segunda-feira, 8 de agosto de 2011

"duas solidões acompanhadas"

Correspondência entre Mécia e Jorge de Sena, "duas solidões acompanhadas", como o próprio escritor os descrevia, pois "esperar sempre fora parte de nos vermos".

Carta de Jorge para Mécia:
[…]”Isso desejava eu: reaprender a sonhar, a esperar, a confiar, a acreditar num futuro meramente pessoal, eu que tanto tenho acreditado em futuros colectivos. É esse o papel que te está reservado: acordar-me, encantar-me, absorver-me, chamar-me a uma vida inteiramente minha, que eu tenho dispersado, para que ma não roubem, e assim alguns bocados se salvem (creio que estou a lembrar-me sem querer, daquela lenda egípcia do Osíris cortado às fatias). Isso tens feito, naturalmente, pela tua condição de mulher, e de mulher que me quer a mim; […]
Lisboa, 5/1/1946. 
In SENA, Mécia de, SENA, Jorge de – Isto tudo que nos rodeia (Cartas de amor).Lisboa: IN/CM, 1982, p. 76-77.

Carta de Mécia para Jorge:
[…] “ Para mim acho que uma obra de arte tem duas discussões: como obra de arte e como conteúdo. […] Olha lá, por favor não me dês troco, eu tenho maluqueira que chegue e sobre, tu bem sabes, e depois começo logo a andar na lua sem saber porquê. Fosse o Adão como tu e eu pasmaria como é que a Eva pôde ser tanto tempo ajuizada. Forte tola. Até amanhã, meu querido. Desculpa. Estou bem disposta e, para dizer a verdade, foi a tua carta que me dispôs bem, porque eu vinha aborrecida da rua, cheia de frio, farta de andar com rebanhos de eléctrico para eléctrico."
In SENA, Mécia de, SENA, Jorge de – Isto tudo que nos rodeia (Cartas de amor).Lisboa: IN/CM, 1982. 

Vide:
Maria Otília Pereira Lage, Correspondência(S) MÉCIA / JORGE DE SENA(EVOCAÇÃO DE CARRAZEDA, anos 1940)
GUIMARÃES, Universidade do Minho – Instituto de Ciências Sociais, Núcleo de Estudos de População e Sociedade (NEPS), 2007 

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