sexta-feira, 30 de novembro de 2012

mas tu não estás lá

Quadro de Edvard Munch, Three Stages of Woman (1894) http://www.edvardmunch.org/woman-in-three-stages.jsp

Se tu viesses. Gostava tanto de te ver. Em qualquer idade da vida, que em todas estarias certa com a minha necessidade de te amar. Na idade jovem do teu cabelo à garçonne, na tua idade azougada em que eras mais enérgica do que a vida, mulher eléctrica, quando eu ficava estoirado só de te ver. Ou mais tarde, à hora desta deusa Primavera que tenho aqui. Ou mesmo já no fim, quando te levava pela mão, já trôpega, atrapalhada com todas as peças de seres, e íamos almoçar ao restaurante em frente de casa. (...) 
Só eu conhecia o teu corpo, o percurso nele do meu prazer. Da tua beleza. É preciso um esforço, eu sei. É preciso uma atenção infinita para lhe descobrir o seu rasto. (...) 
Lavo o teu corpo mas tu não estás lá. Lembro-me. Outrora vinhas de dentro de ti e chegavas até ao limite dos dedos, das unhas, dos cabelos. Estavas em todo o teu corpo e eu reconhecia-te. Na pele, nos gestos. Nos olhos eléctricos, vivacíssimos. Mas agora está só o teu corpo sem ninguém que se responsabilize por ele.

Vergílio Ferreira, Em nome da terra, p.61, 115, 116

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

síntese do sono

 

O Sono  

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Se eu atravessar uma aldeia a cavalo, não há dúvida de que vou mais depressa, mas se for a pé vejo mais coisas e os meus amigos podem convidar-me a entrar na sua cabana. Raramente se ganha em chegar mais depressa ao fim da viagem. O Papalagui corre sempre para um determinado fim. A maior parte das suas máquinas destina-se a fazê-lo atingir mais depressa esse fim. E mal ele o atinge, logo parte com outro destino. O Papalagui leva, pois, toda a vida a correr até perder o fôlego, e cada vez mais se esquece do que é andar, passear, caminhar alegremente para um fim que virá ao nosso encontro sem que o tenhamos procurado.


O Papalagui, p.86