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terça-feira, 3 de setembro de 2019

o sangue que se esvai sem som



Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até na íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas nós sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
Fiama Hasse Pais Brandão
in Cenas Vivas

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

E o corpo dança porque aprendeu com as ondas

"A dança traz o silêncio, pensou Marta, cadência apenas, alegria do corpo. Alguns dos dançarinos, amigos ou gente de outras vilas, sabiam-no sem ter o saber de Marta.
Dançavam calados, oferecendo-se à dança, desenhada segundo os costumes, os de uma cultura lenta e singular, que os unia entre si, os que a aceitavam e os que a praticavam."

Fiama Hasse Pais Brandão (1999), Sob o Olhar de Medeia, Relógio D'Água, Santa Maria da Feira, p.137