Não sei ser Eva, só Eva. E mesmo assim, Eva comeu a maçã por amor ao conhecimento e convenceu Adão então a experimentar também... Mas não chega, ele não viu a luz positiva do saber. Condenada desde tempos imemoriais, deixou-se estar ao lado de Adão, que igualmente a culpou. Mulher.
Não sei ser só Juno, embora enraíze em mim a estrutura da partilha dual.
Não sei ser só uma coisa.
Não sei esperar que me digam o que fazer, como fazer.
Não sei.
Iluminar as sombras é surpreendente e, ao mesmo tempo, assustador; mudar de pele ao longo do crescimento vital é um processo transformador e doloroso, mas necessário.
"Nós iluminamo-nos nas sombras" e a idealização e admiração mútuas são belas, mas se não nos pusermos na pele um do outro, se não procurarmos ver o mundo, de quando em vez, pelo olhar do outro, o nevoeiro cinza manter-se-á.
Porque um aguenta o relâmpago, o outro não.
Dói como estalo a trovoada que se gera, o silêncio da escuridão parece mais fácil do que gritar na luz.
Nós somos dois signos cardinais, dois galos em teimosia a ver quem mais tempo se aguenta no poleiro e que, ao
mesmo tempo, se dão as mãos para o outro não cair.
Simplesmente eu quero correr, sair
da escuridão, arrancar-te dela e sei que saberei acompanhar-te na libertação ao encontro do teu
eu, e tu pareces querer embrenhar-te mais um
pouco na sombra de sempre, na zona de conforto.
Esperar.
Oh, tenho a minha lua negra tão exaltada, a minha fera Lilith a
escorrer espuma das fauces turbulentas. Todas nós a temos, mas a minha
Lilith cresceu, agigantou-se no desamor dos últimos anos, nos gritos e
nas trevas nebulosas negras em que me deixei enredar. Mas Lilith tem o
lado não-submisso que mesmo na luz guardarei.
Lilith abandonou Adão. ai não! virar costas e partir, dizer não à submissão.
Quando penso em Lilith, penso nas
Sílfides dos Ballet Russes, criaturas da noite, aladas, que dançavam e
associadas a demónios; e penso na dicotomia Odette/Odile do Lago dos
Cisnes. E
E ela tem de existir para atingir o equilíbrio, só não deveria estar tão explosiva.
Curiosamente, a minha Lilith toca o teu Sol, é poderosa essa
união, mas para caminharmos em harmonia devo saber lamber as minhas feridas ancestrais que oh! estão
ainda em chaga.
I see you
I acknowledge you
I free you
Luto e caio e levanto-me e luto e caio e levanto-me.
E nessa varanda estrelada, uma deliciosa criatura, uma árvore de belas
raízes disse-me: "filha, o tempo de Deus não é o nosso, entendeu?"
Sorri, "não entendi, não", nem tinha como pois não tenho essa chama
em mim. "A gente luta sempre, querida, mas só quando Deus quer é que
surge". Mas é só chamar-lhe outro nome então (e Shakespeare não nos diz
que
a rose by any other name would smell as sweet?): quando os planetas
se alinham (?), quando o
eu está enfim preparado (?), quando o Universo se abre (?), não é quando a mente quer forçando-se a si e ao corpo porque no fundo,
o tempo de Deus é quando tudo flui. Não importa o que lhe chamemos se designamos o mesmo e aqui o olhar mútuo poderá enfim compreender-se em plenitude.
Há anos que as palavras de Pablo Neruda se me incrustraram na pele:
"Si nada nos salva de la muerte, al menos que el amor nos salve de la vida".
E vou crendo n'Ele, no Amor. Porque Ele é Amor, não é assim?
Nem poderia ser algo diferente.
E o amor une. E mergulhar no teu peito é ser... é estar em casa.
"En un beso, sabrás todo lo que he callado".
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| Fotografia de Carlos Gomes |