À Anita, pela maravilhosa prenda
Há anos que não me sucedia algo tão deliciosamente espontâneo, magnético, irresistível. Ofereceram-me um livro ontem à hora do almoço. Infelizmente, só pude apreciá-lo horas depois, já no calor das cobertas, à meia luz da noite cerrada. Adormeci de exaustão, mas tinha de o ler. Devorei-o. Ao acordar, dei por mim nos lençóis revoltos, o livro debaixo de mim, aberto ainda. Raiva de não o ter terminado, mas o sono, assim como a Palinuro, vencera-me já o sol entrava pelas portadas. E foi numa esplanada ao sol da tardinha que o terminei e reli os pedaços predilectos.
Hei-los. Desfrutem, se gostarem de tal narrativa.
Conheci mais uma autora portuguesa e o meu caminho não acaba aqui, apenas recomeça.
A Paixão segundo Constança H., de Maria Teresa Horta
O TEU CORPO
A febre acesa da tua língua,
Meu amor!
...a partir do clítoris
De bruços
De borco...o teu pénis
As mãos subindo, trepando
Pelo avesso do corpo
Constança H.
(Como se tacteasse na escuridão de uma gruta húmida; na penumbra encoberta de um confessionário; na cela nua de uma prisão de mulheres; na enfermaria de um hospital psiquiátrico)
É aqui, que a febre
Da loucura
Aumenta
Que o grito se contém
Mas nunca se contenta
(Poema enviado por Constança a Henrique H., antes de ser internada)
(Suspender um pouco, parar um pouco, a delimitar, a tentar entender as fronteiras)
O corpo nu dele estava gelado: tentou aquecê-lo com a boca.
Foi assim desde o princípio: aquela voragem.
Aquela fome. Aquele desassossego.
Quando ele a beijara pela primeira vez detectou logo aquele cheiro acre, forte, do seu corpo. Entregou-se-lhe sem se importar com nada, não querendo saber de mais nada.
Tirando-lhe o vigor: dias inteiros à espera que chegasse a casa para se atirar nos seus braços e se entregar ali mesmo à entrada da porta mal fechada e depois na sala, no chão da sala, na cama estreita, em cima dos cobertores nos quais de noite se envolvia friorenta.
Lambia-lhe o corpo a saborear-lhe o gosto da pele.
Arrepiada de prazer.
Regresso, sente Constança
“Como se fosse
o corpo do desejo”
Afinal, ela tem consciência de que vive num tempo de destruição, onde de súbito, de forma inesperada, se vem misturar de novo o desejo. Volteando, fazendo-a tropeçar, surpreendida.
“Durar é melhor que arder?”
(E o desejo? Que dizer do desejo: sempre a formular o corpo...)
Sei? Quem me desdiz, afinal? “Quando te beijo como que me afundo em ti, mas não me anulo” digo-te. “Não, não te sei no susto nem na mentira. Nem neste meu espaço vazio, desértico. Prendo-te com as pernas pelo lado do corpo, devagar, ao som dos teus gemidos. Depois. Não, não te sei pelo lado do susto...só a mim”
“Teve uma crise de despersonalização”, oiço os médicos dizerem.
(“Eu sou nada”: o quarto rodopia ainda dentro dos cintilantes relâmpagos de luz que a cegam, agoniada, tonta, aturdida. Passa a língua tumefacta pelos lábios feridos, secos, apesar do objecto que lhe metem sempre entre os dentes antes de cada descarga eléctrica.)
Uma menina de olhos acesos, a boca cheia de gritos surdos que calca.
Cambaleia. Pensa poder voltar atrás, fugir da criança que fora, o medo, a loucura e o suicídio.
As enfermeiras, então, injectam-na de novo e Constança cai numa profunda letargia.
Deixo cair o livro sobre o cobertor e beijo-te pelo dentro dos lábios a procurar o peso do teu corpo. Sei que tento reencontrar-me viva através dos gemidos que te provoco. E quando entras em mim sinto o aço do homem a recompor as coisas na banalidade do mundo. Perco-me, pois, através dos olhos que me procuram no espelho colocado perto da cama no nosso quarto. Aqui apenas as paredes nuas nos respondem. Mas é como se na imagem antes reflectida do meu corpo nesse espelho que perdi eu recuperasse a minha imagem entretanto igualmente perdida.
E por isso, quem sabe, ela comesse terra, lambesse a cal das paredes tão agras, tão salgadas do mar a correr invisível pelo seu interior.
Oiço a analista dizer, voz doce atrás de mim: “Talvez procurasse o chão...”
Deitada na cama fico de olhos escancarados a beber o escuro.
Na obscuridade do sono disse muitas vezes a Henrique: “Há outra mulher em mim que não conheço.”
Eu?
A claridade da madrugada começa a esgarçar a noite da cela. Não vou conseguir voltar a adormecer.
Beijar-te-ei tão devagar...
A boca acesa,
Que também devagar me vou queimar
Até que só de nós
As cinzas restem
(poema encontrado na secretária de Henrique H.)
(O meu problema nunca foi desobedecer aos outros, mas sim desobedecer a mim própria.)
Moderato Cantabile, piano dedilhado enquanto a paixão vai fermentando, num poço de febres e de desesperanças, de enganos. Chopin?
“Estou bem. Já não me sinto revoltada”, afirma uma personagem de Sylvia Plath depois de lhe terem feito uma lobotomia.
Tenho medo.