A chapada da realidade bateu-me aos cinco
anos. Perdi o meu suporte, o abraço da Avó, onde o amor era luz e sonho e
tranquilidade, desapareceu o local onde se dormia sobre nuvens e sob uma capa
de céu morno e estrelado e onde a beleza e a criatividade eram aguçadas a cada
dia.
Alegrias infantis eram assustar a mãe
porque eu quase voava no baloiço, movendo o corpo para diante e para trás a
alturas impossíveis, ultrapassar limites, correr desenfreadamente com o vento
na cara, sempre à sombra segura do Mosteiro.
Esse mundo ainda existe, dentro de mim, e
eu refugio-me lá sempre que posso. Mas será um refúgio ou a minha concretização em plenitude?
É nesse mundo que desenho, é nesse mundo que
danço e me movo com a felicidade e o receio de cair da criança que fui e ainda
aí sou, mas com a persistência felina de leoa de seguir e tentar na mesma. É
nesse mundo que a Beleza é eterna, que a criatividade não desaparece.
Não tentem tirar-me esse mundo…
Vai correr tão mal. Porque hei-de bater a
porta e hei-de seguir.
Quem me rodeia deveria saber. Sou adulta e
conheço bem a realidade. Tenho de arcar com ela no dia a dia, mas nada me
impede de a combater com Amor e Arte.
Já fui acusada de querer sempre mais, já me
tentaram lançar a maldição “nunca serás feliz, serás a eterna insatisfeita”. Não conseguiram.
Não é assim. Basta-me que a Beleza e a Arte
estejam sempre comigo para pisar a realidade com pantufas o mais suavemente
possível, ou melhor, como se a realidade fosse a areia da praia e eu pudesse
caminhar descalça até à espuma do mar.
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| Mosteiro da Batalha, 31 de Outubro de 2019 |
Ontem chovia, mas
o halo de neblina só engrandeceu mais a beleza da minha montanha de infância. A
minha montanha é o Mosteiro da Batalha. Os meus primeiros anos de vida foram
passados sob os seus contrafortes e pináculos. Pela nave principal fora corria
alegremente, saindo sob o sol quente que inundava o claustro. Vezes sem conta
ouvi a lenda do relógio que antigamente, quando dava as horas, fazia estremecer
as suas pedras.
Ontem chovia. As
mulheres afadigavam-se a lavar as campas para as preparar para o dia de hoje.
Ao longe, escondido na bruma, o alto do pináculo espreitava.
Os meus amores
maiores não estão aqui, apenas um simulacro, pois eles estão sempre comigo
nesse mundo onde ainda cheira a pão torrado com manteiga, onde vou pela mão,
rua fora, com os tons dourados do pôr do sol a cobrir as capelas nunca
acabadas.
Desci à vila, fui
ver o meu ninho, saudei os passarinhos do telhado da panificadora, hoje abandonada, que colava com a casa dos meus avós (ainda um dia
hei-de escrever sobre eles) e segui até à oficina do meu avô. Toparam o verde
dos meus olhos, reconheceram o nariz Seiça inconfundível, o primo falou-me do
meu avô, detalhes que eu já sabia (não fôra eu uma cópia), um homem feito para
trabalhar mas não para enriquecer. Amava as pequenas coisas da vida, ajudar o
“outro” e, tal como eu, não se podia afastar do Mosteiro por muito tempo. A
Arte. Talvez o meu avô não se desse conta, ou talvez não pudesse dar-lhe a
mesma nomenclatura que eu - não pude falar com ele sobre estas coisas, despediu-se do mundo três anos depois da minha Avó -
mas nenhum de nós se pode afastar do Belo por muito tempo…
Segui a visitar o
outro primo que trabalha no Mosteiro. O Amor à pedra, à humidade do lajedo, oh,
como somos mesmo filhos e netos de nossos pais e avós, nestas pequenas
mixuruquices deliciosas assim se vê.
Freud havia de adorar estudar esse mundo
que mantive em mim. Não é um mundo imaginário, porque ele existiu. Apenas se
esfumou cedo demais e pude conservá-lo para minha sanidade mental, como o local
de aconchego feliz que busco ainda e sempre esperançosa. Na Arte, no Amor e no Belo vive-se e revive-se as vezes que forem necessárias.
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| Mosteiro da Batalha, 31 de Outubro de 2019 |
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| Mosteiro da Batalha, 31 de Outubro de 2019 |
“Arte é
totalização, absoluto de vivência, como pode ser um refúgio? (...) Não é uma
distração, uma fuga, mas sim assumir o que põe em causa a nossa condição num
plano que não é o do exame exterior, mas o da consubstanciação: uma adesão
imediata, sanguínea, evidente. Na
arte vive-se uma segunda vez”.
Vergílio Ferreira, Do Mundo Original
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| Mosteiro da Batalha,1989, Avó e eu, Fotografia de Rui Pedro |