sábado, 21 de novembro de 2020

Remembering

The Promise, Tracy Chapman 


Où est-tu maintenant?

Tu penses à moi quand tu t'endors?

Je t'imagine toujours à ma droite, en me souriant doucement "Tu veux venir à ta place?"

Tu es dans ma mémoire quotidienne, ton odeur en moi, je veux t' embrasser et rêver que je ne t'ai jamais perdu

sábado, 24 de outubro de 2020

domingo, 30 de agosto de 2020

"o tempo de Deus não é o nosso, entendeu?"

Não sei ser Eva, só Eva. E mesmo assim, Eva comeu a maçã por amor ao conhecimento e convenceu Adão então a experimentar também... Mas não chega, ele não viu a luz positiva do saber. Condenada desde tempos imemoriais, deixou-se estar ao lado de Adão, que igualmente a culpou. Mulher.
Não sei ser só Juno, embora enraíze em mim a estrutura da partilha dual.
Não sei ser só uma coisa.
Não sei esperar que me digam o que fazer, como fazer.
Não sei.
Iluminar as sombras é surpreendente e, ao mesmo tempo, assustador; mudar de pele ao longo do crescimento vital é um processo transformador e doloroso, mas necessário.
"Nós iluminamo-nos nas sombras" e a idealização e admiração mútuas são belas, mas se não nos pusermos na pele um do outro, se não procurarmos ver o mundo, de quando em vez, pelo olhar do outro, o nevoeiro cinza manter-se-á.
Porque um aguenta o relâmpago, o outro não.
Dói como estalo a trovoada que se gera, o silêncio da escuridão parece mais fácil do que gritar na luz.
Nós somos dois signos cardinais, dois galos em teimosia a ver quem mais tempo se aguenta no poleiro e que, ao mesmo tempo, se dão as mãos para o outro não cair.
Simplesmente eu quero correr, sair da escuridão, arrancar-te dela e sei que saberei acompanhar-te na libertação ao encontro do teu eu, e tu pareces querer embrenhar-te mais um pouco na sombra de sempre, na zona de conforto.
Esperar.
Oh, tenho a minha lua negra tão exaltada, a minha fera Lilith a escorrer espuma das fauces turbulentas. Todas nós a temos, mas a minha Lilith cresceu, agigantou-se no desamor dos últimos anos, nos gritos e nas trevas nebulosas negras em que me deixei enredar. Mas Lilith tem o lado não-submisso que mesmo na luz guardarei.
Lilith abandonou Adão. ai não! virar costas e partir, dizer não à submissão.
Quando penso em Lilith, penso nas Sílfides dos Ballet Russes, criaturas da noite, aladas, que dançavam e associadas a demónios; e penso na dicotomia Odette/Odile do Lago dos Cisnes. E
E ela tem de existir para atingir o equilíbrio, só não deveria estar tão explosiva.
Curiosamente, a minha Lilith toca o teu Sol, é poderosa essa união, mas para caminharmos em harmonia devo saber lamber as minhas feridas ancestrais que oh! estão ainda em chaga.
I see you
I acknowledge you
I free you
Luto e caio e levanto-me e luto e caio e levanto-me.
E nessa varanda estrelada, uma deliciosa criatura, uma árvore de belas raízes disse-me: "filha, o tempo de Deus não é o nosso, entendeu?" Sorri, "não entendi, não", nem tinha como pois não tenho essa chama em mim. "A gente luta sempre, querida, mas só quando Deus quer é que surge". Mas é só chamar-lhe outro nome então (e Shakespeare não nos diz que a rose by any other name would smell as sweet?): quando os planetas se alinham (?), quando o eu está enfim preparado (?), quando o Universo se abre (?), não é quando a mente quer forçando-se a si e ao corpo porque no fundo, o tempo de Deus é quando tudo flui. Não importa o que lhe chamemos se designamos o mesmo e aqui o olhar mútuo poderá enfim compreender-se em plenitude.
Há anos que as palavras de Pablo Neruda se me incrustraram na pele:
"Si nada nos salva de la muerte, al menos que el amor nos salve de la vida".
E vou crendo n'Ele, no Amor. Porque Ele é Amor, não é assim?
Nem poderia ser algo diferente.
E o amor une. E mergulhar no teu peito é ser... é estar em casa.


"En un beso, sabrás todo lo que he callado".

Fotografia de Carlos Gomes

terça-feira, 30 de junho de 2020

a lucidez dói tanto no rebate de uma raquete


Apolíneo e Dionisíaco

a dicotomia complexa de lidar no dia a dia.
Ter força interior e ela não sair. Alguém que me enxovalhou há demasiado pouco tempo disse que eu me contradizia. Cá está.
Acumula-se a raiva nos dentes, a tensão no pescoço e nos trapézios exacerba-se sempre.
Diónisos canta e bebe o vinho alegre ou transforma-se numa tempestade e leva tudo à sua frente. não se deixa pisar, que deus o faria na sua condição superior?
Apolo é a luz e tenho dias luminosos, em que vejo o Belo e o Bem, o Correcto, a Lealdade, o Amor, outros em que me afundo na escuridão, no meu ser ébrio e embrulhado nas trevas dos meus pensamentos. E está tudo bem, ambos são necessários, concomitantes, tangentes, são o par de dança mais completo.
Sou teimosa, digo.
Não, não és - diz a formadora com aquele tom de voz doce - ou, se és, não demonstras. Fazes as coisas de forma subtil com receio de erguer a tua voz. Posso pedir-te um favor? Pega numa raquete, escolhe à vontade.
Escolhi a maior e mais brilhante, prateada, era a de ténis. As minhas colegas que testemunharam ficaram incrédulas. Pois que gestos fiz eu? Como uma dança, movimentos amplos e suaves, mais o lado direito do que o esquerdo. Procurou-se equilibrar depois os dois lados, o formigueiro das mãos atenuou-se.
O meu olhar meio disperso. Dancei a dança das penas do badminton, como uma borboleta, "leve breve suave", Fernando Pessoa não diria melhor. Vamos, "dança a dança da manhã de hoje", parece que ouço o Poeta a falar comigo, já não com a Fada Oriana. Ninguém percebeu por que raio não atirei com força e por que não se sentiu o vento enquanto eu rebatia a bola imaginária. Porque não era feito com força e sim com suavidade, inaudível, pé ante pé, na leveza dos dias para evitar ser criticada. É esta então a minha dicotomia? Quero dizer o que penso e não sai cá para fora? Escolho a raquete de ténis, maior e com a qual devo fazer gestos mais assertivos, que atinjam o chão e marquem pontos e pego nela e manejo-a como uma raquete de badminton que atinge o volante para o manter sempre no ar sem atingir ninguém?

Oh, tantas vezes ela dizia, tantas vezes ela me disse, canta, que lo tienes ahí todo y tiene que salir. Não consigo cantar, porque me sei inferior no canto, porque sei que desafino, ao contrário de outros elementos da família que cantam, eu não o sei fazer. Mas eu sei que a voz já sai, ainda que seja apenas sob a forma de um suspiro saudoso, em memória das canções que ficaram por entoar.

Quando ferida, sai nas sombras da noite com uma força quase prepotente, dionisíaca, obscura, arreganha a dentuça face ao medo e ao futuro incerto. E não é ele sempre incerto? Parece alicerçar o quotidiano num sorriso matreiro, tal como o deus Diónisos que engana os marinheiros para depois lhes ofertar as mais belas vinhas.
Sei que consigo chegar à luz apolínea, já lá estive e ela está em mim, mas está soterrada no lodo. Não me digam o que fazer, não me acusem de mentiras. 
Outra vez, outra vez... Bateste no fundo de novo.
Recomeça se puderes, mas desta vez sob angústia e alguma pressa. Ohh Torga... "Só é tua a loucura", sempre, e a lucidez dói tanto.


terça-feira, 9 de junho de 2020

do amor próprio e do carácter

Lauryn Hill - Tell Him (Audio)

mistérios da fé são como os mistérios do amor.
não se explicam, não se racionalizam. são. estão.
ou não

E nunca

Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia, agiota, fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar



Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Das bagagens

Há bagagem que devíamos deitar fora. Malas e malinhas e bolsinhas e saquinhos que trazemos constantemente connosco.
Por que transportamos tanta bagagem, de viagem em viagem, se já não precisamos dela, se pode até ser-nos prejudicial? 

Se levámos para a neve o fato de ski, as meias de lã e as camisolas térmicas, se calhar para uma praia e destino paradisíaco não temos necessidade. Se sofremos picadas de melgas em Cabo Verde, agora andaremos sempre com a bisnaga de Fenistil atrás? Se fomos assaltados em Berlim, andaremos com medo em Madrid? Se tivémos a sorte de ir a banhos em Valência em Outubro, se calhar não iremos nos Alpes em Fevereiro. Se perdemos, meios bêbedos, a carteira, nas ruas de Barcelona, decerto não voltará a acontecer em Paris. Nem sempre, na nova viagem, se repetem coisas boas que já vivemos noutras, mas conhecemos seguramente outras, melhores até. Porém, o mais importante é não temer que aconteçam de novo coisas desagradáveis e ainda assim, há sempre aquela bagagem que permanece e que não nos conseguimos livrar dela, porque nos marcou dolorosamente, mais do que uma tatuagem.
E quando não viajamos sozinhos e os companheiros de caminho também trazem as suas bagagens?
E em cada nova viagem, as viagens anteriores estão lá para nos fazer lembrar o que sucedeu, para nos pôr de pé atrás?

Aprendemos, pois, que a bagagem de viagens anteriores, por vezes, é perfeitamente desnecessária e, todavia, recordamo-nos constantemente das peripécias dessas viagens e aí reside precisamente o problema: não as podemos alterar, mas o medo de que nos torne a suceder o mesmo premedita a nossa acção, condiciona o nosso sorriso e mesmo quando viajamos com os dedos ainda no mapa (romantismos dos anos 80, vá, agora é tudo google maps!), já levamos a pesada bagagem ainda antes de partirmos e nem sempre conseguimos comprimi-la naqueles sacos de vácuo, para que ocupe menos espaço: um casaco com enchumaços que pesou imensamente nos ombros, um cachecol imenso e negro que nos sufocou de angústia, um vestido que esvoaçou e nos envergonhou, uma saia que se rasgou com um prego cravado e nos feriu, uma carteira que se perdeu e que por lá ficou juntamente com um pouco da nossa dignidade e, com tudo isto, para embrulhar com laçarotes bem brilhantes e visíveis toda esta trouxa, pesa o medo, oh o medo, da bagagem se desprender, se soltar e nos cair em cima de novo.

Mas se temos uma viagem nova, que nos foi dada num cupão de oferta, que caiu de surpresa e a não premeditámos sequer, não há que fazer mais senão sermos nós, pegarmos na nossa roupa preferida ou, como numa praia de nudistas, irmos apenas nós na nossa pele e essência, no improviso do eu e sem guiões de outras viagens, sem os eternos "e se?". É indo e vendo. 
Podemos perguntar na fonte, sim, o que podemos visitar, as lendas do local, as personagens históricas, as melhores iguarias para provar mas, de resto, é para usufruir da paisagem, do sabor, dos cheiros, deixarmo-nos apaixonar pelo que nos envolve, pois há viagens que não têm bilhete de retorno e há caminhos que se desejam percorrer várias vezes ou nunca deixar de neles caminhar, porque como diz Miguel Torga, "o que importa é partir, não é chegar".



Natal na Praia do Pedrógão, 24 de Dezembro de 2019

Por isso, se ainda não embarcámos, é tempo de o fazer, e talvez sejamos capazes de despir esse manto pesado e deixá-lo no cais, essa bagagem que não temos de carregar mais às costas. Se já estamos no ar, como nos balões, atiremos para fora do cesto, aos poucos, para aliviar a carga, uma malinha, um pacote, um saquinho de cada vez. Resta a memória e essa já é pesada que chegue, não precisamos de mais e o balão tem de subir e de ser cada vez mais leve. 

Ou vamos entrar no mar alto, lá onde não temos pé, onde cada vez mais longe ficou a fímbria da praia e onde o horizonte se aproxima a cada remada. 
Vamos. Temos medo? Mas vamos com medo na mesma, e que a bagagem das viagens anteriores se desintegre na espuma das ondas.



Viagem, de Miguel Torga

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
procurar
o velho paraíso
que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.


quinta-feira, 7 de maio de 2020

Dos Pesadelos II

visitei-te e o passado estava contigo. abriste-lhe a porta e o silêncio bloqueou-te a garganta que chamava por mim. que força obscura me levou a percorrer a distância até à tua porta para me ver confrontada com o que não se deseja olhar e ver? voltei para o meu ninho e o meu passado tinha pontapeado a porta até a arrombar. penduradas em fios de nylon, fotografias a preto e branco de momentos falsamente felizes pingavam do tecto. no silêncio ensurdecedor, só ouvia o seu riso assustadoramente rouco. acordei molhada em suor na manhã da 8ª semana de confinamento, ou 1ª semana de desconfinamento ou já não sei quando estamos.

sábado, 18 de abril de 2020

Dos pesadelos

Voltavas a casa.
Não... não era um voltar, era um invadir.
Tinhas uma chave escondida e entravas.
Acordei e a casa era outra, uma tenda com plantas na sala, tudo espalhado em todas as divisões e tu eras enorme e sombrio e rias repetindo a frase "vai ficar tudo bem". 
Tentavas abraçar-me com uns braços elásticos e enormes e eu não queria acreditar que o meu mundo ruíra de novo.
Escrevi uma carta a quem gostava para que não viesse visitar-me e tudo à minha volta era como o Castelo negro da Bela Adormecida, um dragão a guardar-me e a fazer rebentar árvores com espinhos a toda a volta da casa, apertando-me e sufocando-me até às lágrimas, impedindo-me de ser eu.
Acordo e o sol brilha na manhã da 5ª semana de confinamento.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

eu te carreguei ao colo, nos meus braços

Ao meu irmão Roberto, que me mostrou a mais linda imagem bíblica, o maior abraço do mundo
(Liceu Dona Maria, Coimbra, 2002)



Pegadas na Areia
Uma noite eu tive um sonho...
Sonhei que caminhava na
praia com o Senhor e, através do
Céu, passavam cenas de minha vida.
Para cada cena que passava, percebi
que eram deixadas dois pares de
pegadas na areia; um era o meu e o
outro do Senhor.
Quando a última cena de minha vida
passou diante de nós, olhei para trás,
para as pegadas na areia e notei que
muitas vezes no caminho da minha vida
havia apenas um par de pegadas na areia.
Observei também que isso aconteceu nos
momentos mais difíceis e angustiosos
da minha vida. Isso aborreceu-me deveras,
e perguntei então ao Senhor:
"Senhor, Tu me disseste que, uma vez que
eu resolvi seguir-Te, Tu andarias sempre
comigo, todo o caminho, mas notei que
durante as maiores atribulações do meu
viver havia na areia dos caminhos da
vida apenas um par de pegadas!
Não compreendo por que nas horas
em que eu mais necessitava de Ti,
Tu me deixaste".
O Senhor respondeu:
Meu irmão, Eu amo-te e jamais
te deixaria nas horas da tua prova e
do teu sofrimento.
Quando viste na areia apenas um par
de pegadas, foi exatamente aí que
eu te carreguei ao colo, nos meus braços."

 

Independentemente de como construímos a nossa espiritualidade, o que mais importa é seguirmos o que sentimos como nosso, o que vem das entranhas, em que cremos com todos os nossos sentidos. Eu acredito no Amor, que move montanhas, no Homem e nas maravilhas que é capaz de fazer, transcendendo-se, na Natureza que sempre se renova e na força interior que me faz querer ser mais do que ontem e menos do que amanhã porque o meu caminho na praia da vida é evolutivo, em direcção ao horizonte e ao mistério que o mar e o futuro me trazem.

 

 

domingo, 12 de abril de 2020

Morrer, mas por inteiro



"Essa coisa de ressuscitar ao terceiro dia, mesmo que fosse ao terceiro do terceiro - palhaçadas, não. Morrer, mas por inteiro."


Ferreira, V. Nítido Nulo (1971)

sexta-feira, 10 de abril de 2020

They dance around us in the darkness

Sigmund Freud


“Most people do not really want freedom, because freedom involves responsibility, and most people are frightened of responsibility.”
Civilization and Its Discontents


“Religious doctrines … are all illusions, they do not admit of proof, and no one can be compelled to consider them as true or to believe in them.”
The Future of an Illusion


“Words have a magical power. They can bring either the greatest happiness or deepest despair; they can transfer knowledge from teacher to student; words enable the orator to sway his audience and dictate its decisions. Words are capable of arousing the strongest emotions and prompting all men's actions.”
The Educator's Book of Quotes


Da série da NetFlix




I am a house.
It is dark in me.
My consciousness is a lonely light.
A candle in the wind.
Sometimes here, sometimes there.
It’s flickering.
Everything else is in the unconscious.
Everything else is in the shade.
Niches, hallways, staircases and doors.
But they are there.
the other rooms.
And anything that lives within you and wanders within you…
At any time.
It is there.
It Works and lives.
Within the house is me.
Forbidden thoughts.
Instinct, eros and taboos.
They dance around us in the darkness.
Forbidden desires.
Memories we don’t want to see in the light.
That we displaced from the light.
They make us hysteric.
They torment and poke us.
They haunt and whisper.
They make us sick.
They scare us.

variações em dó menor

Ao FB

Je me rappelle trop bien de ce printemps là. Confinée à la maison, les masques sont tombées et la vérité nous a complètement séparés.
J'ai du alors vivre sans sentir ton corps, ton odeur auprès de moi, j'ai du effacer tous les plans.
Il me fallait immédiatement t'oublier.
L'amour ne t'avait pas visité ces nuits là? N'avait t'il pas murmuré avec ses douces lèvres mon nom à ton oreille? Alors... tant pis, tu devrais aussi m' oublier, moi, mon sourire, mon corps dans tes mains, mon sommeil enveloppé au tiens pendant les nuits plus profondes et les rêves presque surréalistes.
Je me suis trompée. J'ai dis que je ne pourrais jamais tomber amoureuse et stupidement, puérilement, la loupe solitaire est tombée par quelqu'un qui dormait dans sa tranquille beauté, suivant sa respiration calme.
Tu n'es pas une loupe solitaire, je me dis au miroir, mais quand-même tu es une loupe.
Tu deviens la loupe du chemin qui la vie te soumets. ou la loupe-mère, copieuse, consciente et chef de meute ou la loupe vigilante et voleuse qui est toujours seule.
Voilà qu'elle vient à nouveau, solitaire, complètement blessée mais elle se lève et elle suit son chemin.

ERES TU ( Mocedades - Festival de la canción Eurovision 1973)

Leituras de Confinamento


Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

                           Luís de Camões

segunda-feira, 23 de março de 2020

Ta maison est là où est ton coeur

Personne n’appartient pas à personne. Nous nous accompagnons mutuellement si nous voulons.
Les questions de l’âme féminine ne peuvent pas être traitées comme si nous essayons de l’esculpir d'une forme plus adéquate à une culture inconsciente. Femme Sauvage, ouvrir des nouvelles portes, rien important que sa claire compréhension de l’idée et de l’archétype, du nom Femme et de l’adjectif Sauvage, intuitivement. Quand on écoute ces deux mots, rapidement on se connecte et se relacione.  

Il y a des choses qui se comprennent mutuellement, des personnes qui se relient, âmes et corps, et des êtres qui partagent des énergies que tout simplement écoulent.
Et c'est pour cela que nous ne devons pas dire mes amies, ma copine, mon mec mais, en vérité, les amis qui m'accompagnent, la fille qui m'accompagne, l'homme qui m'accompagne.
Nous ne sommes pas proprieté de personne et les chemins de la vie on les fait jamais seuls.



quarta-feira, 18 de março de 2020

sur l'éternelle force de l'amour

Ao J





Dagen går mot kveld, er borte, blir snart glemt

Men alt vi gav den står igjen, et frø som gror og vokser

frem

Slik er kjærlighetens vei når den møter deg og meg
Først når vi lærer og forstår, vil den modnes og bli
vår

Selv om dagene går, de svinner hen og blir til år
Alltid vil kjærlighet bestå i tid og evighet
I evighet

Elven renner stille hen over sletter, skog og eng
Men på sin vei får å nå frem, gikk den over stryk og
stein

Selv om dagene går, de svinner hen og blir til år
Alltid vil kjærlighet bestå i tid og evighet
I evighet

Selv om dagene går, de svinner hen og blir til år
Alltid vil kjærlighet bestå i tid og evighet
I evighet

Alltid vil kjærlighet bestå i tid og evighet

I evighet

domingo, 15 de março de 2020

Existe tudo mais que ainda me escapa

NO TEU POEMA
No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida.
No teu poema
Existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E aberta, uma varanda para o mundo.
*
Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva, a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
*
No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.
No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano.
*
Existe a noite
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra e um só destino a embarcar
O cais da nova nau das descobertas.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco, ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
*
No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo mais que ainda me escapa
E um verso em branco à espera... do futuro.

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS, in AS PALAVRAS DAS CANÇÕES (Ed. Avante, 1989)

segunda-feira, 9 de março de 2020

Com as palavras brinca-se

trágico ou do trágico

"O coração como símbolo do amor e a cabeça como símbolo do saber são as causas desse duplo assassinato, em que se alegoriza o percurso do mito do amor na literatura portuguesa, desmistificando o que nele permanece velado, que é a impossibilidade de dois se fazer um. Amante e amado não podem complementar um ao outro, porque o que falta ao amante não é o que o amado tem para oferecer. É na falta constitutiva da subjectividade de todo o ser humano que está a origem do amor. Negar isso, no caso da Discípula, ou rir disso,  no caso do Mestre, como nos avisa o narrador, 'resulta trágico ou do trágico'."
Ana Hatherly, O Mestre, babel, Ulisseia, pp.56-57.

quinta-feira, 5 de março de 2020

"O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou" V.F. in Escrever

ἀγνῶθ' ὅμιλον, ὡς ἐλέγχεται χρόνῳ

Só o tempo permite que gente estranha seja apreciada.

As Suplicantes de Ésquilo, v. 995, tradução de Carlos Jesus

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

o silêncio é que sim

A Voz do Silêncio

"A pessoa que sou é única, limitada a um nascer e a um morrer, presente a si mesma e que só à sua face é verdadeira, é autêntica, decide em verdade a autenticidade de tudo quanto realizar. Assim a sua solidão, que persiste sempre talvez como pano de fundo em toda a comunicação, em toda a comunhão, não é 'isolamento'. Porque o isolamento implica um corte com os outros; a solidão implica apenas que toda a voz que a exprima não é puramente uma voz da rua, mas uma voz que ressoa no silêncio final, uma voz que fala do mais fundo de si, que está certa entre os homens como em face do homem só. O isolamento corta com os homens: a solidão não corta com o homem. A voz da solidão difere da voz fácil da fraternidade fácil em ser mais profunda e em estar prevenida."

Vergílio Ferreira, in 'Espaço do Invisível I'

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

apenas escrevo


Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Paulo Leminski

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

e um gosto que não sei de mar e mel

De ti só quero o cheiro dos lilases
e a sedução das coisas que não dizes
De ti só quero os gestos que não fazes
e a tua voz de sombras e matizes

De ti só quero o riso que não ouço
quando não digo os versos que compus
De ti só quero a veia do pescoço
vampira que já sou da tua luz

De ti só quero as rosas amarelas
que há nos teus olhos cor das ventanias
De ti só quero um sopro nas janelas
da casa abandonada dos meus dias

De ti só quero o eco do teu nome
e um gosto que não sei de mar e mel
De ti só quero o pão da minha fome
mendiga que já sou da tua pele.

Rosa Lobato Faria, in Memória do Corpo (Textual Ed, 1993), in A Noite inteira já não chega - Poesia 1983-2010 (Guimarães, 2012)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Prends garde à toi

À mon cher frère


À l'aube rose et pluvieuse, mon frère m'a demandé:
As tu peur de revenir à aimer quelqu'un?

Non - j'ai répondu - mais je sais que je ne vais aimer personne. J'ai perdu la confiance, je ne crois pas à un seul amour, je ne peux pas croire que les personnes ne vivent que sous des mensonges.
J'ai tout perdu sauf que, à la fin, je resterai toujours libre.


domingo, 9 de fevereiro de 2020

círculo

"ANA
é outro nome diz 
o nome Ana 
ensinando a ler alguém fico à espera de aprender 
Ana eu queria ir ao interior Ana eu queria ir 
Ana eu queria ir ao interior Ana eu queria ir 
Pra saber, pra saber finalmente"

 (Letra de Guta Naki)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Gira, a entreter a razão



AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa, Ortónimo



domingo, 2 de fevereiro de 2020

Buscar a temperança

Diluir vinho com água. Buscar a temperança nas próprias emoções.
Na selva e catadupa de sentimentos em avalanche que foram estes tempos, não olvidar nunca o essencial de si mesmo.





TASH SULTANA - JUNGLE

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

apunhalar o silêncio

Ser uma tempestade e ser uma confusão.
Ser a noite obscura que conduz à dúvida.
Ser uma película de terror psicológico.
Questionar tudo, os alicerces, as estruturas.
Fazer o mundo duvidar, porque se toma o mundo e ele nos toma a nós.
Porque se abarca o mundo em si mesmo e o mundo é devorado.
Mas chega. De novo, deixar de ser quem se é foi o limite.
Enviar uma carta sob uma personagem que não corresponde à verdade é trair-se a si mesmo.
Odiar jogos entre pessoas e ser conivente? Basta.
Se nunca se usou máscara a não ser em palco e na pista de dança, não será agora. 
À parte isso, ser-se sempre transparente foi a essência crescente com a pessoa que se é.
Sinto tudo mas não sei tudo.
Se magoa? Sim, mas a mentira é lodo sufocante, ao passo que a verdade clareia, limpa como uma chuvada arrasta na corrente o remanescente que já não importa. Cheira a terra molhada. Acabou.

Não compactuar com nada mais e desaparecer, apunhalar o silêncio. 
Ser-se tão mais do que tudo isto.

The Magic Flute – Queen of the Night aria (Mozart; Diana Damrau, The Royal Opera)

Dos despertares esperançosos do futuro

Ao FB

Despertar

É um pássaro, é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave, água no mar.

Eugénio de Andrade, in “Coração do Dia”

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

O que sucede dentro de ti?



Photo by Carlos Gomes, sessão 2 de Janeiro 2020


Que sucede dentro de ti?
Que vês e sentes?
Quando te despojas de tudo,
do que te ensinaram,
da educação que te impuseram,
das barreiras da sociedade,
daquilo que tu mesma tomaste como pensamento teu,
o que resta?
a essência
o eu
a descoberta do eu profundo
quando escavas o corpo
e deixas de respirar à superfície
encontras por fim a pessoa que te habita
o que ressoa então em ti?
o que resta quando te despes da própria pele?
a essência
o que te move.

dança.
move-te.
segue.


domingo, 26 de janeiro de 2020

Tem de doer, se não doer como é que sabemos que estamos vivos?


Ao B

Florbela Espanca (Dalila Carmo), série em três episódios, de Vicente Alves do Ó.

"- Escreve!
- Não posso!
- Podes!
- Como é que eu posso escrever. Eu não sei nada e tu levaste-me tudo!
- Os mortos não levam nada...
- Mas dói tanto...
- Tem de doer, se não doer como é que sabemos que estamos vivos?"

"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!"
Florbela Espanca Cartas a Guido Battelli.


domingo, 19 de janeiro de 2020

(Não) Seja feita a tua vontade

"... quando Blimunda se virou para ele, os olhos agora escuros, e de repente uma luz verde passando, que importavam agora os segredos, melhor seria tornar a aprender o que já sabia, o corpo de Blimunda, ficará para outra ocasião, porque esta mulher, tendo prometido, vai cumprir, e diz, Lembras-te da primeira vez que dormiste comigo, teres dito que te olhei por dentro, Lembro-me, Não sabias o que estavas a dizer nem soubeste o que estavas a ouvir quando te disse que nunca te olharia por dentro (...) Eu posso olhar por dentro das pessoas (...) Estás a mangar comigo, ninguém pode olhar por dentro das pessoas, Eu posso, Não acredito, Primeiro quiseste saber, não descansavas enquanto não soubesses, agora já sabes e dizes que não acreditas, antes assim, (...) Eu só vejo o que está no mundo, não vejo o que é fora dele, céu ou inferno, não digo rezas, não faço passes de mão, só vejo (...) Que poder é esse teu (...) quem me dera que o não tivesse, Porquê, Porque o que a pele esconde nunca é bom de ver-se (...) E como hei-de eu acreditar que tudo isso é verdade, se tu vais explicando coisas que eu não posso ver com os meus olhos (...) mordem-me os olhos, pela salvação da tua alma te peço, Baltasar, leva-me para casa, dá-me de comer, e deita-te comigo, porque aqui adiante de ti não te posso ver, e eu não te quero ver por dentro, só quero olhar para ti, cara escura e barbada, olhos cansados, boca que é tão triste, mesmo quando estás deitado ao meu lado e me queres, leva-me para casa, que eu irei atrás de ti, mas com os olhos baixos, porque uma vez jurei que nunca te veria por dentro, e assim será, castigada seja eu se alguma vez o fizer."
José Saramago, Memorial do Convento


A atracção pelo abismo é enorme.
É como quando tínhamos pesadelos e caíamos da cama como se se tratasse de um precipício, imaginarmo-nos a ser engolido por labaredas ou um avião cair.
A atracção pelo abismo é enorme, ainda mais quando a(s) vontade(s) te assola(m).
"Ainda mais quando vês por dentro e és a Blimunda do século XXI", como me chamou a Marisa de doce sorriso há umas semanas atrás.
E nem preciso de estar em jejum para ouvir, ver, sentir, a alma compreender que há algo, uma mentira, um segredo, uma dor, um sentimento enterrado algures. Mesmo que jurasse nunca ver ninguém por dentro, nunca "ler", andaria então com uma venda, ou cegaria intencionalmente os olhos como Édipo e vaguearia para sempre sem este dom. E será um dom? Poder-se-á chamar dom quando olhamos e vemos o outro e conhecemos o seu ser e não podemos ajudar quem não quer ser ajudado? A dor que o ler me traz é atroz, seguir caminho quando já nada se pode fazer destrói um pouco do meu eu que se deu. Porque estou e estarei sempre de passagem nas vidas de quem me rodeia, capto, como Blimunda, as suas vontades, tenho para dar o meu eu único, mas esta unicidade acarreta uma dimensão intensa que me é inata e, por isso, sigo sempre.
Fico, permaneço quando sinto que recebo, nunca na mesma proporção, mas vou ficando até à exaustão, até não poder ser mais eu. Um ser humano maravilhoso de abraço meigo e amigo disse-me há tempos que um dia encontrarei alguém com a mesma energia, que aguente a descarga electrizante que eu não consigo deixar de ser, que acompanhe o curso energético e pulsante que me corre nas veias, o âmbar alquímico da minha sexualidade e a potência criativa que impera canalizar-se, jorrar para algum lado.
É fatigante, exaustivo, mas acima de tudo, único e brutalmente intenso viver tudo assim, com conexões profundas, mas assim sou eu e não faria o meu caminho de outra forma.
Estou de passagem, rodeada de amigos sim, mas de passagem no amor, sem criar raízes, infelizmente sem deixar descendência, sem quase olhar para trás, apesar do amor que transborda de mim. Passarei e sigo sempre, recolhendo vontades para voar na passarola que, no fundo, sou eu, voarei sozinha, loba solitária que corre, tendo por missão recolher as vontades e prepará-las para o seu próprio futuro, serem independentes para o dia em que eu partir, e recolho as vontades que não sobem para as estrelas, se à terra pertencem e a mim.

À procura do vento: Portomar / Tanto Mar

Ao F


"-Tu nunca choras, pois não? O mundo só é real quando um homem chora.
É preciso ter cuidado com a tristeza... ela fecunda a própria alma, expande-se como a própria vida, torna-se o próprio nome ... Al Berto".

As palavras são proferidas pela prostituta que conhece Al Berto na rua, enoveladas no fumo do cigarro no mistério da noite. Assim abre o filme de Vicente Alves do Ó, que homenageia e procura trabalhar a ideia de liberdade do que é amar alguém sem medos, amar uma pessoa pelo que ela é, independentemente do seu sexo, retratando o choque de mentalidades que se fez sentir na Sines de pescadores que não estava preparada para conhecer Al Berto.


A fotografia do filme é irremediavelmente bela e prende-nos, quase nos fazendo esquecer a incredulidade sentida perante certos diálogos desconexos.

Al Berto é livre, independente, senhor de si mesmo.

"A porta estava aberta", diz João Maria na penumbra da entrada majestosa da mansão Pidwell.
Olham-se num confronto amoroso, observando-se intensamente.
"A porta está sempre aberta", remata Al Berto.

O amor berrado do cimo dos ramos de uma árvore, a sorrir com a alma:

"Preciso do teu corpo todos os dias
Se pousasses na minha mão
Saberias que fechada seria casa e aberta seria céu"








"Vive em cada minuto a tua eternidade
sem luto nem saudade
vive-a
plena e forte
num frenesim de arremesso
para que a tua morte seja sempre um fim e nunca um começo."

https://www.comunidadeculturaearte.com/rtp1-exibe-filme-biografico-do-poeta-al-berto/

sábado, 11 de janeiro de 2020

trinta e cinco and counting

DIA DE ANOS

Com que então caiu na asneira
De fazer [no sábado]
[Trinta e cinco anos]! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal: porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa: que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois que se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Aqui sou eu em tudo quanto amei

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
(Sophia De Mello Breyner Andresen)

o teu rosto

À Avó Rosária



o teu rosto


É o teu rosto ainda que eu procuro
Através do terror e da distância
Para a reconstrução de um mundo puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen | "No mar novo", 1958

vamos allí donde no espera nada

Photo by Carlos Gomes, 2 de Janeiro 2020

Soneto IV
Recordarás aquella quebrada caprichosa
a donde los aromas palpitantes treparon,
de cuando en cuando un pájaro vestido
con agua y lentitud: traje de invierno.
Recordarás los dones de la tierra:
irascible fragancia, barro de oro,
hierbas del matorral, locas raíces,
sortílegas espinas como espadas.
Recordarás el ramo que trajiste,
ramo de sombra y agua con silencio,
ramo como una piedra con espuma.
Y aquella vez fue como nunca y siempre:
vamos allí donde no espera nada
y hallamos todo lo que está esperando.
Em Cien Sonetos de Amor, Pablo Neruda, Editorial Losada S.A., Buenos Aires (AR), 7ª edição,1972, pág. 14.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

no sé amar, la última novedad


Soneto XVII – La Danza (Pablo Neruda)

Soneto XVII – La Danza
(Pablo Neruda)

No te amo como si fueras rosa de sal, topacio
o flecha de claveles que propagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y el alma.

Te amo como la planta que no florece y lleva
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendió de la tierra.

Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
así te amo porque no sé amar de otra manera,

sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.

En Cien Sonetos de Amor/ Pablo Neruda, Editorial Losada S.A.,
Buenos Aires (AR), 7ª edição,1972, pág. 27.


Photo by Carlos Gomes, 2 de Janeiro 2020