Depois de ler a frase de Eduardo Galeano, deu-se aquela aparição pensante que fere como um relâmpago a rasgar o tronco de uma árvore e ilumina tudo em seu redor.
Os sentipensantes pensam e sentem sempre de uma vez, todas as vezes, não separam emoção de razão, nem o corpo da mente (e é isso possível? pergunto-me como sentipensante desde que me conheço, descoberto finalmente um belíssimo adjectivo para o que sempre me regeu).
Ser sentipensante é maravilhoso, é dar de alma e coração, mãos abertas, mas é sofrer com a rejeição de quem apenas racionaliza a vida e nos atira com frieza as suas decisões descartadas de amor e emoção.
Nós, os sentipensantes, viemos a este mundo para ser felizes, pelo menos eu vim, os meus pais não me deram a vida para não fazer dela o melhor que eu puder e isso passa por ser feliz, por me nutrir, por me dar o que mais amo e estar rodeada de pessoas que, como eu, sejam sentipensantes também e se valorizem e valorizem o seu quinhão de vida. A moira, essa porção de tempo que é dado a cada um de nós nesta vida para percorrermos o nosso caminho, não é para desperdiçar. Já o fatum não creio muito nele, o livre-arbítrio está acima dessa ideia de destino que deus(es) preconizaram para nós. E talvez eles me observem lá do Olimpo, e revirem os olhos e batam com a palma da mão na testa, frustrados com as minhas escolhas. Muito possível, e rio-me à gargalhada com essa ideia.
Os dias rolam, madrugada após madrugada. Nem tudo são rosas e o peso das escolhas começa a ferir os braços e as costas, já para não deixar de lado a frustração emocional de trabalhar num local onde há colegas que fazem questão de fazer bulliyng e me levam a mente e o corpo de volta à Ana pequenina da infância. Mas esta, à época, não sabia que o problema não estava nela e sim neles e não soube responder. Hoje sabe que aquelas manifestações são os problemas que as pessoas têm consigo próprias e que em nada retira o meu valor próprio, mas mói e causa mau ambiente.
E juntamos a isto trabalhar num local onde se pratica precisamente aquilo que é o contrário do que defendo. Sou pela medicina narrativa, o utente ser uma pessoa e não mais uma cama, um todo holístico, tido por inteiro. Ali não, entram utentes de 5 em 5 minutos, o relógio dominador a contar ao segundo, quase não tenho tempo de conversar, de os escutar, é trabalho em série, parece uma fábrica de produção em massa de tratamentos que, na rapidez e na indiferença, nada fazem.
Há calor humano, sim, e eu abraço-o, mas o tempo escorre-me das mãos, as campainhas tocam constantemente e até nos pesadelos me ferem os ouvidos, já ouvi resmungar e chamam-me à atenção com maus modos porque demoro muito com cada pessoa e nem dez minutos lhes posso dispensar.
Nasci para ajudar a cuidar o outro sim, mas não assim, não assim e, lá está, não consigo só racionalizar, a emoção está sempre presente, não consigo ver apenas como um biscate que me paga contas, estão em jogo pessoas doentes, com dores, seres humanos que merecem atenção e carinho.
Quanto tempo arcarei com isto às costas se não compactuo de alma e coração? Além da fadiga de corpo, há uma fadiga emocional, uma ferida que abre a cada dia mais, pela frustração e o stress perante a injustiça.
oh, ser sentipensante é todo um mundo!