire,
sempre, sempre mar endins.
Sempre amb les veles suspeses
del cel al mar transparent,
sempre entorn aigües esteses
que es moguin eternament.
Fuig-ne, de la terra innoble,
fuig dels horitzons mesquins:
sempre al mar, al gran mar noble;
sempre, sempre mar endins.
Fora terres, fora platja,
oblida't de tot regrés:
no s'acaba el teu viatge,
no s'acabarà mai més...
Excelsior, Joan Maragall, poeta catalão (1860-1911)
http://youtu.be/GrPB7m3bjC0
Vigila, esperit, vigila,
no perdis mai el teu nord,
no et deixis du´ a la tranquila
aigua mansa de cap port.
Gira, gira el ulls enlaire,
no miris les platges roïns,
dóna el front an el gran aire,
sempre, sempre mar endins.
Sempre amb les veles suspeses
del cel al mar transparent,
sempre entorn aigües esteses
que es moguin eternament.
Fuig-ne, de la terra innoble,
fuig dels horitzons mesquins:
sempre al mar, al gran mar noble;
sempre, sempre mar endins.
Fora terres, fora platja,
oblida't de tot regrés:
no s'acaba el teu viatge,
no s'acabarà mai més...
Excelsior, Joan Maragall, poeta catalão (1860-1911)
http://youtu.be/GrPB7m3bjC0
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Yo no busco, yo encuentro.
Museu Pablo Picasso, Barcelona
![]() | |||||||||
| "Quiero decir el desnudo. No quiero hacer un desnudo como un desnudo. Quiero no solamente decir, sino decir pie, decir mano, decir vientre,... una sola palabra basta cuando se habla de estas cosas". Un pintor con nostalgia del significante, un pintor con una concepción del cuerpo que va de la palabra al goce. Podría decirse que Picasso pensaba dibujando, que su mano era una extensión de su mente, siempre en efervescente búsqueda creativa, en constante trasformación. Son ciento setenta y cinco pequeños cuadernos de dibujo los que se conservan realizados entre 1894 y 1967. http://sites.google.com/site/arteprocomun/picasso-el-desnudo-dibujado-sobre-cobre-y-piedra- |
terça-feira, 28 de junho de 2011
as in life, so in art
Great writers are either husbands or lovers. Some writers supply the solid virtues of a husband: reliability, intelligibility, generosity, decency. There are other writers in whom one prizes the gifts of a lover, gifts of temperament rather than of moral goodness. Notoriously, women tolerate qualities in a lover - moodiness, selfishness, unreliability, brutality - that they would never countenance in a husband, in return for excitement, an infusion of intense feeling. In the same way, readers put up with unintelligibility, obsessiveness, painful truths, lies, bad grammar - if, in compensation, the writer allows them to savor rare emotions and dangerous sensations. And, as in life, so in art both are necessary, husbands and lovers. It's a great pity when one is forced to choose between them.
Susan Sontag, "Camus' Notebooks", in Against the Interpretation and other essays.
Susan Sontag, "Camus' Notebooks", in Against the Interpretation and other essays.
sábado, 25 de junho de 2011
À cautela, não levo esferográfica.
"Granito? Não obrigado."
Se há sítio no mundo aonde tenha medo de ir parar, tombar, ser ambulanciado, é esse o banco do Hospital S.José, em Lisboa.
Quantas e quantas vezes, crises asmáticas agudas, cardiopatias até imaginárias, ansiedades súbitas ou mesmo uns copitos a mais, a muito mais que a conta do meu aguentar, fui a correr, meti-me num táxi e recomendei pressa, carro amigo me levou, chegado ao banco me deixei ficar na sala de espera, balançando entre a aflição e o meu pavor do guiché. Até que coisa passe e me ponha a pirar, porreiríssimo.
Azar. Há dias enfiei resoluto…eram 7h20. Asma. Uma noire de respirar-não respirar, vá de bomba azul, vá de castanha, um calmante, logo café forte abrir a clarabóia para oxigenar, abanicar-me com um jornal dobrado…
Desta, porém, não. Aguardava-me um implacável homem de bata branca; direi um dr. propedêutico ou periférico, em fim de turno, chateadíssimo de aturar mazelas alheias.
Dr., por favor, venha a terapêutica habitual e piro-me já!
Não era assim tão fácil. Estava perante um fulano opinioso e teimoso, como tive depois o desprazer de verificar.
Pergunta seca: “O senhor trabalha com granito?” Olhei-o. Ele tinha a papeleta de inscrição na mão, diante do nariz. Lá vinha (…) Português, Escritor, 56 anos de idade. Naturalmente, sem acrimónia, respondi: “Geralmente é com esferográfica… granito, não, obrigado!” E fiz questão de espetar o dedo nas indicações da papeleta. Reagiu, áspero: “A minha pergunta não era destituída de lógica. Há escritores que carregam com pesos maiores.” Boa! Nunca tal vira nem o soubera. Mestre Vergílio Ferreira nunca refere, no seu (dele) “Livro Escuro” que é a Conta-Corrente, andar a carregar pianos sextos andares escusos. O meu Presidente da APE, Dr. Urbano Tavares Rodrigues, não me consta que pratique matinalmente o exercício de descarregar a saca-de-orelhas com batatas para o mercado da Ribeira.
LÓGICA?: Nem por isso. Nadinha. Mas aquilo que pensa um asmático, em ânsias de dispneia, não chega ao acontecimento oral audível. Mia, logo existe.
Sou o eterno convalescente, percebe-se. Ó asmáticos sexagenários!, ouvide, ouvide, dai-me razões de apoio (…) Percorri desde o Verão de 1925, toda a evolução da terapêutica anti-asmática (…) testes, para determinar as causas próximas, imediatas da minha alergia. (…) se vejo uma vassoura, fico sufocado -, certos cheiros, tintas. E toda e qualquer espécie de poluição, incluindo a mental, dita Estupidez.
(…) Por esse tempo, oito e picos, o movimento do banco começa a acelerar.. Pares de bombeiros-maqueiros despejam a sua colheita de estropiados, gritantes moribundos. Muito distractivo. A nossa defesa é um esforço de desumanização: não se meter na dor alheia, no seu conhecimento, deixar andar. Morra quem viveu, salve-me eu. Tronco disponível e quase despido para novas deduções do propedêutico, que passava por mim a, possivelmente, avaliar quantos gramas de granito eu podia elevar…
Foi quando, eram 9h45, me levantei do meu canto, e me dirigi a uma dr.ª mais atenciosa… “Sr.ª dr.ª, qual é, afinal, o MEU problema? Ou qual é o VOSSO?” (…)
Se aquela alma propedêutica que me atribuía forças atléticas para lidar com granito como se fosse algodão, viesse dar-me, certa e garantida, a novidade que o meu enfisema era mera fantasia, este vosso doentinho rejuvenescia (…)
O dr. propedêutico fora dormir. Informei-me do nome. Vou socorrer-me dele (…) pagando-lhe e bem no seu consultório. À cautela, não levo esferográfica. Mas uma moca (…) Sei como a consulta termina, quando ele me apresentar a factura.
José Luiz Pacheco, Revista 365, nº30, 2003, pp.57-61
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Je laisse aller, me laisse inhaler, mon opium
"Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio."
Há quem diga
Les Chats Dansantes, de Nuno Almeida, Projecto Cellophane, no Festival Silêncio.
http://www.festivalsilencio.com/filmagem.php?id=24
On fait pas des rêves par des silences
Há quem diga que voamos nas asas
de abelhas-mestras, de flor em flor,
a preparar milagres de espasmos
domingo, 19 de junho de 2011
Não mais! Não mais! Que eu esqueça que te tive,
e tu me esqueças debruçado em ti!
Que tudo seja como outrora eu vi:
uma figura ao longe recortada,
e fina e esbelta, ou suave e alongada,
não tão distante que me não entendas,
nem tão perto de mim que tu me vendas,
no mesmo corpo belo, o que não vive
nesse teu rosto ou sob a pele:
uma malícia esplêndida, capaz
de se entregar violenta quando a impele,
sem mais que orgulho, a força juvenil.
Assim será que, em mim, teu corpo jaz.
E sem nos lábios o sorriso vil.
Mas como há-de teu corpo em mim ter paz?
Jorge de Sena, III, Sete sonetos da visão perpétua
sexta-feira, 17 de junho de 2011
"Sim senhores, que lindo luar o desta noite.
De manhã, ainda não nascera o sol, levantaram-se. Blimunda já comeu o pão. Dobrou a manta, era apenas uma mulher repetindo um gesto antigo, abrindo e fechando os braços, segurando debaixo do queixo as dobras feitas, depois descendo as mãos até ao centro do seu próprio corpo e aí fazendo a dobra final, quem para ela olhasse não diria que tem estranhos poderes de ver"
José Saramago, Memorial do Convento.
(veio-me à mente esta imagem a noite passada, a dobrar mantos cor de sangue num telhado da cidade, sob as estrelas e o luar âmbar, ainda que ligeiramente encoberto sob uma película nublada)
De manhã, ainda não nascera o sol, levantaram-se. Blimunda já comeu o pão. Dobrou a manta, era apenas uma mulher repetindo um gesto antigo, abrindo e fechando os braços, segurando debaixo do queixo as dobras feitas, depois descendo as mãos até ao centro do seu próprio corpo e aí fazendo a dobra final, quem para ela olhasse não diria que tem estranhos poderes de ver"
José Saramago, Memorial do Convento.
(veio-me à mente esta imagem a noite passada, a dobrar mantos cor de sangue num telhado da cidade, sob as estrelas e o luar âmbar, ainda que ligeiramente encoberto sob uma película nublada)
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Reflexos
Mário Cesariny
O navio de espelhos
não navega cavalga
Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível
Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos
Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele
Os armadores não amam
a sua rota clara
(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)
Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga
O seu porão traz nada
nada leva à partida
Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta
(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)
Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto
A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto
Quando um se revolta
há dez mil insurrectos
(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)
E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escuta o mar do fundo
Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)
Do princípio do mundo
até ao fim do mundo
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Não sou poeta, mas por favor, acordem-me!
Em pleno azul
"(...)
E quando páro e faço a propaganda
dos lugares mais comuns da poesia
há um terror quase obsceno
nos seus olhos maternais
Então prometo congressos
em pleno azul
Prometo uma solução
em pleno azul
Prometo não fazer nada
em pleno azul
(...)
Visivelmente sossegadas
é a hora de não cumprir
de recomeçar cantando
calamidades desastres
ruínas por decifrar
Se eu não estivesse a dormir
perguntaria aos poetas
A que horas desejam que vos acorde?
Vamos decifrar ruínas
identificar os mortos
dormir com mulheres reais
denunciar os traidores
e atraiçoar a poesia
envenenada nas palavras
que respiram ausência podre
vamos dizer sem maiúsculas
o amor a vida e a morte"
Alexandre O'Neill, in Tempo de fantasmas
"(...)
E quando páro e faço a propaganda
dos lugares mais comuns da poesia
há um terror quase obsceno
nos seus olhos maternais
Então prometo congressos
em pleno azul
Prometo uma solução
em pleno azul
Prometo não fazer nada
em pleno azul
(...)
Visivelmente sossegadas
é a hora de não cumprir
de recomeçar cantando
calamidades desastres
ruínas por decifrar
Se eu não estivesse a dormir
perguntaria aos poetas
A que horas desejam que vos acorde?
Vamos decifrar ruínas
identificar os mortos
dormir com mulheres reais
denunciar os traidores
e atraiçoar a poesia
envenenada nas palavras
que respiram ausência podre
vamos dizer sem maiúsculas
o amor a vida e a morte"
Alexandre O'Neill, in Tempo de fantasmas
segunda-feira, 13 de junho de 2011
domingo, 12 de junho de 2011
So long as men can breathe or eyes can see, vence a natureza
Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed;
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature's changing course untrimmed;
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow'st;
Nor shall death brag thou wand'rest in his shade,
When in eternal lines to time thou grow'st:
So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed;
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature's changing course untrimmed;
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow'st;
Nor shall death brag thou wand'rest in his shade,
When in eternal lines to time thou grow'st:
So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.
(William Shakespeare, 1609)
sábado, 11 de junho de 2011
"e lamber o bolor inocente da insónia" - aging
o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão
(...)
conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo.
(...)
sabes como é falso o tempo das imagens
dos gestos inacabados que te evocam o rosto
perdido no confuso sémen dos sonhos
e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia
(...)
e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração
[...] no centro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. (...) e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."
Al berto, "Os Amigos", in O último coração do sonho
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão
(...)
conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo.
(...)
sabes como é falso o tempo das imagens
dos gestos inacabados que te evocam o rosto
perdido no confuso sémen dos sonhos
e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia
(...)
e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração
[...] no centro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. (...) e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."
Al berto, "Os Amigos", in O último coração do sonho
¡Es la hora de la medianoche mortal!
¿Sabes cuál es la única obligación que tenemos en esta vida? Pues no ser imbéciles. La palabra «imbécil» es más sustanciosa de lo que parece, no te vayas a creer. Viene del latín baculus que significa «bastón»: el imbécil es el que necesita bastón para caminar.
Que no se enfaden con nosotros los cojos ni los ancianitos, porque el bastón al que nos referimos no es el que se usa muy legítimamente para ayudar a sostenerse y dar pasitos a un cuerpo quebrantado por algún accidente o por la edad. El imbécil puede ser todo lo ágil que se quiera y dar brincos como una gacela olímpica, no se trata de eso. Si el imbécil cojea no es de los pies, sino del ánimo: es su espíritu el debilucho y cojitranco, aunque su cuerpo pegue unas volteretas de órdago.
Hay imbéciles de varios modelos, a elegir:
a) El que cree que no quiere nada, el que dice que todo le da igual, el que vive en un perpetuo bostezo o en siesta permanente, aunque tenga los ojos abiertos y no ronque.
b) El que cree que lo quiere todo, lo primero que se le presenta y lo contrario de lo que se le presenta: marcharse y quedarse, bailar y estar sentado, masticar ajos y dar besos sublimes, todo a la vez.
c) El que no sabe lo que quiere ni se molesta en averiguarlo. Imita los quereres de sus vecinos o les lleva la contraria porque sí, todo lo que hace está dictado por la opinión mayoritaria de los que le rodean: es conformista sin reflexión o rebelde sin causa.
d) El que sabe que quiere y sabe lo que quiere y, más o menos, sabe por qué lo quiere pero lo quiere flojito, con miedo o con poca fuerza. A fin de cuentas, termina siempre haciendo lo que no quiere y dejando lo que quiere para mañana, a ver si entonces se encuentra más entonado.
e) El que quiere con fuerza y ferocidad, en plan bárbaro, pero se ha engañado a sí mismo sobre lo que es la realidad, se despista enormemente y termina confundiendo la buena vida con aquello que va a hacerle polvo.
(...)
Siento decirte que los imbéciles suelen acabar bastante mal, crea lo que crea la opinión vulgar. Cuando digo que «acaban mal» no me refiero a que terminen en la cárcel o fulminados por un rayo (eso sólo suele pasar en las películas), sino que te aviso de que suelen fastidiarse a sí mismos y nunca logran vivir la buena vida esa que tanto nos apetece a ti y a mí.
Y todavía siento más tener que informarte que síntomas de imbecilidad solemos tener casi todos; vamos, por lo menos yo me los encuentro un día sí y otro también, ojalá a ti te vaya mejor en el intento... Conclusión: ¡alerta! ¡en guardia!, ¡la imbecilidad acecha y no perdona!
Fernando Savater, Ética para Amador, p.22
Que no se enfaden con nosotros los cojos ni los ancianitos, porque el bastón al que nos referimos no es el que se usa muy legítimamente para ayudar a sostenerse y dar pasitos a un cuerpo quebrantado por algún accidente o por la edad. El imbécil puede ser todo lo ágil que se quiera y dar brincos como una gacela olímpica, no se trata de eso. Si el imbécil cojea no es de los pies, sino del ánimo: es su espíritu el debilucho y cojitranco, aunque su cuerpo pegue unas volteretas de órdago.
Hay imbéciles de varios modelos, a elegir:
a) El que cree que no quiere nada, el que dice que todo le da igual, el que vive en un perpetuo bostezo o en siesta permanente, aunque tenga los ojos abiertos y no ronque.
b) El que cree que lo quiere todo, lo primero que se le presenta y lo contrario de lo que se le presenta: marcharse y quedarse, bailar y estar sentado, masticar ajos y dar besos sublimes, todo a la vez.
c) El que no sabe lo que quiere ni se molesta en averiguarlo. Imita los quereres de sus vecinos o les lleva la contraria porque sí, todo lo que hace está dictado por la opinión mayoritaria de los que le rodean: es conformista sin reflexión o rebelde sin causa.
d) El que sabe que quiere y sabe lo que quiere y, más o menos, sabe por qué lo quiere pero lo quiere flojito, con miedo o con poca fuerza. A fin de cuentas, termina siempre haciendo lo que no quiere y dejando lo que quiere para mañana, a ver si entonces se encuentra más entonado.
e) El que quiere con fuerza y ferocidad, en plan bárbaro, pero se ha engañado a sí mismo sobre lo que es la realidad, se despista enormemente y termina confundiendo la buena vida con aquello que va a hacerle polvo.
(...)
Siento decirte que los imbéciles suelen acabar bastante mal, crea lo que crea la opinión vulgar. Cuando digo que «acaban mal» no me refiero a que terminen en la cárcel o fulminados por un rayo (eso sólo suele pasar en las películas), sino que te aviso de que suelen fastidiarse a sí mismos y nunca logran vivir la buena vida esa que tanto nos apetece a ti y a mí.
Y todavía siento más tener que informarte que síntomas de imbecilidad solemos tener casi todos; vamos, por lo menos yo me los encuentro un día sí y otro también, ojalá a ti te vaya mejor en el intento... Conclusión: ¡alerta! ¡en guardia!, ¡la imbecilidad acecha y no perdona!
Fernando Savater, Ética para Amador, p.22
sexta-feira, 10 de junho de 2011
terça-feira, 7 de junho de 2011
Esse ritmo das ninfas repetido
O ritmo antigo que há em pés descalços,
Esse ritmo das ninfas repetido,
Quando sob o arvoredo
Batem o som da dança,
Vós na alva praia relembrai, fazendo,
Que 'scura a 'spuma deixa; vós, infantes,
Que inda não tendes cura
De ter cura, responde
Ruidosa a roda, enquanto arqueia Apolo
Como um ramo alto, a curva azul que doura,
E a perene maré
Flui, enchente ou vazante.
Ricardo Reis, Odes
tacteias a pedra até ser flor
Sinais de Fogo
Sinais de fogo, os homens se despedem
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
não é de nós, mas é de quem reacende
outros sinais ardendo na distância,
um breve instante, gestos e palavras,
ansiosas brasas que se apagam logo.
(Jorge de Sena, Sinais de Fogo, in Visão Perpétua, 1967)
Promessa de uma noite
cruzo as mãos
sobre as montanhas
um rio esvai-se
ao fogo do gesto
que inflamo
a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor
(Mia Couto, in "Raíz de orvalho e outros poemas", Caminho, 2009)
http://www.facebook.com/media/set/?set=a.205848176126938.58438.100001052726269#!/photo.php?fbid=207441589291613&set=a.114014221967684.7650.112890882080018&type=1&theater
Sinais de fogo, os homens se despedem
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
não é de nós, mas é de quem reacende
outros sinais ardendo na distância,
um breve instante, gestos e palavras,
ansiosas brasas que se apagam logo.
(Jorge de Sena, Sinais de Fogo, in Visão Perpétua, 1967)
Promessa de uma noite
cruzo as mãos
sobre as montanhas
um rio esvai-se
ao fogo do gesto
que inflamo
a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor
(Mia Couto, in "Raíz de orvalho e outros poemas", Caminho, 2009)
http://www.facebook.com/media/set/?set=a.205848176126938.58438.100001052726269#!/photo.php?fbid=207441589291613&set=a.114014221967684.7650.112890882080018&type=1&theater
sábado, 4 de junho de 2011
O que é difícil é acontecer aí o Sol
Não sonhes a eternidade, que os deuses aposentaram-se e já não a fabricam. Mas porque a não fabricas tu, se soubeste fabricar quem a fabricava? Está aí à tua mão, aproveita-a. Está aí numa música, num quadro, num poema. E se te é trabalhoso ter olhos e ouvidos, porque não experimentas tentá-la no que passou e onde nunca falha? Está lá, na sua fixação para sempre.
Vergílio Ferreira, Pensar, 63 e 464.
Vergílio Ferreira, Pensar, 63 e 464.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Podem tirar-te tudo, tudo, tudo
Podem despir-te de tudo o que tens
Podem tirar-te os olhos com que vês o mundo,
A arte com que pões viver
Numa folha de papel
(...)
Poeta,
Podem tirar-te tudo, tudo, tudo,
Que ainda ficará qualquer coisa de ti;
Qualquer coisa que poderá estar numa palavra apenas...
(...)
Qualquer coisa enorme, imensa indefinível,
Que também pode caber na mais ínfima das coisas
Qualquer coisa enorme, imensa, indefinível,
Atravessando os mares e abrangendo os mundos
Aguinaldo Fonseca, "Poeta", in Linha do Horizonte.
Podem tirar-te os olhos com que vês o mundo,
A arte com que pões viver
Numa folha de papel
(...)
Poeta,
Podem tirar-te tudo, tudo, tudo,
Que ainda ficará qualquer coisa de ti;
Qualquer coisa que poderá estar numa palavra apenas...
(...)
Qualquer coisa enorme, imensa indefinível,
Que também pode caber na mais ínfima das coisas
Qualquer coisa enorme, imensa, indefinível,
Atravessando os mares e abrangendo os mundos
Aguinaldo Fonseca, "Poeta", in Linha do Horizonte.
domingo, 29 de maio de 2011
Felizes poetas esses
Mandelstamm, Akhmatova e Rilke
ouviam vozes a ditar-lhes versos. Mesmo
o Valéry falava de um primeiro verso
de que se deduziam os seguintes.
Em tempos mais antigos, os demónios
(pessoais espíritos assim como anjos
menos da guarda que do ouvido bichos)
assim segredos assopravam sem
dizerem mais que enigmas. Felizes
poetas esses (como ainda os há)
capazes de de se crerem nunca sós
nem mesmo às horas mais terríveis da
terrível solidão. Por trás dos ombros,
lá estava o espiritinho a acompanhá-los
nos seus calvários de exilados ou de assassinados,
ou moradores de Duínos principescos,
ou de prefaciadores sacrificando-se
por uns milhares de francos a compor
ensaios sur l'idée de dictature.
Os Sócrates e os Goethes todos tiveram disto,
como outros depois a escrita automática.
E o triste é não dizerem francamente
(senão quando a si mesmos se mentissem) que
na solidão total, na noite escura
- aquela em que S.João da Cruz e os santos
mais dados à poesia se pensavam tendo
não é seguro e certo por que lado
uma Visita do Alto pelo corpo adentro -,
ninguém ou nada lhes falava: nada.
Apenas se falavam no silêncio humano
à dupla imagem que do ser se nega.
O Dáimon (7/11/1972), Jorge de Sena, in Conheço o Sal e outros poemas, Antologia Poética,
ouviam vozes a ditar-lhes versos. Mesmo
o Valéry falava de um primeiro verso
de que se deduziam os seguintes.
Em tempos mais antigos, os demónios
(pessoais espíritos assim como anjos
menos da guarda que do ouvido bichos)
assim segredos assopravam sem
dizerem mais que enigmas. Felizes
poetas esses (como ainda os há)
capazes de de se crerem nunca sós
nem mesmo às horas mais terríveis da
terrível solidão. Por trás dos ombros,
lá estava o espiritinho a acompanhá-los
nos seus calvários de exilados ou de assassinados,
ou moradores de Duínos principescos,
ou de prefaciadores sacrificando-se
por uns milhares de francos a compor
ensaios sur l'idée de dictature.
Os Sócrates e os Goethes todos tiveram disto,
como outros depois a escrita automática.
E o triste é não dizerem francamente
(senão quando a si mesmos se mentissem) que
na solidão total, na noite escura
- aquela em que S.João da Cruz e os santos
mais dados à poesia se pensavam tendo
não é seguro e certo por que lado
uma Visita do Alto pelo corpo adentro -,
ninguém ou nada lhes falava: nada.
Apenas se falavam no silêncio humano
à dupla imagem que do ser se nega.
O Dáimon (7/11/1972), Jorge de Sena, in Conheço o Sal e outros poemas, Antologia Poética,
sábado, 28 de maio de 2011
como de outrora deuses pelas praias
"Sobre esta praia me inclino.
Praias sei
(...)
Aqui é um novo oceano.
Um outro tempo.
(...)
Se aqui nasceram deuses, nada resta deles
senão a luz mortal de corpos como máquinas
de um sexo que se odeia no prazer que tenha
e mais é de ódio ao ver-se desejado."
Jorge de Sena, I, Sobre esta praia... Oito meditações à beira do Pacífico
Praias sei
(...)
Aqui é um novo oceano.
Um outro tempo.
(...)
Se aqui nasceram deuses, nada resta deles
senão a luz mortal de corpos como máquinas
de um sexo que se odeia no prazer que tenha
e mais é de ódio ao ver-se desejado."
Jorge de Sena, I, Sobre esta praia... Oito meditações à beira do Pacífico
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Bibliotecas na madrugada
E assim, quando te vais, fica o vazio na divisão dos livros (FB)
«A tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.
mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.
aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver
e para não chorar.»
José Luís Peixoto
«A tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.
mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.
aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver
e para não chorar.»
José Luís Peixoto
terça-feira, 24 de maio de 2011
Coreografia de Pina Bausch
Por Entre os Sons da Música
Por entre os sons da música, ao ouvido
como a uma porta que ficou entreaberta
o que se me revela em ter sentido
é o que por essa música encoberta
acena em vão do outro lado dela
e eu sinto como a voz que respondesse
ao que em mim não chamou nem está nela,
porque é só o desejar que aí batesse.
como a uma porta que ficou entreaberta
o que se me revela em ter sentido
é o que por essa música encoberta
acena em vão do outro lado dela
e eu sinto como a voz que respondesse
ao que em mim não chamou nem está nela,
porque é só o desejar que aí batesse.
Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'
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