terça-feira, 27 de setembro de 2011

est-il d'autres vies?

"Connais-je encore la nature? me connais-je? - Plus de mots.
J'ensevelis les morts dans mon ventre. Cris, tambour, danse, danse, danse, danse! Je ne vois même pas l'heure où, les blancs débarquant, je tomberai au néant.
Faim, soif, cris, danse, danse, danse, danse!"

Rimbaud, Une saison en enfer, Poésie, Gallimard

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

"A minha fala tem as vozes do círculo cromático"

À memória de Júlio Resende

"A minha fala tem as vozes do círculo cromático", afirmava Júlio Resende, em entrevista, no ano de 2008.  
O pintor, que faleceu esta quarta-feira, dia 21 de Setembro de 2011, nasceu no Porto a 23 de Outubro de 1917 e frequentou as Escolas de Belas-Artes do Porto e de Paris. Iniciou a sua actividade no mundo artístico como ilustrador sobretudo infantil e na imprensa diária enquanto jovem. Entre os seus trabalhos, além da pintura e exposições, inclusive em numerosas bienais, contam-se experiências com azuleijaria e trabalhos no âmbito arquitectónico, que lhe garantiram diversos prémios, como o Prémio AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte) em 1985. 
Ilustrou romances como Aparição de Vergílio Ferreira, em 1959 (que lhe garantiu o Prémio Artes Gráficas na Bienal de Artes de S. Paulo) e uma edição de Retalhos da vida de um médico (Lisboa, 1973), do escritor Fernando Namora, obra que me é bastante querida e da qual deixo uma imagem.





“Sou médico. Um médico é um médico; não escolhe doentes nem caminhos”,   
Retalhos da Vida de Um Médico I, p.28

Dizia Resende: "O Picasso não procura, o Picasso encontra. Eu procuro, continuo à procura" 
(entrevista 2008)


http://www.publico.pt/Cultura/morreu-o-pintor-julio-resende-1512922
http://www.publico.pt/Cultura/julio-resende-a-morte-cada-vez-me-preocupa-menos-1512931 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

a força que tem um verso


Poeta Castrado, Não!
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegada poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
De fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia !
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado, não!

Ary dos Santos - Resumo. Lisboa, 1973.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

This is me

Neither prison nor temple of the soul, the body has always been an important refuge of the self. The body cannot be expropriated by another (...) it cannot be plagiarized (...) Its ownership cannot be collectivized, except perhaps during pregnancy. He or she who "has" any one body gets to keep it, enjoy its pleasures, and suffer its breakdown, whatever miracles are at his or her disposal to fix it as it breaks. The body is the passport, the warrant, the seal of one's identity.

"This", said as one firmly pounds one's chest with the flat of one's hands, "is me".

Rita Charon, Chapter 5, "The Pacient, the Body, and the Self", in Narrative Medicine, Honoring the Stories of Illness, 2006, Oxford University Press.

És homem, não te esqueças!

Ao Jorge*

Recomeça...
se puderes,
sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres
nesse caminho duro
do futuro,
dá-os em liberdade.
Enquanto não o alcances
não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

Miguel Torga

(a parte do "sem pressa" não é para levar muito à letra)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

E suportar é o tempo mais comprido.

Chamo-te

Chamo-te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-te que sejas o presente.
Peço-te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado. 


Sophia de Mello Breyner Andresen
(declamação http://youtu.be/fs_Hvx8XgRA)


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Horas, horas sem fim

Espera
 
Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Palavras assim deste jaez

Pelo aniversário de Aquilino Ribeiro

"Dentro da mata, com aquele seu ar de igreja antes de dizer missa, os horizontes a esfumarem-se por detrás das dunas onduladas, o silêncio - sim, o silêncio, pois o marulho das ondas e o ramalhar das franças ao vento parece ficar de fora, de envolta às paredes duma redoma - o exército hirto e negro de troncos"
  
A batalha sem fim, de Aquilino Ribeiro (sobre a Mata do Pedrógão)


Como o percebo...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A disponibilidade das palavras...

"A disponibilidade das palavras! Pedras roladas pelo ímpeto expressivo de cada povo, criações inquietas e versáteis da inquieta e versátil natureza humana, o glaciar que as empurra, e lhes vai pulindo as arestas, não lhes consente a mais pequena recusa aos caprichos da sua vontade. Tanto as abandona enigmáticamente num dos valeiros da montanha, e as condena ao esquecimento eterno da íntima inércia, como lhes muda o rumo e a significação - e torna vivo o que parecia morto, e novo o que na verdade envelhecera - ou as sublima e degrada no mesmo instante, - um som igual a brilhar na alta cúpula dum verso ou a bruxulear no rasteiro alicerce dum insulto.
No pasarán!"

Miguel Torga, A criação do mundo (o terceiro dia), 3ª edição revista, Coimbra 1952

domingo, 11 de setembro de 2011

Apesar das ruínas
e da morte,
onde sempre
acabou cada ilusão,
a força dos meus sonhos é tão forte,
que de tudo nasce a exaltação
e nunca as minhas mãos
ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Es muss sein: o primeiro aniversário

Decorreu um ano desde que originei este blogue.

Estamos, de novo, a cinco dias dos Idos de Setembro, que é como quem diz à laia de romana, a dia 9 do dito mês...
"E já que a vida é feita de pequenos nadas..." canta a voz singular de Sérgio Godinho (“Caramba”) que a minha infância e adolescência completou com a ternura e a vivacidade das suas letras.
Se o é, de facto, evoquemos essa hipótese neste caso, o "nada que é tudo" pessoano faz, no dia de hoje, todo o sentido, já que um vazio sítio cibernáutico foi sendo povoado de literatura ao longo de 12 densos meses.
Num verdadeiro e "puro exercício de ninguém" (Natália Correia), confesso que às vezes me assustava a manutenção destas virtuais páginas onde, com gosto e dedicação, fui apontando algumas das mais deliciosas palavras que assolavam as minhas eclécticas leituras.

E volto todavia a Milan Kundera, à Insustentável leveza do ser:
"Der schwer gefasste Entschluss, a decisão gravemente pesada está associada à voz do destino (Es muss sein!); o peso, a necessidade e o valor são três noções íntima e profundamente ligadas: só é grave o que é necessário, só tem valor o que pesa". Será esta noção sustentável? "Mas o homem, porque só tem uma vida, não tem qualquer possibilidade de verificar as hipóteses através da experiência e nunca poderá saber se teve ou não razão em obedecer aos seus sentimentos" Kundera

"Espero viver dentro de mim" - afirma Natália Correia, na Defesa do poeta - ainda que seja só um cibinho, "descobrir o imponderável" de mim (Vergílio Ferreira, Em nome da terra)!
Pois seja, "Sou um poeta, jogo-me aos dados...". Então... isso quer dizer que...("Es koonte auch anders sein", Kundera) podia muito bem ser de outra maneira? Que nada está já escrito que as coisas têm de ser como são? Que são ou não o são?
"Pardieu!" (e evoco o Vaqueiro vicentino, do Auto da Visitação): nesse caso, no caso do acaso e do livre-arbítrio, com que peças de jogo nos movemos no tabuleiro? Podemos seguir este caminho e/ou aqueloutro, pois não há um "es muss sein", mas sim uma natural e ordenada desordem? Ou uma encantadora e desordenada ordem?
"Que prazer não cumprir um dever" (e conseguimos imaginar Fernando Pessoa espreguiçando-se estirado alegremento num sofá)! Se não existe um "es muss sein", o peso explodirá em leveza. Todavia, a dada altura, a leveza adquirirá o seu peso e desejá-lo-á-…?

A verdade é que "continuamos para aqui a dançar na corda bamba" (Sérgio Godinho) e o equilíbrio é desejável, mas poderá tornar-se um adynaton...o único ensejo legítimo, e que a todos assiste (além do medo), é a vontade de que o cosmos se re-reorganize, sempre, periodicamente, à medida dos nossos desejos e dos nossos tempos, pois com eles “mudam-se as vontades”…Que se reorganize calmamente e que tenhamos a consciência e o prazer de o saber saborear em cada momento, para que a "alma volte a subir à superfície do corpo como a tripulação a sair do ventre de um navio" (Kundera)

Mas que nunca alcance o peso de Para Sempre (Vergílio Ferreira), que eu não sinta as janelas da minha morada a cerrarem-se na penumbra, uma a uma como as de Paulo, o protagonista...ou, se o sentir, se o desejar - numa bela metáfora do eufemístico entardecer - , que seja já num final de vida delicioso e que, ao olhar para trás, possa compreender que, num dado momento, as tais janelas, no seu tempo oportuno, foram alegremente escancaradas para uma vida que brotava e para um mundo que me inundava.

São de veludo as palavras...nesta tão estranha vida  (http://www.youtube.com/watch?v=CTyPuuq9yLM&feature=related)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Uma coisa assim


A um Tu

"Tudo isto é difícil e eu não to sei dizer. Tudo isto está fora das leis humanas ou divinas porque é maior do que elas, do que o imaginado pelo homem para o homem e para os deuses. Há o nosso encontro aí porque tudo pesa imenso e nós devemos ser verdade. Verdade acima de um corpo que apodrece e de um espírito que se extraviou. Verdade entre a solidão que espera uma ideia deitada fora, uma palavra erradia, um olhar que alguém tenha esquecido num balde de lixo.
 (...)
Para lá de ti, o inqualificável de tu seres, o absurdo indecifrável da tua presença. Um pouco isso, um nada disso. Eu digo o teu mistério e tudo fica por dizer porque o aniquilei com dizer. A tua pessoa, a transfiguração de ti na minha memória incerta. Reconheço-te, não te sei dizer, que é que de mim reconheces para um encontro plausível?
(...)
A tua essência, poderei dizê-lo? a tua divindade antes de haver deuses, uma coisa assim. E eu ir ter contigo e sermos em iluminação. Uma chama pura. O sopro do universo, não sei.
(...)
Quero estar contigo sem nada de permeio que nos divida e nos identifique em separação. Estar contigo no absoluto de nós - onde é que poderemos ser todos no indizível e incomparável?
(...)
A essência de nós e uma incerta alegria de uma estrela nos reconhecer. O fulgor de sermos e os astros estarem de acordo. E os deuses que ainda não nasceram e são puros de um início que não tiveram.
Uma coisa assim - e que pena não saber o que é".

Vergílio Ferreira, Em nome da terra

"It's a dream, a frightful dream... life is..."

At my signal, unleash hell.

Gladiator

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

"O me! O life!"

Porque revi parte do Dead Poets Society:


"We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. And medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for. To quote from Whitman, "O me! O life!... of the questions of these recurring; of the endless trains of the faithless... of cities filled with the foolish; what good amid these, O me, O life?" Answer. That you are here - that life exists, and identity; that the powerful play goes on and you may contribute a verse.
What will your verse be?"

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

un fresco múltiple y variable

"Se han esfumado las fronteras de la realidad, la vida es un laberinto de espejos encontrados y de imágenes torcidas.
Así es mi vida, un fresco múltiple y variable que sólo yo puedo descifrar y que me pertenece como un secreto. La mente selecciona, exagera, traiciona, los acontecimientos se esfuman, las personas se olvidan y al final sólo queda el trayecto del alma, esos escasos momentos de revelación del espíritu. No interesa lo que me pasó, sino las cicatrices que me marcan y distinguen."
Paula, de Isabel Allende