segunda-feira, 25 de abril de 2011

Aqui está com simplicidade, em palavras nítidas, curtas e cifradas, o estado da instrução pública em Portugal.

A falta de carreira é a extinção do estímulo, é a petrificação da vontade, é o estabelecimento da inércia e da hesitação da vida. O homem assim não procura alargar-se, saber, conhecer mais, progredir: embrulha-se na sonolência do seu ofício como quem se acomoda para a eternidade.

Eça de Queirós, Farpas

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Eu sou desses monstros

O português nunca pode ter ideias por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita...Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela da frase.
-Questão de temperamento - disse Carlos. - Há seres inferiores, para quem a sonoridade de um adjectivo é mais importante que a exactidão de um sistema... Eu sou desses monstros.

Viva a bela frase!


Os Maias, Eça de Queirós

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Num palácio de sons




É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas  sagradas  impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.


Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.


"Nona Sinfonia", Ary dos Santos in O Sangue das Palavras, 1979.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Reciclagem livresco-fiel bombarralense

Atravessar a noite

Atravesso a noite

Atravesso a noite com os pulsos quebrados
Pelos poentes das manhãs falhadas.

Canto o sol na tua boca,
A alegria fugitiva dos minutos
Com um barco em cada palavra
E uma lágrima estilhaçada
Na música do poema.

Atravesso a noite
Com a sede de todas as bocas.

Junto de ti
O tempo é um mercado de fruta.

Canto amor as estrelas que habitam
Os teus olhos de fogo
E as puras maçãs
Dos teus seios de sangue.

Aqui o tempo é um jornal antigo
Com as notícias amarelas
Do suor de muitas mãos.

Cristóvão Aguiar
in O badalo, jornal do conselho das Repúblicas de Coimbra, Março 1968, p.19.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Pies...para qué los quiero si tengo alas para volar?

http://lilianarosa.blogspot.com/2008/03/frida-kahlo-com-ferida-e-calo.html
 "Sinto-me mal, e ficarei pior, mas vou aprendendo a estar sozinha e isso já é uma vantagem e um pequeno triunfo."
(Frida Kahlo)


 "A separação do meu corpo, estar eu para um lado e ele para o outro,
eu a ser orgulhoso de altivez e ele a ser um tipo ordinaríssimo, cheio de imundície e baixeza. 
E ser eu ao mesmo tempo o imundo e baixo e não sê-lo. Mas não te sei explicar." 
Em nome da terra, Vergílio Ferreira

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A um Cristo sem cruz

E tiveste depois a glória de subires ao céu com as marcas do sofrimento nesse teu corpo terrestre. E é só aí que me interessas. Na lástima desse teu corpo. N amargura da solidão. Como te devias sentir só. É só aí que te entendo para me entender a mim. Só na dor absoluta de um homem sem divindade nenhuma.

Porque um corpo destruído é tão humilhante.
E essa é a solidão maior, porque um corpo é a nossa última companhia.

Vergílio Ferreira, Em nome da terra

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Plano B

A mim custa-me imaginar o que aconteceria à minha biblioteca se levassem todos os livros que não abro há mais de um ano. Parece-me que posso vir a precisar de todos, várias vezes. Gosto que estejam aqui, de olhar para eles.
Já perdi uma biblioteca inteira num incêndio, há 25 anos. Fiquei sem livros. Mas a verdade é que ela foi-se reconstituindo e hoje tenho uma biblioteca muito melhor e maior do que a primeira, à qual estou ainda mais afeiçoado do que à primeira. Não trocaria esta por aquela que ardeu. (...)
A experiência do incêndio traiu o meu amor pelos livros. Nunca mais foi o mesmo. Ou então sou eu que sou incapaz de me perdoar por ter conseguido viver sem aqueles livros, sem os quais, tinha a certeza absoluta, não conseguia viver.
Vivemos todos com muita tralha. (...) A tralha sai cara. (...)
As coisas que nos prendem também são as coisas que nos atrasam. Se vivêssemos apenas com uma mala cada um, que pudéssemos fazer em meia hora, poderíamos viajar mais, para onde houvesse mais dinheiro, mais trabalho, mais alegria. (...)
Venha aí o que vier, mesmo sem ter um Plano B, o melhor é irmos desfazendo-nos das nossas tralhas. A começar pelas mentais.
No meu caso, é começar a perguntar quais seria os livros que escolheria para pôr naquela única mala. O primeiro passo foi reconhecer que nem todos os meus livros são indispensáveis. Que gosto e preciso mais de uns do que outros. E que estes outros são mais do que os primeiros. E por aí fora.
Ainda tenho muito trabalho pela frente. Deus queira que Portugal fique repentinamente rico.

Miguel Esteves Cardoso, P2, Sexta-feira 8 de Abril de 2011, pp.4-5.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A razão era essa.


Sem nome, vejam só. E contudo, “os nomes penetram-nos até aos ossos”, afirmava Hemingway, esse viajante das mortes, em The Garden of Eden. Simplesmente, no meu homem sem memória tanto o nome que lhe pertencera como o das personagens que lhe cobriram a existência tinham enquistado e desfizeram-se em pó.
(…)
Daí a total total indiferença em que navegava à tona das comoções e dos afectos, uma indiferença extrema que, sucedesse o que sucedesse, não o levava a perturbar nem ao de leve a disciplina ambiente. Na verdade, não sabia de todo onde se encontrava, a razão era essa.

José Cardoso Pires, De profundis, Valsa Lenta, p.39
 

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Sonhos na mesa

Mesa dos sonhos

Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida. 


Alexandre O'Neill

No brilho redondo



No brilho redondo

e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Se eu morresse agora queria um epitáfio a dizer: Aqui jaz jovem com uma biblioteca que cabe em 34 caixotes de tamanho jeitoso.
Todavia, prefiro ainda aumentar o espólio, se faz favor.