terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Possessão ninfoléptica

Ora, que o amor constitui um desejo é conhecido de todos. Que, por outro lado, quem não ama sente desejo de quanto é belo, também o sabemos. Por que meio distinguiremos então o que ama e o que não ama? Além disso, devemos reflectir que, em cada um de nós, existem dois princípios que nos guiam e conduzem e que seguimos para onde quer que nos levem: um, que é inato, reside no desejo dos prazeres; o outro é adquirido e consiste na reflexão que aspira ao que é melhor. E estes dois impulsos encontram-se às vezes de acordo, em nós; mas acontece também que entram em conflito outras vezes, e ora domina um, ora outro.
(...)
Ora, quando um desejo, desprovido de razão, é arrastado para o prazer da beleza e prevalece sobre a reflexão que tende para a justiça; quando, além disso, robustecido vigorosamente por desejos análogos, que tendem para a beleza corporal, se torna senhor absoluto, tal desejo toma o nome dessa força e passa a chamar-se amor.

Se eu, no decorrer do discurso, vier a ficar muitas vezes possuído pelas Ninfas, não te deves admirar, já que as palavras agora proferidas por mim não estão longe do ditirambo.

Fedro, Platão, tradução de José Ribeiro Ferreira

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