terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Um rio interior aguarda


Apenas um Corpo

Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.
Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
do peito e tremem,
pesadas de desejo.
Um rio interior aguarda.
Aguarda um relâmpago,
um raio de sol,
outro corpo.
Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.
Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.

Eugénio de Andrade, Poesia

Grace Jones - Private Life (1980)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

A escrita é a minha segunda morada de silêncio

"Je veux que tu m'aimes, beaucoup, beaucoup et longtemps" diz Maria Eduarda para Carlos Eduardo, n'Os Maias, antes de conhecerem o incesto que os une e separa. 

A dança é a minha primeira morada de silêncio. O movimento do meu corpo o silêncio onde faço todo o meu ruído e tapo a boca para não gemer de felicidade, clamor. Oh, queria sussurrar-te num francês que não entenderias e fazer-te chegar o grito que me corre no sangue e que deseja irromper avassaladoramente. Mergulhar no mar gelado parece ser a única salvação para apaziguar o calor em brasa que me queima e que, sei-o agora, um beijo dos nossos incendiaria em segundos, seguro e certo como a destruição de Roma, com as labaredas a lamber cada edifício. 

Amar, amar, amar, para quê se o grito nunca será escutado pois a firme solidão nunca se dissipará. E, no fundo, nem nunca poderia ser essa união se farejamos a novidade a todo o momento e se, lobos, somos predadores pelos trilhos onde passamos. Mesmo que fôssemos o último homem e a última mulher a dançar na Terra. 

Amar é isto. Aceitar o impossibilia. Meu amor, "Eu te baptizo em nome da Terra, dos Astros e da Perfeição" (Em Nome da Terra, Vergílio Ferreira).

Escreve! Canaliza a energia! Dança, pelos deuses, esvazia-te, ESCREVE, ESCREVE, ESCREVE PARA SER!

A escrita é a minha primeira morada de silêncio


A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo
Al Berto

rostos desfocados



Trabalhos do Olhar

escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais 
de prata da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados 
junto ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos 
lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco 
morde a sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos 
de romã
repara como o coração de papel amareleceu no esquecimento de 
te amar


 

Envolver-me


Envolver-me
na mais obscura solidão das searas e gemer
Amassar com os dentes uma morte íntima
Durante a sonolência balbuciante das papoulas
Prolongar a vida deste verão até ao mais próximo verão
para que os corpos tenham tempo de amadurecer

...colher em tuas coxas o sumo espesso
e no calor molhado da noite seduzir as luas
o riso dos jovens pastores desprevenidos...as bocas
do gado triturando o restolho....as correrias inesperadas
das aves rasteiras

....e crescerei das fecundas terras ou da morte
que sufoca o cio da boca.....
....subirei com a fala ao cimo do teu corpo ausente
trasmitir-lhe-ei o opiáceo amor das estações quentes.
 
Al Berto, obras

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

learning to dance with the heart, no fear of fall - being a she-wolf

The Rose, Bette Midler


Some say love, it is a river, that drowns the tender reed
Some say love, it is a razor, that leaves your soul to bleed
Some say love, it is a hunger, an endless aching need
I say love, it is a flower, and you, its only seed
It's the heart afraid of breaking, that never learns to dance
It's the dream afraid of waking, that never takes the chance
It's the one who won't be taken, who cannot seem to give
And the soul afraid of dying, that never learns to live
When the night has been too lonely and the road has been too long
And you think that love is only for the lucky and the strong
Just remember in the winter, far beneath the bitter snows
Lies the seed, that with the sun's love in the spring becomes the rose


Pérolas do romance O Amor é fodido, de Miguel Esteves Cardoso:

“O mundo inteiro é muitas vezes muito pouco, para quem não está à procura de nada.”

“O que custa mais não é tanto lembrar - é não esquecer. O que é que se faz com o que nos fica na cabeça, quando já não há nada para fazer”

“O amor é fodido. Hei-de acreditar sempre nisto. Onde quer que haja amor, ele acabará, mais tarde ou mais cedo, por ser fodido.
É melhor do que morrer. Há coisas, como o álcool e os livros, que continuam boas. A morte é mais aborrecida.
Por que é que fodemos o amor? Porque não resistimos. É do mal que nos faz. Parece estar mesmo a pedir. De resto, ninguém suporta viver um amor que não esteja pelo menos parcialmente fodido. Tem de haver escombros. Tem de haver esperança. Tem de haver progresso para pior e desejo de regresso a um tempo mais feliz. Um amor só um bocado fodido pode ser a coisa mais bonita deste mundo”

"O amor continua a ser fodido e quem ama continua a foder o amor. E no entanto, o amor continua"

- Amar não é ter, não se tem o que se ama. amar é deixar ser, é deixar estar.

Porra. 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

A-ver-o-mar, o mergulho antes da ascensão

O abraço paterno, o núcleo duro reunido. Observar que o amor se manifesta sob variadíssimas formas.
Recordar a criança que era e como cheguei a este ser complexo que, todavia, se contenta com um raio de sol na face e o olhar o mar.
Hoje disse a mim mesma que não tiraria o pijama. Pai e mana convidam-me para um passeio que não se nega, casaco vermelho por cima, a pijamar pela extensão de dois kilómetros do meu Pedrógão.
O mar não está nem manso nem revolto, apenas inquieto, como eu. A luminosidade a reflectir-se no areal, a rosa dos ventos a sugerir-me os mil caminhos possíveis. Mergulhar em mim e no nevoeiro da minha mente, evocando a Mensagem de Fernando Pessoa:

"(...)
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a hora!"

Tea house moon - Enya, Memory of Trees

Penélope e Helena

John William Waterhouse,
Penélope

mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

e recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor. 


David Mourão Ferreira

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.

Eu que me Aguente Comigo

Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.

Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

que o papel quase que não resistiu

À "Tulipa", pelo Natal


A Flor

"Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis.
A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!"

Poema de José de Almada Negreiros
in "O Regresso ou o Homem Sentado - III parte"
(citado na Casa das Artes, Conversa de Viajantes, Coimbra, 27 de Novembro de 2019, 18h30)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Rótulos.
De novo o rótulo. Shame.
Por que há-de a sociedade rotular e deitar abaixo uma pessoa com uma marquinha deixada a ferro, como se faz com as vacas.
É assim. Corre depressa para que o ferro quente não vire uma tatuagem que não desejas. Não há rótulos justos, há a vida a passar e a acontecer e tu a fazeres o que de melhor sabes a cada momento. Sabes? Melhor, o que de melhor sentes. Porque és tu e só tu compreendes o teu próprio caminho.
Corre sempre porque depois, quando parares, a aceleração das batidas cardíacas traz-te um calor que emana do interior de ti até às pontas dos dedos e corres ao mesmo ritmo sincopado da respiração dos teus pensamentos em catadupa e o universo enevoado oferece-te uma quietude inesperada.
Aceita-te. Não aceites o rótulo. O cabelo molhado bate-te nas costas, chove imenso e as gotas confundem-se já com o suor da face, mas sorris, há quanto tempo te querias esgotar na vertigem física de te ultrapassares?
Assume-te na loucura dos dias o que de melhor sabes ser e sentir. É esse o teu corpo vivido, as entranhas do teu corpo arqueológico. As pernas latejam quando abrandas finalmente e o corpo objectivo dá o sinal que esperavas de que a energia te percorre e te invade e te faz explodir.
Sorris.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

E se nada houver para lá do mergulho?




A paciência desvanece-se no ar como o fumo do cigarro que teimosamente me queima ainda os dedos. A desconfiança ata-se num apertado nó com o desejo; o embate frontal é chocante. Desejo de conhecimento, sofrer pela descoberta de si mesmo. A aparição de si a si mesmo fascina, deslumbra mas é um acidente de carro com tripla capotagem. Ou cair nas ravinas da alma, arrancando pedaços de pele. E se nada houver para lá do mergulho? E se não nos pudermos já reconhecer e amar depois de saltar o abismo? Alguém escreveu que devemos sair sob a chuva e molhar-nos. O provérbio procura aquietar-nos porque depois da tempestade vem a bonança.
Eu sou a tempestade, sempre.
Confia, fala, sente, explica, vê e deixa-te ser vista, mente inquieta.
Dói o reconhecimento, pois é πάθει μάθος, sofrer pelo conhecimento. Dói muito mudar de pele.
Oh se pudesse adormecer e despertar apenas quando a música tornasse a tocar e não tivesse que dançar no nevoeiro silencioso, movendo-me no incerto, palmilhando novos caminhos que rasgam a carne a cada momento.
Voar. Cair. Nada mais resta do corpo que a dança e o movimento. Corpo vivido.
Espera. Não já. Não te faças ao mar, é cedo. Sente.

domingo, 8 de dezembro de 2019

que deixas à solta fora de teu corpo, em precária liberdade

corpo envolto por uma linha azul, espessa areia fulva em toda a extensão
da folha de papel
nervuras brancas, textura das tintas, risco de lápis
outro corpo na penumbra do olho em pêlos erectos
as marés movem-se na polpa de um sexo, águas avermelhadas reflectem o
fruto incendiado
(eu sei, a verticalidade é a tua posição, mesmo durante o sonho)
mais amarelo vestindo corpos inacabados
um dentro do outro, prolongam-se para além de ti, na luz quase
comestível do amanhecer
afastados um do outro continuam a tocar-se através dum objecto, coisa
viva sem nome ainda
o lápis percorre a folha, num traço surgem os lábios de molusco, concha
aberta no crepúsculo da praia
lábios, boca, dedos alastrando, gesto agitado, flor áspera, mão abrindo-se
em pétala
cabelos emaranhados noutros cabelos, linha sulcando o rosto, o peito, a
púbis felpuda que se estende até ao horizonte do mar
noutro espaço, para lá dos corpos, minúsculos pássaros aquáticos povoam
a luz, hirtos, estáticos.
esperma, pérolas irrequietas, nervosas medusas, circulam à roda de um astro
às vezes apontas um detalhe, enches os brancos do papel
olho tecido no aveludado da alucinação, granulado de sementes, macia
pele na lentidão das maresias
cruzam-se e enleiam-se as linhas
esbatem-se cores, outro corpo de escamas ocupa o espaço
depois, o rosto louco, nocturno, quase vegetal, põe-se a latejar
animal cósmico à deriva pelo sangue, excremento vivo dalgum sonho
antigo, como o voo dos pássaros migradores
sonho oculto na noite das cidades, insónia e delírio, ele avança
corpo translúcido, espelho que te reconhece
sonho do silêncio, marés altas, superfícies povoadas, subitamente, por
um insecto de ouro
uma abelha escondida nos favos de subtis tonalidades sépia
animal fabuloso que se desloca na seiva iluminada dos bosques
um astro explode em mil outros animais, minuciosamente desenhados
inicias a metamorfose, és aqueles animais dourados, aquele astro, aquela
árvore perfurando a noite
caminhas extenuado por entre corpos desfeitos no vento, quase líquidos
e vem a noite que te queima, te inquieta, e continua
escorregam silhuetas pelas húmidas pedras, acesas por dentro
vertiginosos néons revelam a ave morta à entrada duma vulva de água
um peixe de saliva cresce em cada corpo de orvalho, expande-se
...
há dias em que o lápis te foge, resiste como um objecto estranho
persistes, esboças o rosto de cera apercebido no espelho, no fundo
quieto do rio
sorris
o lápis volta a obedecer-te
no rosto abrem-se olhos, flores, águas, cristais, lodos, geometrias, fogos,
animais sem nome
que deixas à solta fora de teu corpo, em precária liberdade


Al Berto
Portugal, Coimbra 1948 – Lisboa 1997
in O Medo
Editor: Assirio & Alvim

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

"Whippity pow!"







Sempre tive problemas com o meu corpo. Passei toda a infância a ser gozada e chamada de gorda por outras crianças, sobretudo meninas. Brincava com os rapazes mas, volta e meia, recebia os mesmos comentários. O trabalho de auto-estima é eterno, mas não há outra forma de enfrentar os dias.

Nasci em 1985. Não sei quando é que os meus pais me trouxeram este filme alugado do vídeoclube. Katy, the Caterpillar é um filme de desenhos animados de 1984 e em fases complexas da minha vida (sendo esta a 3ª), tem sido de uma fulcral ajuda para não me esquecer do meu valor.


Katy é uma lagarta gordinha e trapalhona que decide partir do seu ramo, onde vivera com as irmãs e onde apenas comiam folhas, porque queria conhecer o mundo lá fora, desejando conhecer mais da vida e, sobretudo, de si mesma.
Sozinha, inicia o seu caminho, conhecendo em primeira instância o Espírito da Mãe Natureza,  vários amigos e inimigos se cruzam nesta viagem, animais e insectos, uma abelha, um rato, camaleões, corvos, uma aranha, lagartos. Com cada um Katy procura aprender a sua essência e formas de vida, buscando uma maneira de ela mesma se encaixar no mundo. 
Após algumas aventuras e desilusões, a doce lagarta encontra de novo o Espírito da Mãe Natureza e percebe o que quer efectivamente ser, compreendendo que o seu caminho deve ser feito por si própria e que ninguém lhe poderá impor um destino que não seja o seu. Katy lê um livro que a Mãe Natureza lhe oferece, tricota o seu casulo, onde se fecha, surgindo após a mutação, o que ela sempre quis ser, uma flor voadora, uma borboleta.
É naíve? Talvez... mas foi e continua a ser um filme muito importante na minha construção e acredito que toda a criança o deveria ver, para crescer acreditando em si e no seu valor, forma de ser e, acima de tudo, essência vital. E a lição mais bela a tirar é a de que nada na natureza acontece por magia, diz o Espírito da Natureza, mas sim com mutação lenta, transformação, esforço, trabalho e dedicação pessoal.

Spirit of Nature's voice (final):
"And so, Katy, once a chubby rather clumsy caterpillar became a butterfly, a beautiful creature, free as the wind and happier than any other, just because one day she had the courage to discover and be her real self".

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Os passarinhos da panificadora da Batalha




A panificadora da Vila da Batalha colava com a casa dos meus avós. No telhado da panificadora, no vértice das águas, dois passarinhos pousavam. Não voam, porquê? Pensava eu. Tinha medo daqueles passarinhos, e espreitava-os. Se me pusesse em bicos dos pés, via-os perfeitamente, se me baixasse no meio do jardim deixava de os ver. Se corresse para a outra ponta do barracão, que ficava para lá do galinheiro, podia vê-los de novo. E eles, viam-me também? Às vezes pensava que se eu me portasse mal, um deles levantaria voo e viria bicar-me o nariz (algum adulto deve ter tido esta "bela" tirada para me desafiar).
Um dia, conheci uma história muito triste (ou alguém ma contou), um conto infantil (mais tarde soube que era O Príncipe Feliz, de Óscar Wilde), no qual uma andorinha de bom coração tinha morrido junto da estátua do Príncipe, depois de ter espalhado alegria e amor e ter ajudado quem mais necessitava, levando, a pedido da estátua, todos os seus ornamentos a quem deles precisava: os olhos de safira, a bola de rubi da bengala, a cobertura de folha de ouro. Misturei tudo, então. Aqueles passarinhos de barro e telha teriam sido um dia passarinhos vivos, presos agora a uma petrificação de estátua? Quando li, mais tarde, a história da Medusa para os olhos da qual se não podia olhar, sob pena de se ter o corpo transformado em estátua, assolou-me o mesmo terror gélido que tinha em criança com os passarinhos da panificadora.
Freud discorre sobre o Terror da Medusa como medo de castração, em termos sexualizados e no masculino, mas que podemos perfeitamente generalizar. Ser transformado em estátua é não se poder mais mover, é ver o mundo na frustração de nada poder fazer, é estar preso a um corpo imóvel fervendo por dentro com uma carapaça que nos tolda por completo a acção.
É a castração total de emoção e movimento, da criatividade, do fazer e do ser.
Hoje consigo olhar os passarinhos da panificadora, mas não deixo de estremecer por dentro à ideia de me petrificarem.



"A arte não se separa da vida, não a ignora mas revive-a noutra dimensão"


A chapada da realidade bateu-me aos cinco anos. Perdi o meu suporte, o abraço da Avó, onde o amor era luz e sonho e tranquilidade, desapareceu o local onde se dormia sobre nuvens e sob uma capa de céu morno e estrelado e onde a beleza e a criatividade eram aguçadas a cada dia.

Alegrias infantis eram assustar a mãe porque eu quase voava no baloiço, movendo o corpo para diante e para trás a alturas impossíveis, ultrapassar limites, correr desenfreadamente com o vento na cara, sempre à sombra segura do Mosteiro.

Esse mundo ainda existe, dentro de mim, e eu refugio-me lá sempre que posso. Mas será um refúgio ou a minha concretização em plenitude? 
É nesse mundo que desenho, é nesse mundo que danço e me movo com a felicidade e o receio de cair da criança que fui e ainda aí sou, mas com a persistência felina de leoa de seguir e tentar na mesma. É nesse mundo que a Beleza é eterna, que a criatividade não desaparece. 

Não tentem tirar-me esse mundo…

Vai correr tão mal. Porque hei-de bater a porta e hei-de seguir.

Quem me rodeia deveria saber. Sou adulta e conheço bem a realidade. Tenho de arcar com ela no dia a dia, mas nada me impede de a combater com Amor e Arte.


Já fui acusada de querer sempre mais, já me tentaram lançar a maldição “nunca serás feliz, serás a eterna insatisfeita”. Não conseguiram.


Não é assim. Basta-me que a Beleza e a Arte estejam sempre comigo para pisar a realidade com pantufas o mais suavemente possível, ou melhor, como se a realidade fosse a areia da praia e eu pudesse caminhar descalça até à espuma do mar.


Mosteiro da Batalha, 31 de Outubro de 2019
Ontem chovia, mas o halo de neblina só engrandeceu mais a beleza da minha montanha de infância. A minha montanha é o Mosteiro da Batalha. Os meus primeiros anos de vida foram passados sob os seus contrafortes e pináculos. Pela nave principal fora corria alegremente, saindo sob o sol quente que inundava o claustro. Vezes sem conta ouvi a lenda do relógio que antigamente, quando dava as horas, fazia estremecer as suas pedras.

Ontem chovia. As mulheres afadigavam-se a lavar as campas para as preparar para o dia de hoje. Ao longe, escondido na bruma, o alto do pináculo espreitava.

Os meus amores maiores não estão aqui, apenas um simulacro, pois eles estão sempre comigo nesse mundo onde ainda cheira a pão torrado com manteiga, onde vou pela mão, rua fora, com os tons dourados do pôr do sol a cobrir as capelas nunca acabadas.

Desci à vila, fui ver o meu ninho, saudei os passarinhos do telhado da panificadora, hoje abandonada, que colava com a casa dos meus avós (ainda um dia hei-de escrever sobre eles) e segui até à oficina do meu avô. Toparam o verde dos meus olhos, reconheceram o nariz Seiça inconfundível, o primo falou-me do meu avô, detalhes que eu já sabia (não fôra eu uma cópia), um homem feito para trabalhar mas não para enriquecer. Amava as pequenas coisas da vida, ajudar o “outro” e, tal como eu, não se podia afastar do Mosteiro por muito tempo. A Arte. Talvez o meu avô não se desse conta, ou talvez não pudesse dar-lhe a mesma nomenclatura que eu - não pude falar com ele sobre estas coisas, despediu-se do mundo três anos depois da minha Avó - mas nenhum de nós se pode afastar do Belo por muito tempo…

Segui a visitar o outro primo que trabalha no Mosteiro. O Amor à pedra, à humidade do lajedo, oh, como somos mesmo filhos e netos de nossos pais e avós, nestas pequenas mixuruquices deliciosas assim se vê.  
Freud havia de adorar estudar esse mundo que mantive em mim. Não é um mundo imaginário, porque ele existiu. Apenas se esfumou cedo demais e pude conservá-lo para minha sanidade mental, como o local de aconchego feliz que busco ainda e sempre esperançosa. Na Arte, no Amor e no Belo vive-se e revive-se as vezes que forem necessárias.


Mosteiro da Batalha, 31 de Outubro de 2019
Mosteiro da Batalha, 31 de Outubro de 2019

“Arte é totalização, absoluto de vivência, como pode ser um refúgio? (...) Não é uma distração, uma fuga, mas sim assumir o que põe em causa a nossa condição num plano que não é o do exame exterior, mas o da consubstanciação: uma adesão imediata, sanguínea, evidente. Na arte vive-se uma segunda vez”.
Vergílio Ferreira, Do Mundo Original 
Mosteiro da Batalha,1989, Avó e eu, Fotografia de Rui Pedro

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Al Berto (e eu, por osmose)

Nunca conseguiu viver longe do mar.
A sua adolescência ficara cheia de dunas e de cama­rinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.
Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meio cegos a vastidão incendiada do oceano - e nin­guém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.
Aprendera, também, que o mar, aquele mar - tarde ou cedo - só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.
Depois, partiu para longe. E durante anos recordou, em sonhos, o mar avistado pela última vez ao fundo das ruas. Procurou-o sempre por onde andou, obsessivamente - mas nunca chegou a encontrá-lo.
Certa noite de bruma fria, em Antuérpia, no Zanzi-Bar, julgou ouvir o mar que perdera na voz dum jovem marinheiro grego. Mas não, o marulho que aquela voz derramava, junto à sua orelha, era de outro mar — fechado, calmo — propício aos amores inquietos e à lassidão embriagante do sol e do vinho.
Anos mais tarde, em Delos, haveria de reconhecer a voz do marinheiro no rebentar das ondas, em redor da ilha, como um eco: onde te vi despir regresso agora /para adormecer ou chorar... e a noite caiu subitamente sobre ele, sobre a ilha e sobre o sonolento coração das leoas em pedra.
Uma outra vez, perto de Gibraltar, uma mulher idosa quis ler-lhe as linhas emaranhadas da mão. Já não se lembra o que lhe contou a mulher, acerca da vida e dos rumos da paixão. Recorda somente o que ela lhe disse ao separarem-se:
- Tens nos olhos a cor triste do mar que perdeste.
E passou bastante tempo antes que o homem voltasse ao seu país. Quando o fez, foi ao encontro do mar.
Largou a cidade e os amigos, a casa, o conforto, a noite, o trabalho e tudo o mais. Viajou em direcção ao sul, com a certeza de que jamais encontraria o mar perdido, em lugar incerto, a meio da sua vida.
Sabia agora que nenhum mar existia fora do seu corpo, e que tinha sido na perda irremediável de um mar que adquirira um outro onde, por noites de inquietante insónia, podia encontrar-se consigo mesmo e envelhecer sem sobressaltos; afastado da vã alegria dos homens e da pobreza do mundo.
Ao chegar junto do mar sentou-se no cimo da duna, como dantes, e esperou. Esperou que o mar guardado no fundo de si transbordasse, e fosse ao encontro daquele que perdera e se espraiava agora à sua frente.
Ainda hoje permanece sentado, no mesmo lugar - esperando o instante em que os dois mares se dissiparão um no outro, para sempre.
Está cansado da guerra com as palavras e do veneno dos homens, tem os olhos queimados pelo sal. Os dedos adqui­riram a rugosidade da areia e dos rochedos; da sua boca solta-se um marulhar surdo, muito antigo, que os dias e a solidão arrastam devagar para a luminosa euforia das águas.

(in O Anjo Mudo, Assírio & Alvim)


quarta-feira, 16 de outubro de 2019


Porque é fácil partilhar as alegrias e receber “likes”. Porque realmente quando se gosta do que até aqui se foi fazendo, uma alegria renovada e uma esperança nos fazem erguer de manhã. Mas chega um tempo em que não se pode mais.


Aos pais (que, quando podem, são importantes pilares)
(inspirado na personagem a Velha, da Fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner)



Quando eu era pequena brincava e estudava, desenhava e dançava e tinha esperança de vir a ser feliz. Sempre fui comunicativa, pro-activa, alegre e irrequieta.
Agora, se não fossem os meus pais, que seria de mim?

Quando fui para a faculdade, tinha no olhar o brilho esperançoso de, por ser boa aluna, arranjar trabalho nas áreas em que me formava. Estudava, dançava, falava francês e espanhol, tirei formações extra sempre com o fito positivo num futuro à minha medida.
Agora, se não fossem os meus pais, que seria de mim?

Quando segui a linha académica de Mestrado e Doutoramento, e fui caminhando e mudando de área, percebendo as minhas tendências, buscando as áreas mais originais e pouco desenvolvidas em Portugal, investi muito em mim.
Agora, por muito que momentaneamente me sinta realizada, a vida e o quotidiano dão-me uma forte chapada que atordoa e já pouco acredito que o que faço venha a ser valorizado e remunerado, muito menos nesta cidadezinha de mentalidade fechada, e vou desistindo aos poucos. 
Se não fossem os meus pais, que seria de mim?

Pedem-nos curriculum feito, no meu caso, congressos, publicações, investigação demonstrada; para o fazer preciso de tempo, mas o tempo é ocupado a tentar ganhar a vida, que isto de querer ser independente seria mais fantástico se remunerassem o nosso trabalho, "só que não".
Na vida não há uma Fada Oriana que dança na noite só porque um Poeta lhe pediu : "Oriana encanta a noite. E a noite ficou encantada". E eu que sempre acreditei que sim.
Se não fossem os meus pais, que seria de mim?

A minha professora de francês do Liceu teve a bondade de apontar esta característica em mim: "a Ana pode às vezes não saber o que quer, mas sabe MUITO BEM o que não quer". Por algum motivo, os últimos versos do Cântico Negro, de José Régio eram como que uma divisa minha:

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo' 


Está a chegar o momento de se calhar talvez ter de ir...






sexta-feira, 4 de outubro de 2019

La vérité c’est ce qu’on croit


À Aurore

George Sand

La nature est tout ce qu’on voit,
Tout ce qu’on veut, tout ce qu’on aime.
Tout ce qu’on sait, tout ce qu’on croit,
Tout ce que l’on sent en soi-même.
Elle est belle pour qui la voit,
Elle est bonne à celui qui l’aime,
Elle est juste quand on y croit
Et qu’on la respecte en soi-même.
Regarde le ciel, il te voit,
Embrasse la terre, elle t’aime.
La vérité c’est ce qu’on croit
En la nature c’est toi-même.

sábado, 14 de setembro de 2019

Das manhãs no colo paterno

As manhãs sempre foram com o meu pai, quer quando ainda vivia sob tecto paterno, quer agora, quando estamos todos na casa do Pedrogão.
Em Coimbra, na cozinha, o meu pai ligava a TV, e mesmo que fosse na TVI, que transmitia a missa das 11h, eu ficava ao lado dele a ver. Mas normalmente eram os Karts, o bilhar da sport TV, ou a eterna National Geographic com mais maravilhas do mundo animal.
Na praia tem ainda outro sabor...
O Rui Pedro normalmente é quem acorda primeiro. Ouço-o a bater suavemente a porta. Vai ao mercado, ao pão.
Esgueirava-me da cama só quando ele regressava, o cheiro do pão na cozinha e o café a sair. Outras vezes, quando ainda o sentia no corredor, saia apressadamente do quarto e ainda ensonada "espera por mim!", lavava a cara às três pancadas, enfiava o fato de banho, o vestido e corria escada abaixo para ir também.
Gosto das conversas matinais que temos, do que me conta, pela enésima vez, quando passamos no senhor das revistas, na venda da fruta, quem vivia ao lado quando ele era criança, como era a vida então e os hábitos da casa.
Dele herdei um detalhe que irrita os comuns mortais se vêem um filme ao nosso lado. ☺️ Quando apreciamos algo, além de vermos repetidas vezes, antecipamos a fala da personagem e sai-nos, encantados, por sabermos o filme de cor.
Hoje de manhã não foi excepção. O meu pai de enorme robe branco na sala. Eu estava ainda na cozinha a preparar o pequeno almoço e a pôr tudo no meu eterno tabuleiro amarelo, quando ouço a potente voz da Reverenda Madre a cantar o Climb Every Mountain. O meu pai tinha ligado no canal Hollywood. Se já vi o clássico Música no Coração tantas vezes que já lhes perdi a conta? Sim...  Se fui a correr como se não o pudesse ver na net, ou no DVD ou nunca mais? Pois claro que fui!
Lá me sentei no chão, de pernas à chinês, encostada às suas pernas, ambos a cantar e a dizer as falas da Fraulein Maria e do Captain Von Trapp.
E depois? Ala para a rua que o sol convidava a sair!

https://youtu.be/EoCPuhhE6dw

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Lá vêm os Setembristas

"Olha, lá vêm os Setembristas", diz o senhor meu pai, ou menino Rui Pedro, como preferirem chamar, com ar sabedor e trigueiro deste sol.

O meu pai conhecia os setembristas que vinham realmente apenas passar férias no mês de Setembro.  Naquele tempo, em que a escola não principiava antes de dia 7 de outubro e então se tinham quase quatro meses de férias-férias, a mãe vinha com eles para o Pedrógão e o meu avô, trabalhando, aproveitava apenas os fins de semana. De Junho a Setembro se renovavam as companhias das intermináveis jornadas de praia.

Os Setembristas são parcos, polvilham a areia de longe a longe, vêm também com armas e bagagens, o chapéu, o tapa-vento, a bicicleta, o casaco. Chegam com a harmonia e o prazer entranhados de vir encontrar o que de melhor a praia tem e, a cada ano que passa, são justamente os que saboreiam o melhor sol, o melhor mar.
Os Setembristas são famílias com crianças pequeninas, reformados ou casais enamorados que buscam a calma após a "tempestade" de Agosto.
Os Setembristas sabem-na toda! Trazem no olhar já a volúpia da vastidão da praia, de sentir o pé nu nos grãos de areia morna e as águas frias desta costa maravilhosa que não é para todos os ossos. É preciso amar este vento, esta nortada. "Está frio", diz a minha mãe. "O frio entra pela boca. Fecha-a" remata sempre o meu pai, sorrindo, repetindo esta tirada certeira que herdou, segundo diz, de uma sua avó.

E Setembro, Setembro volta sempre à memória. "O melhor Setembro," conta-nos de novo, desde que me conheço como gente, "foi do ano em que nasceste, Setembro de 1985. Não havia vento, um forninho, o mar-chão, e o dia inteiro em fato de banho, uma semana como poucas".
Nesse Setembro, aos 8 meses, comecei a andar aqui no Pedrógão. E mais Setembros se têm sucedido assim, como recordo por exemplo o de 1992, quente, com a mana a nascer dia 15. Logo, Setembro é mesmo um bom mês!
Não é egoísmo, não, mas é saber que o Setembro sim, afasta as multidões, nos faz sentir a posse mútua de que a areia e o mar nos pertencem como nós pertencemos e nos fundimos com o mar e a areia. São as noites em que já não há música no adro e o marulhar se eleva como uma orquestra e nos embala e não há melhor sítio onde dormir profundamente senão aqui.

Se eu sou Setembrista? Ufanamente me posso gabar, com um sorriso maroto, que pertenço a todos os meses, que sou das almas e corpos abençoados que conhecem como a palma da mão a magia, as peculiaridades e o sabor do Pedrógão em cada mês do ano.

(fotografias: Praia do Pedrogão, 12 de Setembro de 2019, 12h15)



terça-feira, 3 de setembro de 2019

o sangue que se esvai sem som



Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até na íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas nós sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
Fiama Hasse Pais Brandão
in Cenas Vivas

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Mulheres à beira-mar

Confundido os seus cabelos com os cabelos 
do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu 
e tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura
dos seus pulsos penetra nas espumas.

Passam aves de asas agudas e a curva dos seus
olhos prolonga o interminável rastro no céu
branco.

Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente a virgindade de um mundo que nasceu.

O extremo dos seus dedos toca o cimo de
delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.

E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de
ser tão verde.
 

Sophia, Coral

Praia do Pedrógão, Agosto 2019

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O Corpo Os Corpos

O teu corpo         O meu corpo       E em vez dos corpos 
que somados seriam nossos corpos 
implantam-se no espaço novos corpos 
ora mais ora menos que dois corpos 

Que escorpião de súbito estes corpos 
quando um espelho reflecte os nossos corpos 
e num só corpo feitos os dois corpos 
ao mesmo tempo somos quatro corpos 

Não indagues agora se o meu corpo 
se contenta só corpo no teu corpo 
ou se busca atingir todos os corpos 

que no fundo residem num só corpo 
Mas indaga sem pausa além do corpo 
o finito infinito destes corpos 

David Mourão-Ferreira, in “Obra Poética” 

domingo, 2 de junho de 2019

Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor




Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor

foram breves e medonhas as noites de amor 
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo 
habitado ainda por flutuantes mãos 

estava nu 
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era 
ou como poderia construir a perfeição 

os dias foram-se sumindo cor de chumbo 
na procura incessante doutra amizade 
que lhe prolongasse a vida 

e uma vez acordou 
caminhou lentamente por cima da idade 
tão longe quanto pôde 
onde era possível inventar outra infância 
que não lhe ferisse o coração 

Al Berto, “O Medo”

quarta-feira, 29 de maio de 2019

O amor é um atentado anarquista

"Se fui? Claro que fui. A minha estreia na ala dos criados. Onde acabam as armaduras e as cortinas de veludo vermelho. Antes do quarto de passar a roupa e as caldeiras. Na fronteira. Ele o meu feitor e eu a sua prisioneira. Na sua cabana pequena, em ordem e sem janelas. Apenas uma cortina lá em cima, na porta, alta. (...) Esse fedor espesso, eterno e misterioso que todos os quartos de serviço têm. Os seus dedos atrapalhados nos botões das calças de montar. "Desaperta tu", disse-me ele. Não tenho a certeza se ele me disse "tu". Eu tinha imaginado tudo de outra maneira. Eu imaginava as mãos de um artesão. Um joalheiro ou um ourives. Um relógio. Dedos suíços abrindo os botões. Soltando os laços. Desfazendo os cordões. Os botões travavam como se fossem pedras. Ele puxava... "E vira-te assim de lado". (...) Conversa porca. Falava entre dentes. Uma vulgaridade inefável. (...) Imaginei tudo de maneira  diferente. (...) Tive vontade de fugir. E mais vontade ainda de ficar e que ele fizesse tudo outra vez. (...) Vontade que me cobrisse como uma égua. E uma vontade idiota de lhe escrever um poema. Palavras que me apareciam como nuvens. Ele com a sua imensa falta de nível "Uma rapidinha antes que os senhoritos nos encontrem ", "Fode, fode". E eu, como uma idiota, escrevendo em tudo o que é papel a palavra "foda" em letra gótica. Foda, fode, foda: o amor é um atentado anarquista!"

Ala de Criados, de Mauricio Kartun, tradução e adaptação Teatrão*

domingo, 19 de maio de 2019

Finisterra: terra de pescadores-poetas (pescam peixe e deleitam o Homem)

De como a doçura aparece ao visitar o museu da pesca de Finisterra e o guia é um ser humano poeta

“Hei naufragar nas vagas dos teus ollos onde a brisa é dozura e o mar tenreza envolto por argazos furibundos que me esgaduñen feros as espaldas. Hei reflectir nas ondas intanxíbeis o pélago onde afondas as meixelas, os penedos sinceros do teu hálito, os temporais severos do teu ventre. Hei falecer nas dondas turbulencias, na pube onde me escondas o desexo, nos manaciais austeroros dos tesu beizos... E curarei as chagas co sal morno que mana da
fondura do teu corpo até perder os azos que me erguen... E bicareite núa cada
instante... (...)”
Alexandre Nerium


Quod Nihil Scitur
Água significa ave isto é
a forma de exprimir a parte míni-
ma das essências. Diminuir a área da
imagem. Mas profusa. Separando
nomes. Dividir o abstracto
em fotões. Nomear para viver
parcimoniosamente na lite-
ratura. Paradoxo causado pela Ode.
Pela Presença.
Frase, fruto do texto passageiro. Olhar
para as palavras. Ver o vazio a pre-
encher-se linearmente. Erro ino-
cente. Um equívoco pictográfico.

Fiama Pais Brandão, "Três rostos”, 1989