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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

o que nunca se alcança


O que muda na mudança,
se tudo em volta é uma dança
no trajeto da esperança,
junto ao que nunca se alcança?

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

E o corpo dança porque aprendeu com as ondas

"A dança traz o silêncio, pensou Marta, cadência apenas, alegria do corpo. Alguns dos dançarinos, amigos ou gente de outras vilas, sabiam-no sem ter o saber de Marta.
Dançavam calados, oferecendo-se à dança, desenhada segundo os costumes, os de uma cultura lenta e singular, que os unia entre si, os que a aceitavam e os que a praticavam."

Fiama Hasse Pais Brandão (1999), Sob o Olhar de Medeia, Relógio D'Água, Santa Maria da Feira, p.137

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

se não fossem as fadas, que seria de mim?

Amanhã! mais informações aqui



"-Oriana, enche o ar de música.
Oriana tocou com a sua varinha de condão no ar e o ar encheu-se de música.
Estava lua cheia e o luar inundava tudo. Cheirava a madressilva e a rosas.
-Oriana - pediu o Poeta - dança a dança da noite de hoje."

A Fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner

domingo, 19 de janeiro de 2014

And life is just the picture dancing on a screen, Siegfried Sassoon, 1920

Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
  
Sophia de Mello Breyner in Coral, 1950

 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

dance, dance, otherwise we are lost (Pina Bausch)

my ballroom dance shoes

"- A vida? Bom. Nunca tinha pensado nisso. Qualquer coisa talvez a que é bom destruir o peso? (...) Porque enfim, eu sou bailarina! Que mais pode interessar-me que bailar?
Saberia ele o que isso significava?
-  Você sente a vida em cor, em estrutura, penso eu. Eu sinto-a onde ela começa: no meu corpo.
Conhecia-a, como dizer-lhe?, nos seus rins, nas suas pernas, na densidade da carne que havia de apodrecer. Aí a possuía, no limiar da sua aparição, nas linhas da beleza percorridas pelo seu corpo.
- Depois, eu conheço o valor do instante, sei que o milagre não dura. Bom Hoelderlin: "só por instantes o homem aguenta a plenitude divina. Passa-se a vida depois a sonhar com eles..."
Poderia ele imaginar como era exaltante construir a beleza com aquela coisa frágil que era um corpo? Trabalhar meses inteiros para conseguir, num instante, um clarão de eternidade, antes que aquele bocado de carne apodrecesse?
- Viver o milagre no exacto momento em que danço e que passa, e que esquece. Esgotar o instante, como esgoto as sapatilhas de ballet num espectáculo. Não deixar rasto.
(...)
Mas só a dança era puro movimento.
- Vocês, os das artes, das letras, ainda acreditam no futuro. Trabalham com palavras, com as cores que os outros hão-de um dia recuperar. Que é que isso quer dizer? Eu salvo-me e condeno-me só comigo. Jogo tudo nesta coisa que há-de apodrecer amanhã. Mas é belo saber que nada vai restar de mim, que eu própria e o meu público acidental esgotamos totalmente a minha arte! (...) Um corpo é tão inimitável! (...) O prazer é bem mais nosso e profundo e único se... O sabor de um vinho é outro, se quebrarmos a taça."

Vergílio Ferreira, Cântico Final, Círculo de Leitores, 1982, pp.60-61