terça-feira, 9 de agosto de 2011

Cale os seus olhos

É de olhares. É de olhares que eu preciso. (...) de um certo olhar. Preciso Doutor, que o azul dos seus olhos me faça companhia, que a cor, que é do céu e do mar, me traga a paz... Por favor, olhe-me e no seu olhar prometa-me. (...) o meu corpo é um casulo, dele só nascem borboletas. (...)
Não se esqueça, doutor, peço-lhe! É de um olhar que eu preciso. Cale-se, não fale, não anuncie tempestades, furacões, não me afunde em tristeza sem retorno. Conhece o poço, doutor? Já se debruçou? Conhece o fundo negro onde se reflecte a minha cara? Onde o eco da minha voz, ao repetir-se se apaga, como o tom dos sem vida.
(...) Perceba, Doutor, eu sou a Terra... há dentro de mim muito mais do que pode compreender. (...) Diga lá, Doutor, alguma vez dos seus olhos nasceu o Sol?

"Crónica do olhar que anuncia a morte", in Sinto Muito, Nuno Lobo Antunes

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