domingo, 30 de janeiro de 2011

Um paradoxo com duas pernas




O que é o "neo-objeccionismo"?
Saramago - "Nunca ninguém conseguiu entender essa coisa".
Luiz Pacheco - "Ah, era uma ideia de gozo, não não, não ligues a isso...Havia o neo-realismo e eu lancei o neo-objeccionismo...não lancei para parte nenhuma...era a gozar com o neo-realismo!"

sábado, 29 de janeiro de 2011

Eu menino às 11h e 30m

Vírgula
Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.
A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.
Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.
E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções
pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.
Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. Mais
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Maria_Lisboa
Ainda que inserida no surrealismo, a obra de António Maria Lisboa (em parte publicada postumamente por Luiz Pacheco na editora Contraponto) caracteriza-se por uma faceta ocultista e esotérica que a torna muito particular. Lisboa prefere intitular-se «metacientista», e não surrealista, porque, como argumenta numa carta a Mário Cesariny, a «Surrealidade não é só do Surrealismo, o Surreal é do Poeta de todos os tempos, de todos os grandes poetas».
SEGREDO

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

*

MORRER DE AMOR

Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

(poemas de Maria Teresa Horta)

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"Amo decididamente a vida e procuro abraçar e aceitar tudo aquilo que ela me dá, por melhor ou pior que isso seja, pois a única coisa que desejo verdadeiramente é chegar ao fim dela e sentir que fui feliz e que fiz o que tinha a fazer para o tentar ser, quer isso signifique tê-la partilhado com alguém ou apenas comigo mesmo, não interessa qual das duas, desde que não tenha desistido do meu tempo enquanto ser humano."
V.E.

Mais de Ary

Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

Ary dos Santos

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento

Ary dos Santos

Original é o poeta

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer. 


Ary dos Santos

Ecce Homo

Ecce Homo

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.

                  José Carlos Ary dos Santos

La mort des amants

Baudelaire
CXXI - La Mort des Amants
Muro de Berlim: Janeiro de 2011: não sei porquê, mas quando vi esta imagem lembrei-me deste poema de Baudelaire


Nous aurons des lits pleins d'odeurs légères,
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d'étranges fleurs sur des étagères,
Ecloses pour nous sous des cieux plus beaux.

Usant à l'envi leurs chaleurs dernières,
Nos deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui réfléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.

Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot, tout chargé d'adieux;

Et plus tard un Ange, entr'ouvrant les portes,
Viendra ranimer, fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.
A sua Alma escapara-se do seu esconderijo secreto, e o Desejo encontrara-a no meio caminho.

Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray

Desperta-me de noite



Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

É rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas

A trégua
a entrega
o disfarce

E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes

Desperta-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo

E eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vai descobrindo vales. 


Maria Teresa Horta

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Pela madrugada fora

À Anita, pela maravilhosa prenda


Há anos que não me sucedia algo tão deliciosamente espontâneo, magnético, irresistível. Ofereceram-me um livro ontem à hora do almoço. Infelizmente, só pude apreciá-lo horas depois, já no calor das cobertas, à meia luz da noite cerrada. Adormeci de exaustão, mas tinha de o ler. Devorei-o. Ao acordar, dei por mim nos lençóis revoltos, o livro debaixo de mim, aberto ainda. Raiva de não o ter terminado, mas o sono, assim como a Palinuro, vencera-me já o sol entrava pelas portadas. E foi numa esplanada ao sol da tardinha que o terminei e reli os pedaços predilectos.

Hei-los. Desfrutem, se gostarem de tal narrativa.
Conheci mais uma autora portuguesa e o meu caminho não acaba aqui, apenas recomeça.

A Paixão segundo Constança H., de Maria Teresa Horta


O TEU CORPO

A febre acesa da tua língua,
Meu amor!

...a partir do clítoris

De bruços
De borco...o teu pénis

As mãos subindo, trepando
Pelo avesso do corpo

Constança H.


(Como se tacteasse na escuridão de uma gruta húmida; na penumbra encoberta de um confessionário; na cela nua de uma prisão de mulheres; na enfermaria de um hospital psiquiátrico)

É aqui, que a febre
Da loucura
Aumenta

Que o grito se contém
Mas nunca se contenta

(Poema enviado por Constança a Henrique H., antes de ser internada)

(Suspender um pouco, parar um pouco, a delimitar, a tentar entender as fronteiras)

O corpo nu dele estava gelado: tentou aquecê-lo com a boca.

Foi assim desde o princípio: aquela voragem.
Aquela fome. Aquele desassossego.
Quando ele a beijara pela primeira vez detectou logo aquele cheiro acre, forte, do seu corpo. Entregou-se-lhe sem se importar com nada, não querendo saber de mais nada.
Tirando-lhe o vigor: dias inteiros à espera que chegasse a casa para se atirar nos seus braços e se entregar ali mesmo à entrada da porta mal fechada e depois na sala, no chão da sala, na cama estreita, em cima dos cobertores nos quais de noite se envolvia friorenta.
Lambia-lhe o corpo a saborear-lhe o gosto da pele.
Arrepiada de prazer.

Regresso, sente Constança
“Como se fosse
o corpo do desejo”

Afinal, ela tem consciência de que vive num tempo de destruição, onde de súbito, de forma inesperada, se vem misturar de novo o desejo. Volteando, fazendo-a tropeçar, surpreendida.
“Durar é melhor que arder?”

(E o desejo? Que dizer do desejo: sempre a formular o corpo...)

Sei? Quem me desdiz, afinal? “Quando te beijo como que me afundo em ti, mas não me anulo” digo-te. “Não, não te sei no susto nem na mentira. Nem neste meu espaço vazio, desértico. Prendo-te com as pernas pelo lado do corpo, devagar, ao som dos teus gemidos. Depois. Não, não te sei pelo lado do susto...só a mim”

“Teve uma crise de despersonalização”, oiço os médicos dizerem.

(“Eu sou nada”: o quarto rodopia ainda dentro dos cintilantes relâmpagos de luz que a cegam, agoniada, tonta, aturdida. Passa a língua tumefacta pelos lábios feridos, secos, apesar do objecto que lhe metem sempre entre os dentes antes de cada descarga eléctrica.)

Uma menina de olhos acesos, a boca cheia de gritos surdos que calca.
Cambaleia. Pensa poder voltar atrás, fugir da criança que fora, o medo, a loucura e o suicídio.
As enfermeiras, então, injectam-na de novo e Constança cai numa profunda letargia.
Deixo cair o livro sobre o cobertor e beijo-te pelo dentro dos lábios a procurar o peso do teu corpo. Sei que tento reencontrar-me viva através dos gemidos que te provoco. E quando entras em mim sinto o aço do homem a recompor as coisas na banalidade do mundo. Perco-me, pois, através dos olhos que me procuram no espelho colocado perto da cama no nosso quarto. Aqui apenas as paredes nuas nos respondem. Mas é como se na imagem antes reflectida do meu corpo nesse espelho que perdi eu recuperasse a minha imagem entretanto igualmente perdida.
E por isso, quem sabe, ela comesse terra, lambesse a cal das paredes tão agras, tão salgadas do mar a correr invisível pelo seu interior.
Oiço a analista dizer, voz doce atrás de mim: “Talvez procurasse o chão...”

Deitada na cama fico de olhos escancarados a beber o escuro.
Na obscuridade do sono disse muitas vezes a Henrique: “Há outra mulher em mim que não conheço.”
Eu?
A claridade da madrugada começa a esgarçar a noite da cela. Não vou conseguir voltar a adormecer.


Beijar-te-ei tão devagar...
A boca acesa,
Que também devagar me vou queimar

Até que só de nós
As cinzas restem
(poema encontrado na secretária de Henrique H.)


(O meu problema nunca foi desobedecer aos outros, mas sim desobedecer a mim própria.)

Moderato Cantabile, piano dedilhado enquanto a paixão vai fermentando, num poço de febres e de desesperanças, de enganos. Chopin?

“Estou bem. Já não me sinto revoltada”, afirma uma personagem de Sylvia Plath depois de lhe terem feito uma lobotomia.

Tenho medo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ao JB


Gretchens Stube

Gretchens (am Spinnrade, allein)
Meine Ruh ist hin,
Meine Herz ist schwer,
Ich finde sie nimmer
Und nimmermehr


Foto tirada no Alte Nationalgalerie - Museumsinsel Berlim, 19 de Janeiro de 2011, por Weberson Grizoste


Le poèle de Marguerite

Marguerite (à son rouet, seule)
Ma paix s'est enfuie,
Mon coeur est lourd,
Je ne la retrouverai plus jamais,
Jamais, jamais plus.




(Agradecendo a prenda de anos: Faust, Goethe, éditions Gallimard folio bilingue, 2007)

Caminhar

Ubi sum ego vos non potestis venire.

Para onde eu vou não podeis vir.

São João 14:35

Zu mir oder zu Dir

À Raquelinha e ao Rui Pedro





It's full of charts and facts and figures and instructions for dancing
But I
I love it when you read to me
And you
You can read me anything

The book of love has music in it
In fact that's where music comes from
But I
I love it when you sing to me
And you
You can sing me anything

Peter Gabriel - The Book of Love

sábado, 22 de janeiro de 2011

Zola em plena Bergmannstrasse

Théâtre et poèmes

Vision

Et bientôt, avec un sourire,
Au vent elle jetait,
Dans son insoucieux délire
Feuille à feuille son bouquet;
Et, lorsque sa main était vide,
De nouveau sur le sable humide
Penchée, elle pleurait.

(...)

Et, si tu penses que les roses
Ont perdu leur fraîcheur,
Qu'elles pâlissent trop é closes,
Sans parfum et sans couleur,
Bien loin de toi, dans un coin sombre,
Jette alors ces filles de l'ombre,
Belles de ta splendeur.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Change

Calles de Berlin


Em cada um dos lados, está incluído o outro, ou seja, a causa reside no efeito e este na causa; distinguem-se, mas dependem entre si e completam-se.



A arte enfeitiça aqueles em cujo desvairado coração irrompe, alado e fulgente de ouro

Berliner Mauer


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

domingo, 16 de janeiro de 2011

Jorge de Sena em Berlim

A luz por trás ainda te recorta / à margem dos meus olhos.

Sete Sonetos

Step by step

"Nós reconhecemos o que está certo e compreendêmo-lo, só que não o pomos em prática",

Hipólito de Eurípides, vv.380-1

sábado, 15 de janeiro de 2011

Meine Lippen, sie küssen so heiß - Anna Netrebko



Meine Lippen, sie küssen so heiß,
meine Glieder sind schmiegsam und weiss.
In den Sternen, da steht es geschrieben,
du sollst küssen, du sollst lieben.
Meine Füsse, sie schweben dahin,
meine Augen, sie locken und glühn.
Und ich tanz' wie im Rausch, denn ich weiss,
Meine Lippen, sie küssen so heiss.

Tradução de JB, há cerca de 10 minutos:

os meus lábios beijam de forma tão quente
os meus braços são claros e esguios
nas estrelas está bem escrito
«tu deves beijar, tu deves amar»
os pés flutuam por aí
os meus olhos brilham e aprisionam
e danço como possessa porque sei
que os meus lábios beijam de forma tão quente
próprio para os teus gostos... eróticos.

Hans Baldung e Vergílio Ferreira


"Deves ter sentido o teu espírito desamparado do teu corpo como uma casa arruinada. Deves ter estado mais só do que no falado abandono do teu Pai. E essa é a solidão maior, porque um corpo é a nossa última companhia."


“Com amor ternura, lavo-te. É o teu corpo sem ti. Mas tenho a memória inteira para te reconstituir ao apelo do meu sofrimento.”

Vergílio Ferreira, Em nome da terra

Dürer e Vergílio Ferreira


«É um desenho macabro que me fez quase sorrir. É de Dürer, minha querida, a Morte coroada e a cavalo. (...) É um esqueleto curvado com a sua gadanha ceifeira sobre um cavalo esquelético com um chocalho. (...) É a figuração mais ridícula da morte, foi talvez por isso que o pus aqui dentro».

Vergílio Ferreira, Em nome da terra

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Zélia Duncan - Catedral



O deserto que atravessei
Ninguém me viu passar
Estranha e só
Nem pude ver que o céu é maior

Tentei dizer
Mas vi você
Tão longe de chegar
Mais perto de algum lugar

É deserto onde eu te encontrei
Você me viu passar
Correndo só
Nem pude ver que o tempo é maior

Olhei pra mim
Me vi assim
Tão perto de chegar
Onde você não está

No silêncio uma catedral
Um templo em mim
(...)

(Composição: Tanita Tikaran; versão: Zélia Duncan)
“Senti um grito infindável a atravessar a Natureza.” Edvard Munch, Diário


Programa

Não queremos poesia,
Queremos mágicas, artifícios,
Procuramos tapar na existência fatais vazios
E apesar de imenso esforço, uma atrofia.

Mas o que sabem vocês outros da secreta elevação,

Dos sagrados e histéricos soluços da garganta a chorar,
Quando, consumidos pelo haxixe da alma em imersão,
Beijamos o primeiro degrau, para além de cujo limiar
Os deuses moram?


(1915)
Wilhelm Klemm, A Alma e o Caos
100 poemas expressionistas, selecção e tradução de João Barrento

Life

 à Anita


"Muita calma nesta hora!"

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

De tanto olhar o sol

De tanto olhar o sol,
queimei os olhos,
De tanto amar a vida enlouqueci.
Agora sou no mundo esta negrura.
À procura
Da luz e do juízo que perdi. 


Miguel Torga 

Another death

Tu ne cede malis, sed contra audentior ito.

"Tu não soçobres diante das desventuras, mas vai contra elas com mais audácia" 
(trad. de Luís M. G. Cerqueira)


Virgílio, Eneida, VI.95.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

José Gomes Ferreira, Poesia III

Vai-te, Poesia!
Vai-te, poesia!
Deixa-me ver friamente
a realidade nua
sem ninfas de iludir
ou violinos de lua.
Vai-te, poesia!
Não transformes o mundo
descarnado e terrível
num céu de esquecer
com mendigos de nuvens
famintos de estrelas
e feridas a cheirarem a cravos
- enquanto os outros, os de carne verdadeira,
uivam em vão
a sua fome de cadelas
e de pão.
Vai-te, poesia!
Deixa-me ver a vida
exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.
Vai-te, poesia!
Não quero cantar.
Quero gritar!

Sophia de Mello Breyner, Arte Poética II

A poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala duma vida ideal mas duma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite...


Carpe Diem

Quando surgiu a que cedo desponta, Aurora de róseos dedos


Homero, Odisseia, Canto II, v.1.

Madrugada=café

Se se pudesse afirmar, sem restrições, que a loucura é um mal, teria falado bem, mas na realidade os maiores bens vêm-nos por intermédio da loucura, que é sem dúvida um dom divino.

Platão, Fedro 244a 7-9

Eugénio de Andrade, Com Ulisses

Com Ulisses à proa, quem não gostaria
de correr os mares? Da última vez
que estive na ilha ainda
a sua sombra me guiava.
Na colina do templo
não deparei senão com colunas
caídas, cardos, silvas à roda
ocultando algum ninho de cobras.
Enquanto pensava nesses homens
que se batiam como quem encontra
voluptuosa a própria morte, reparei
por acaso na haste branca
de um espinheiro, e como dela
escorria um fio de sangue negro
e na terra nua se perdia.

In O Sal da Língua

António Franco Alexandre

A nudez talha no ar
os seus vestidos.


6º poema de Visitação, 1983

Ita valea[m] decet me


Lamparina de azeite encontrada na Gália romana. Apresenta um conceito original de Ménage à Trois, diferente do das restantes peças do catálogo: uma mulher segura as nádegas, fincando os cotovelos para erguer todo o corpo no ar e facilitar a penetração. E o homem, de pé, é amorosamente empurrado por um pequeno cupido alado, como que a abençoar a fusão sexual.

Num medalhão, de cerca de 6/8 cm, um casal, em pleno acto, com a mulher por cima e de costas voltadas para o homem, parece fazer uma pequena "pausa": ela mira-se num espelho de mão, enquanto ele parece verter sobre os lábios, talvez secos do esforço, uma bebida qualquer. Uma pequena inscrição, junto da figura masculina, diz o seguinte: Ita valea[m] decet me : I like it like that.

In J. R. Clarke, Roman Sex, pp.135-151.

Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos bosques

A vida vagabunda que levo tem espinhos, quem o contesta: a chuva, os nevões. os frios, os sóis desabalados, os maus encontros e as más pagas, cama e mesa, sempre hipotéticas. Mas em compensação como eu me sinto livre no meio das peias do mundo, como eu respiro com desafogo, me permito voltar costas aos preconceitos, gozo da largueza dos caminhos velhos, tão discricionários, a estalar de à-vontade por baldios e agros!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Possessão ninfoléptica

Ora, que o amor constitui um desejo é conhecido de todos. Que, por outro lado, quem não ama sente desejo de quanto é belo, também o sabemos. Por que meio distinguiremos então o que ama e o que não ama? Além disso, devemos reflectir que, em cada um de nós, existem dois princípios que nos guiam e conduzem e que seguimos para onde quer que nos levem: um, que é inato, reside no desejo dos prazeres; o outro é adquirido e consiste na reflexão que aspira ao que é melhor. E estes dois impulsos encontram-se às vezes de acordo, em nós; mas acontece também que entram em conflito outras vezes, e ora domina um, ora outro.
(...)
Ora, quando um desejo, desprovido de razão, é arrastado para o prazer da beleza e prevalece sobre a reflexão que tende para a justiça; quando, além disso, robustecido vigorosamente por desejos análogos, que tendem para a beleza corporal, se torna senhor absoluto, tal desejo toma o nome dessa força e passa a chamar-se amor.

Se eu, no decorrer do discurso, vier a ficar muitas vezes possuído pelas Ninfas, não te deves admirar, já que as palavras agora proferidas por mim não estão longe do ditirambo.

Fedro, Platão, tradução de José Ribeiro Ferreira

Eugénio de Andrade, Recomecemos então / O espírito do Outono

Recomecemos então

Recomecemos então, as mãos
palma com palma.
Diz, não digas, a palavra.
As palavras terão sentido ainda?
Haverá outro verão, outro mar
para as palavras?
Vão de vaga em vaga,
de vaga em vaga vão apagadas.
Seremos nós, tu e eu, as palavras?
Onde nos levam, neste crepúsculo,
assim palma com palma,
de mãos dadas?



O espírito do Outono

Terei de falar do espírito do outono
agora que setembro
chegou ao fim.  (Espírito
é palavra suspeita: não há
hipócrita que não se abrigue
à sua sombra.) Será
a embriaguez? O vento matinal
arrastando folhas
raparigas canções?
O sopro frio das estrelas?
Será a beleza
o espírito do outono Há um limite
para o homem, um limite
para suportar o peso do mundo.
Da beleza, da bárbara
orgulhosa beleza, quem sabe defender-se
sem medo do coração lhe rebentar?

In O Sal da língua

Mar me quer

Escutando o mar adormeci. (...) Como se o mar ensinasse, por fim, minhas lembranças a adormecer. Como se a minha vida aceitasse o supremo convite e fosse saindo de mim em eterna dança com o mar.

Mia Couto

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Oscar Wilde 5

(...) as pessoas realmente frivolas são as que só amam uma vez na vida. O que elas chamam lealdade ou fidelidade, chamo eu letargia do hábito ou falta de imaginação. A fidelidade representa na vida emocional o mesmo que a coerência na vida do intelecto, apenas uma confissão de impotência. A fidelidade! Tenho de a analisar um dia destes. Está intimamente associada à paixão da propriedade. Há muitas coisas que atiraríamos fora se não receássemos que outros as apanhassem.

Disseste-me uma vez que o patético não te emocionava, mas que a beleza, a pura beleza, podia comover-te às lágrimas.

Só as coisas sagradas merecem ser tocadas, Dorian. (...) Quando estamos apaixonados começamos sempre por ludibriar-nos e acabamos sempre ludibriando os outros. A isso chama o mundo um romance.


O Retrato de Dorian Gray, pp.53-56

Vergílio Ferreira, Escrever


Fala para dentro. E poderás circular entre os homens sem que te metam num manicómio. 

Escrever, p.18

Oscar Wilde 4

-Ah, já falei bastante por hoje - retorquiu (...) - Agora só quero contemplar a vida. Pode vir contemplá-la comigo, se quiser.

O Retrato de Dorian Gray, p.48

Oscar Wilde 3

Ah, era um paradoxo? (...) Não me pareceu. Bem, os paradoxos são espelhos da verdade. Para testar a realidade temos de a ver na corda bamba. Só podemos julgar as Verdades quando fazem acrobacias.
(...)
Brincou com a ideia e perseguiu-a; atirou-a ao ar e transformou-a; deixou-a escapar e voltou a capturá-la; coloriu-a de fantasia e deu-lhe asas de paradoxo. O elogio da loucura, enquanto sobre ele discorria, elevou-se a filosofia e a própria filosofia tornou-se nova e, possuída da música frenética do Prazer, envergando, julgar-se-ia, o seu vestido manchado de vinho e a sua grinalda de hera, dançava como uma Bacante sobre as colinas da vida e troçava da sobriedade do pesado Sileno. Os factos fugiam diante dela como criaturas assustadas da floresta. Os seus pés alvos pisavam o grande lagar em que se senta Omar, até o sumo de uva fermentado lhe envolver os membros nus em ondas de púrpuras erupções, ou trepar em espuma rubra sobre os lados escorregadios da cuba. Era um extraordinário improviso. (...) Foi fantástico, brilhante, irresponsável.

O Retrato de Dorian Gray, pp.45-47

Eugénio de Andrade, dois poemas

Húmido de beijos e de lágrimas,

Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco ou de cantar.)  


Nem sempre o corpo se parece  
Nem sempre o corpo se parece com
um bosque, nem sempre o sol
atravessa o vidro,
ou um melro cante na neve.
Há um modo de olhar vindo
do deserto,
mirrado sopro de folhas,
de lábios, digo.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Eugénio de Andrade, Retrato Ardente

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra. 
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre. 

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio. 

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha

Eugénio de Andrade, Corpo habitado

Corpo Habitado


Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido 
pelo sol dócil da língua.

Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.

Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres, 
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.

Corpo para beber até ao fim -
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.

Eugénio de Andrade, É na escura folhagem do sono


É na escura folhagem do sono
que brilha
a pele molhada,
a difícil floração da língua.  

Eurípides, Hipólito

Pensar racionalmente dói, mas a loucura é uma desgraça terrível.

vv.246-247

Tous les matins du monde

"Tous les matins du monde sont sans retour."
 Pascal Quignard
 
 

Vergílio Ferreira, Escrever

Poupa as tuas palavras /.../ a última que disseres ou pensares deve resumir-te a vida toda. Vê se a escolhes bem para remate do que construíres.

Fernando Namora, Palavras

De palavras me vesti
no agasalho do nada.
Palavras foram o vinho
de uma sede inventada.
E agora que as desfolho,
que me resta?
A memória de uma sede
que ao beber cresta.

Marketing

sábado, 8 de janeiro de 2011

Depois do rio o que é que vem?

ποταμῷ γὰρ οὐκ ἔστιν εμβῆναι δὶς τῷ αὐτῷ
"Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio"


Heraclito (91 Diels -Kranz)


http://www.youtube.com/watch?v=tqCeuG50Pcg

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Grotowski e as acções físicas

A emoção é independente da vontade.



Sobre o sistema das acções físicas de Stanislavski, por Grotowski

Fortuna

O Fortune, Fortune! Be fickle fortune!

Romeo and Juliet, Shakespeare, Act 3, scene 5

La vérité?

La vérité se cache le front comme un silence


http://www.youtube.com/watch?v=7pR9m4IVPUY&feature=related

בועז מעודה - כאילו כאן אירוויזיון


בועז מעודה - כאילו כאן אירוויזיון

Eurovision 2008: Israel - Boaz Mauda-The Fire In Your Eyes

Esta canção devia ter ganho o Festival Eurovisão da Canção em 2008. O jovem canta uma estrofe em inglês, e há quem tenha colocado possíveis traduções na net, mas... o melhor mesmo é escutar o original assim, ele tem uma voz linda e aqueles fonemas aspirados são demasiado melodiosos para pensar sequer em ouvir qualquer tradução que seja.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

When you're speechless

If you cannot think of anything appropriate to say you will please restrict your remarks to the weather.


Sense and Sensibility, Jane Austen

Marguerite Yourcenar, Feux 9




Il faut jouir d’un être pour avoir l’occasion de le contempler nu. Il m’a fallu t’aimer pour comprendre que la plus médiocre ou la pire des personnes humaines est digne d’inspirer là-haut l’éternel sacrifice de Dieu.

p.139

Marguerite Yourcenar, Feux 8


Je sais de la douleur ce qu’ enseigne son contraire, comme je tiens de la vie le peu de clartés que j’ai déjà sur la mort. Comme Narcise dans la source, je me suis miré dans les prunelles humaines: l’image que j’y voyais était si rayonnante que je me savais gré de donner tant de bonheur. Je connais de l’amour le peu qu’ont appris les yeux qui m’ont aimé.

pp.142-143

Marguerite Yourcenar, Feux 7


Solitude…
Je ne crois pas comme ils croient, je ne vis pas comme ils vivent, je n’aime pas comme ils aiment…
Je mourrai comme ils meurent

p.30

O mundo onírico do exercício teatral

A noção de duplo é indissociável do exercício onírico, pois é ela o incitamento que estabelece o funcionamento da fantasia. Conservando-se em vigília, o actor no espaço cénico protagoniza uma rêverie, uma ideia quimérica da sua pessoa. Fica num estado de excedência de si, num envolvimento psíquico em que o corpo deixou de lhe pertencer, em que o seu procedimento deixou aparentemente de ser restringido pela sua vontade.

O corpo é a arena de uma batalha entre um intelecto que raciocina por palavras e um intelecto instintual que é um mistério em si mesmo.

in João Soares Santos, Estudos sobre Artes Cénicas Asiáticas, Fundação Oriente, Lisboa, 2000.

A voz dos deuses 3

Mas a voz dos deuses é que decide o destino dos homens, mesmo quando estes não lhe dão ouvidos.

João Aguiar, p.352

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A voz dos deuses 2

Possessão divina de Arduno

- Tongio, filho de Tongétamo, filho de Tongétamo o Brácaro. Porque fazes perguntas sobre o destino se os deuses já te disseram o que podias ouvir? À vossa frente o caminho é longo. Há vitórias e derrotas, alegria e sangue, traição e glória. A águia está ferida mas este é o tempo do seu domínio. Depois doTouro virá a Corça. Porque fazes perguntas? É tempo de combater. Só tu verás a era da Corça. Mas os deuses querem-te, os deuses surgirão no teu caminho...

p.222

A voz dos deuses

-Tongoenabiago, Trebaruna e tu, Runesos-Césios1, deus da Guerra e Senhor dos Dardos: não permiti que a minha espada tenha de ser usada contra o meu próprio sangue...

João Aguiar, A voz dos deuses, edições Asa, Lisboa, 1999, p.58


1Deuses da cultura castreja, Galécia (hoje, Norte de Portugal e Galiza), embora tenham encontrado o nome da divindade Runesocesius numa inscrição, em Évora e noutras regiões a sul do Tejo.

Marguerite Yourcenar, Feux 6


“J’ai beau changer: mon sort ne change pas. Toute figure peut être inscrite à l’intérieur d’un cercle”
 p.58

zu viel Regen über dem Paradis

zu viel Regen über dem Paradis

Coros euripidianos e a tragédia das paixões

Andamos à deriva e o que nos arrasta não passa de mitos.

Hipólito de Eurípides, v. 197

Marguerite Yourcenar, Feux 5


“L’immobilité de la mort ne peut être pour moi qu’un dernier état de la vitesse suprême: la pression du vide fera éclater mon coeur. Déjà, ma danse dépasse les remparts des cités, le terre-plein des Acropoles, et mon corps tournoyant comme le fuseau des Parques dévide sa propre mort.
Il n’y a ni vertu, ni pitié, ni amour, ni pudeur, ni leurs puissants contraires, mais rien qu’une coquille vide dansant au haut d’une joie qui est aussi la Douleur, un éclair de beauté dans un orage de formes. La chevelure de Phédon se détache sur la nuit de l’univers comme un météore triste.”

p.165-166

Coros euripidianos e a tragédia das paixões

 "A minha alma já está completamente arada pelo desejo" Hipólito de Eurípides, v.504.
 

(Objectivo quase atingido: a caminho do número de páginas que já ultrapassa o aceitável para uma tese. Só assim fico satisfeita, Hurrayyy!)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Marguerite Yourcenar, Feux 4


“Ne plus se donner, c’est se donner encore. C’est donner son sacrifice”, p.70

Oscar Wilde 2

Atrás de tudo o que existia de invulgar havia sempre algo de trágico. Era preciso que vários mundos se pusessem em marcha para poderem gerar a flor mais insignificante.

Falar com ele era como tocar num violino muito sensível, respondia a cada toque e vibração do arco... Havia algo de terrivelmente fascinante no exercício da influência. Nenhuma outra actividade se lhe comparava. Projectar a própria alma numa forma graciosa, e deixá-la demorar-se nela; ouvir as próprias opiniões intelectuais reproduzidas com a acrescida musicalidade da paixão e da juventude; insinuar no outro o próprio carácter como se fora um fluído subtil ou um perfume exótico; havia nisso um verdadeiro prazer

O retrato de Dorian Gray, p.41

Marguerite Yourcenar, Feux 3


“Cesser d’être aimée, c’est devenir invisible. Tu ne t’aperçois plus que j’ai un corps”, p.191

Florbela Espanca

Eu...

Até agora eu não me conhecia,
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... e não me via!

Andava a procurar-me - pobre louca! -
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

in Poesia Completa, Bertrand Editora, 2004

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Marguerite Yourcenar, Feux 2


Je ne me tuerai pas. On oublie si vite les morts.
 p.217

Marguerite Yourcenar, Feux


“Un coeur, c’est peut-être malpropre. C’est de l’ordre de la table d’anatomie et de l’étal de boucher. Je préfère ton corps.”, p.56

Robert Smith, Breakfast with Socrates

Chapter 17 - Having sex

"The urge must be received, the call answered. All of which suggests the phrase 'having sex' gets the order wrong - sex has us.
Neither the Darwinistic narrative of sex for survival nor, for that matter, Aristophane's fable of the self's homecoming (Plato's Symposion) thinks of sex needing love to make it work, and that's perhaps why both, as theories, feel unsatisfying.", p.158

Love can be subdivided into friendship (philia), sexual atraction (eros) and spiritual or emotional love (agape).

"However much love or friendship contributes to it, sex has, in order to be sex, to pass above, or beneath, those more elevated states: there has to be some action", p.161

"If love and friendship had everything in the sack sewn up, there'd no need for all those manuals on the positions; and because it's fundamentally different, sex looks for a different language, and finds it in the grammars of fucking", p.161

"There's a school of thought going back to French philosopher Georges Bataille - a contemporary of Theodor Adorno - which argues that, once the eye is involved, mind's eye included, obscenity has begun.", p.162

domingo, 2 de janeiro de 2011

Aristóteles, Poética 1455a 33-34

A arte da poesia é própria de génios ou de loucos, já que os génios são versáteis e os loucos deliram.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Eugénio de Andrade, Nada

Nada, nem sequer o verão
está completo. Menos ainda o colar
de sílabas que, desvelado,
te ponho à roda da cintura.
Nunca me pediste mais, nunca
te dei outra coisa.
Quando juntamos as mãos esquecemos
que somos culpados da nossa inocência.
E sorrimos, alheios
ao sol que declina, à estrela
do norte que sabemos no fim.
O provilégio da vida é este
silêncio musical que do teu olhar
cai nos meus olhos
e regressa a ti acrescentado
pela luz da manhã varrendo o mar.

In O Sal da Língua

Eugénio de Andrade, A poesia não vai

A poesia adora
Andar descalça nas areias do verão.

In O Sal da Língua

Oscar Wilde

Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expressão a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helénico.
Mas o mais corajoso homem entre nós tem medo de si próprio. A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos.
A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedermos-lhe. Se lhe resistirmos, a nossa alma adoece com o anseio das coisas que se proibiu, com o desejo daquilo que as suas monstruosas leis tornaram monstruoso e ilegal.
Já se disse que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e apenas neste, que ocorrem os grandes pecados do mundo.

O Retrato de Dorian Gray, p.24

1º "post" de 2011: La conscience de la mort

La mort est associée aux larmes, et parfois le désir sexuel l'est au rire.

C'est au contraire du fait que nous sommes humains, et que nous vivons dans la sombre perspective de la mort, que nous connaissons la violence exaspérée, la violence désespérée de l'érotisme.

in Georges Bataille, La conscience de la mort, Les larmes d'Éros