"O Minotauro" -- Sophia de Mello Breyner Andresen
Em Creta
Onde o Minotauro reina
Banhei-me no mar
Há uma rápida dança que se dança em frente de um toiro
Na antiquíssima juventude do dia
Nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu
Só bebi retsina tendo derramado na terra a parte que pertence aos deuses
De Creta
Enfeitei-me de flores e mastiguei o amargo vivo das ervas
Para inteiramente acordada comungar a terra
De Creta
Beijei o chão como Ulisses
Caminhei na luz nua
Devastada era eu própria como a cidade em ruína
Que ninguém reconstruiu
Mas no sol dos meus pátios vazios
A fúria reina intacta
E penetra comigo no interior do mar
Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos
E reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor
E o mar de Creta por dentro é todo azul
Oferenda incrível de primordial alegria
Onde o sombrio Minotauro navega
Pinturas ondas colunas e planícies
Em Creta
Inteiramente acordada atravessei o dia
E caminhei no interior dos palácios veementes e vermelhos
Palácios sucessivos e roucos
Onde se ergue o respirar da sussurrada treva
E nos fitam pupilas semi-azuis de penumbra e terror
Imanentes ao dia --
Caminhei no palácio dual de combate e confronto
Onde o Príncipe dos Lírios ergue os seus gestos matinais
Nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu
O Dionysos que dança comigo na vaga não se vende em nenhum mercado negro
Mas cresce como flor daqueles cujo ser
Sem cessar se busca e se perde e se desune e se reúne
E esta é a dança do ser
Em Creta
Os muros de tijolo da cidade minoica
São feitos com barro amassado com algas
E quando me virei para trás da minha sombra
Vi que era azul o sol que tocava o meu ombro
Em Creta onde o Minotauro reina atravessei a vaga
De olhos abertos inteiramente acordada
Sem drogas e sem filtro
Só vinho bebido em frente da solenidade das coisas --
Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto
Sem jamais perderem o fio de linho da palavra.
"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve", Vergílio Ferreira, Escrever
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
"Leurs mains parlent, et leurs pieds semblent écrire", Paul Valéry, L'Âme et la Danse
A Morte do Cisne
Anna Pavlova foi uma grande bailarina do século XIX, talvez não por possuir uma técnica perfeitamente exímia, mas pela sua candura, expressividade, zelo e entusiasmo que conferia à sua dança. A sua figura era débil, mas graciosa e colocava nos seus movimentos toda a energia e maleabilidade.
A sua figurinha grácil inspirou a Mikail Fokine um bailado a solo (com música composta por Camille Saint-Saëns em 1886, uma parte do Carnaval dos Animais), coreografia que construiu defronte do espelho com Pavlova a imitar e ele a corrigir simplesmente pormenores dos braços e das poses.
Considerava ainda esta pequena criação, com a bailarina em pontas, uma resposta aos críticos que o haviam acusado de trabalhar a dança em pés descalços (a influência de Isadora Duncan começava a tornar-se notória).
Anna dançou A Morte do Cisne milhares de vezes em toda a sua vida, pelo mundo inteiro, em tournées.
![]() |
| Anna Pavlova com um dos cisnes do seu jardim |
"a dança podia e devia satisfazer não apenas os olhos mas, através da vista, devia penetrar na alma" ainda que sejam apenas 2 minutos de espectáculo. Fica a gravação (já de 1925) para fazer jus às minhas palavras.
A Morte do Cisne, por Anna Pavlova
T. Ribas (1962), Pavlova, Colecção Grandes Biografias, Editorial Aster, Lisboa.
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
"A subida está dentro de nós mesmos"
Foi Luna Andermatt, bailarina e coreógrafa, que o disse numa entrevista, em Dezembro de 2011. Faleceu ontem, dia 5 de Novembro, com 87 anos de idade.
Pioneira na dança em Portugal, cofundou a Companhia Nacional de Bailado, apesar de todas as dificuldades para tornar a dança, o ballet, finalmente, numa profissão, uma arte como as restantes.
Pioneira na dança em Portugal, cofundou a Companhia Nacional de Bailado, apesar de todas as dificuldades para tornar a dança, o ballet, finalmente, numa profissão, uma arte como as restantes.
"À loucura queremos dar equilíbrio
Ao medo queremos dar confiança e fé
Ao egoísmo opomos a dádiva de nós mesmos"
O espectáculo inaugural da Companhia realizou-se a 24 de Maio de 1961, no Teatro Nacional de
São Carlos com a presença do Presidente da República. Dançou-se "As
Sílfides", "Pássaro Azul", O festim da aranha" e "Vodka". O programa
abria com o poema acima transcrito.
Tive a honra de a ver dançar a 26 de Abril de 2012, na minha cidade, Coimbra, no Teatro Académico de Gil Vicente, no espectáculo Maior, coreografado pela filha, Clara Andermatt.
| Notícia sobre o bailado Maior e fotografias aqui |
Luna Andermatt escreveu nas suas Notas de Juventude sobre o Ser a Dança que "a Dança é desafio ao impossível e é rigor infatigável da ponta dos pés ao fundo da alma".
domingo, 3 de novembro de 2013
Há mulheres
à João
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in OBRA POÉTICA (Ed. Caminho, 2010)
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in OBRA POÉTICA (Ed. Caminho, 2010)
Subscrever:
Mensagens (Atom)
