sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Um pouco isso, um nada disso

Dorme. Está uma noite sufocante. Para lá das janelas, por sobre os telhados em frente, um aceno invisível. Para lá de ti, o inqualificável de tu seres, o absurdo indecifrável da tua presença. Um pouco isso, um nada disso. Eu digo o teu mistério e tudo fica por dizer porque o aniquilei com dizer. A tua pessoa, a transfiguração de ti na memória incerta. Reconheço-te, não te sei dizer, que é que de mim reconheces para um encontro plausível? (...)
O incorruptível, não do teu corpo, mas do teu ser. A perfeição, não da tua harmonia, mas da necessidade de existir. A tua essência, poderei dizê-lo? a tua divindade antes de haver deuses, uma coisa assim. E eu ir ter contigo e sermos uma iluminação. Uma chama pura. O sopro do universo, não sei. O começo, a origem de nós mesmos, a nossa ascensão. Quero estar contigo sem nada de permeio que nos divida e nos identifique em separação. Estar contigo no absoluto de nós.
A essência de nós e uma incerta alegria de uma estrela nos reconhecer. O fulgor de sermos e os astros estarem de acordo. E os deuses que ainda não nasceram, e são puros de um início que não tiveram.

Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra.

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