Dorme. Está uma noite sufocante. Para lá das janelas, por sobre os telhados em frente, um aceno invisível. Para lá de ti, o inqualificável de tu seres, o absurdo indecifrável da tua presença. Um pouco isso, um nada disso. Eu digo o teu mistério e tudo fica por dizer porque o aniquilei com dizer. A tua pessoa, a transfiguração de ti na memória incerta. Reconheço-te, não te sei dizer, que é que de mim reconheces para um encontro plausível? (...)
O incorruptível, não do teu corpo, mas do teu ser. A perfeição, não da tua harmonia, mas da necessidade de existir. A tua essência, poderei dizê-lo? a tua divindade antes de haver deuses, uma coisa assim. E eu ir ter contigo e sermos uma iluminação. Uma chama pura. O sopro do universo, não sei. O começo, a origem de nós mesmos, a nossa ascensão. Quero estar contigo sem nada de permeio que nos divida e nos identifique em separação. Estar contigo no absoluto de nós.
A essência de nós e uma incerta alegria de uma estrela nos reconhecer. O fulgor de sermos e os astros estarem de acordo. E os deuses que ainda não nasceram, e são puros de um início que não tiveram.
Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra.
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