24 - Março (segunda). Dizem-me às vezes que sou inacessível à emoção - não é curioso? E que não gosto, sou incapaz de gostar, de ninguém. Imagine-se. Em todo o caso, não é fácil sabê-lo. Mas se é assim, a explicação não será difícil. Quando a vida nos habitua a desprendermo-nos dela, a firmarmos o pé em nada, vive-se obviamente no provisório. E se o que mais amamos falha sempre ou disso nos ameaça, o recurso é, para haver o que amar, amar-se o que como "ideal" nunca falha - a harmonia, a tolerância, a paz. Por mim e por sobre tudo, amo a vida, que é o onde acontece o que há-de amar-se ou não. Mas que põe em causa as relações individuais não é de prender muito. Por desencanto prévio, pois. E por prudência. Pelo que for. Assim as surpresas não surpreendem. Ou quase.
Vergílio Ferreira (1981), Conta Corrente 1 (1969-1976), Livraria Bertrand, Amadora.