Por que transportamos tanta bagagem, de viagem em viagem, se já não precisamos dela, se pode até ser-nos prejudicial?
Se levámos para a neve o fato de ski, as meias de lã e as camisolas térmicas, se calhar para uma praia e destino paradisíaco não temos necessidade. Se sofremos picadas de melgas em Cabo Verde, agora andaremos sempre com a bisnaga de Fenistil atrás? Se fomos assaltados em Berlim, andaremos com medo em Madrid? Se tivémos a sorte de ir a banhos em Valência em Outubro, se calhar não iremos nos Alpes em Fevereiro. Se perdemos, meios bêbedos, a carteira, nas ruas de Barcelona, decerto não voltará a acontecer em Paris. Nem sempre, na nova viagem, se repetem coisas boas que já vivemos noutras, mas conhecemos seguramente outras, melhores até. Porém, o mais importante é não temer que aconteçam de novo coisas desagradáveis e ainda assim, há sempre aquela bagagem que permanece e que não nos conseguimos livrar dela, porque nos marcou dolorosamente, mais do que uma tatuagem.
E quando não viajamos sozinhos e os companheiros de caminho também trazem as suas bagagens?
E em cada nova viagem, as viagens anteriores estão lá para nos fazer lembrar o que sucedeu, para nos pôr de pé atrás?
Aprendemos, pois, que a bagagem de viagens anteriores, por vezes, é perfeitamente desnecessária e, todavia, recordamo-nos constantemente das peripécias dessas viagens e aí reside precisamente o problema: não as podemos alterar, mas o medo de que nos torne a suceder o mesmo premedita a nossa acção, condiciona o nosso sorriso e mesmo quando viajamos com os dedos ainda no mapa (romantismos dos anos 80, vá, agora é tudo google maps!), já levamos a pesada bagagem ainda antes de partirmos e nem sempre conseguimos comprimi-la naqueles sacos de vácuo, para que ocupe menos espaço: um casaco com enchumaços que pesou imensamente nos ombros, um cachecol imenso e negro que nos sufocou de angústia, um vestido que esvoaçou e nos envergonhou, uma saia que se rasgou com um prego cravado e nos feriu, uma carteira que se perdeu e que por lá ficou juntamente com um pouco da nossa dignidade e, com tudo isto, para embrulhar com laçarotes bem brilhantes e visíveis toda esta trouxa, pesa o medo, oh o medo, da bagagem se desprender, se soltar e nos cair em cima de novo.
Mas se temos uma viagem nova, que nos foi dada num cupão de oferta, que caiu de surpresa e a não premeditámos sequer, não há que fazer mais senão sermos nós, pegarmos na nossa roupa preferida ou, como numa praia de nudistas, irmos apenas nós na nossa pele e essência, no improviso do eu e sem guiões de outras viagens, sem os eternos "e se?". É indo e vendo.
Podemos perguntar na fonte, sim, o que podemos visitar, as lendas do local, as personagens históricas, as melhores iguarias para provar mas, de resto, é para usufruir da paisagem, do sabor, dos cheiros, deixarmo-nos apaixonar pelo que nos envolve, pois há viagens que não têm bilhete de retorno e há caminhos que se desejam percorrer várias vezes ou nunca deixar de neles caminhar, porque como diz Miguel Torga, "o que importa é partir, não é chegar".
Por isso, se ainda não embarcámos, é tempo de o fazer, e talvez sejamos capazes de despir esse manto pesado e deixá-lo no cais, essa bagagem que não temos de carregar mais às costas. Se já estamos no ar, como nos balões, atiremos para fora do cesto, aos poucos, para aliviar a carga, uma malinha, um pacote, um saquinho de cada vez. Resta a memória e essa já é pesada que chegue, não precisamos de mais e o balão tem de subir e de ser cada vez mais leve.
Ou vamos entrar no mar alto, lá onde não temos pé, onde cada vez mais longe ficou a fímbria da praia e onde o horizonte se aproxima a cada remada.
Vamos. Temos medo? Mas vamos com medo na mesma, e que a bagagem das viagens anteriores se desintegre na espuma das ondas.
Viagem, de Miguel Torga
Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
procurar
o velho paraíso
que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.
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| Natal na Praia do Pedrógão, 24 de Dezembro de 2019 |
Por isso, se ainda não embarcámos, é tempo de o fazer, e talvez sejamos capazes de despir esse manto pesado e deixá-lo no cais, essa bagagem que não temos de carregar mais às costas. Se já estamos no ar, como nos balões, atiremos para fora do cesto, aos poucos, para aliviar a carga, uma malinha, um pacote, um saquinho de cada vez. Resta a memória e essa já é pesada que chegue, não precisamos de mais e o balão tem de subir e de ser cada vez mais leve.
Ou vamos entrar no mar alto, lá onde não temos pé, onde cada vez mais longe ficou a fímbria da praia e onde o horizonte se aproxima a cada remada.
Vamos. Temos medo? Mas vamos com medo na mesma, e que a bagagem das viagens anteriores se desintegre na espuma das ondas.
Viagem, de Miguel Torga
Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
procurar
o velho paraíso
que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

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