quarta-feira, 22 de maio de 2013

dance, dance, otherwise we are lost (Pina Bausch)

my ballroom dance shoes

"- A vida? Bom. Nunca tinha pensado nisso. Qualquer coisa talvez a que é bom destruir o peso? (...) Porque enfim, eu sou bailarina! Que mais pode interessar-me que bailar?
Saberia ele o que isso significava?
-  Você sente a vida em cor, em estrutura, penso eu. Eu sinto-a onde ela começa: no meu corpo.
Conhecia-a, como dizer-lhe?, nos seus rins, nas suas pernas, na densidade da carne que havia de apodrecer. Aí a possuía, no limiar da sua aparição, nas linhas da beleza percorridas pelo seu corpo.
- Depois, eu conheço o valor do instante, sei que o milagre não dura. Bom Hoelderlin: "só por instantes o homem aguenta a plenitude divina. Passa-se a vida depois a sonhar com eles..."
Poderia ele imaginar como era exaltante construir a beleza com aquela coisa frágil que era um corpo? Trabalhar meses inteiros para conseguir, num instante, um clarão de eternidade, antes que aquele bocado de carne apodrecesse?
- Viver o milagre no exacto momento em que danço e que passa, e que esquece. Esgotar o instante, como esgoto as sapatilhas de ballet num espectáculo. Não deixar rasto.
(...)
Mas só a dança era puro movimento.
- Vocês, os das artes, das letras, ainda acreditam no futuro. Trabalham com palavras, com as cores que os outros hão-de um dia recuperar. Que é que isso quer dizer? Eu salvo-me e condeno-me só comigo. Jogo tudo nesta coisa que há-de apodrecer amanhã. Mas é belo saber que nada vai restar de mim, que eu própria e o meu público acidental esgotamos totalmente a minha arte! (...) Um corpo é tão inimitável! (...) O prazer é bem mais nosso e profundo e único se... O sabor de um vinho é outro, se quebrarmos a taça."

Vergílio Ferreira, Cântico Final, Círculo de Leitores, 1982, pp.60-61

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