sexta-feira, 7 de agosto de 2015

ELA - AGORA

Ana Hatherly, o mar que se quebra (1998). © Ana Hatherly | Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian (aqui)


Não menos que Helena bela
Ela senta-se à janela
Porém não à janela mas às janelas
Do computador
Que abrem portas que são redes
Páginas que são sítios
Avenidas que são ermos
Que agora percorremos
Já sem voz
Cada vez mais sós

Tanta profusão
Atira-nos
Para um lixo que nos deita fora


"Hors-Texte" in A Neo-Penélope, &etc, Lisboa, 2007, p.33. 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

"Ama o Impossível porque é o único que te não pode decepcionar"

24 - Março (segunda). Dizem-me às vezes que sou inacessível à emoção - não é curioso? E que não gosto, sou incapaz de gostar, de ninguém. Imagine-se. Em todo o caso, não é fácil sabê-lo. Mas se é assim, a explicação não será difícil. Quando a vida nos habitua a desprendermo-nos dela, a firmarmos o pé em nada, vive-se obviamente no provisório. E se o que mais amamos falha sempre ou disso nos ameaça, o recurso é, para haver o que amar, amar-se o que como "ideal" nunca falha - a harmonia, a tolerância, a paz. Por mim e por sobre tudo, amo a vida, que é o onde acontece o que há-de amar-se ou não. Mas  que põe em causa as relações individuais não é de prender muito. Por desencanto prévio, pois. E por prudência. Pelo que for. Assim as surpresas não surpreendem. Ou quase.

Vergílio Ferreira (1981), Conta Corrente 1 (1969-1976), Livraria Bertrand, Amadora.