sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Os passarinhos da panificadora da Batalha




A panificadora da Vila da Batalha colava com a casa dos meus avós. No telhado da panificadora, no vértice das águas, dois passarinhos pousavam. Não voam, porquê? Pensava eu. Tinha medo daqueles passarinhos, e espreitava-os. Se me pusesse em bicos dos pés, via-os perfeitamente, se me baixasse no meio do jardim deixava de os ver. Se corresse para a outra ponta do barracão, que ficava para lá do galinheiro, podia vê-los de novo. E eles, viam-me também? Às vezes pensava que se eu me portasse mal, um deles levantaria voo e viria bicar-me o nariz (algum adulto deve ter tido esta "bela" tirada para me desafiar).
Um dia, conheci uma história muito triste (ou alguém ma contou), um conto infantil (mais tarde soube que era O Príncipe Feliz, de Óscar Wilde), no qual uma andorinha de bom coração tinha morrido junto da estátua do Príncipe, depois de ter espalhado alegria e amor e ter ajudado quem mais necessitava, levando, a pedido da estátua, todos os seus ornamentos a quem deles precisava: os olhos de safira, a bola de rubi da bengala, a cobertura de folha de ouro. Misturei tudo, então. Aqueles passarinhos de barro e telha teriam sido um dia passarinhos vivos, presos agora a uma petrificação de estátua? Quando li, mais tarde, a história da Medusa para os olhos da qual se não podia olhar, sob pena de se ter o corpo transformado em estátua, assolou-me o mesmo terror gélido que tinha em criança com os passarinhos da panificadora.
Freud discorre sobre o Terror da Medusa como medo de castração, em termos sexualizados e no masculino, mas que podemos perfeitamente generalizar. Ser transformado em estátua é não se poder mais mover, é ver o mundo na frustração de nada poder fazer, é estar preso a um corpo imóvel fervendo por dentro com uma carapaça que nos tolda por completo a acção.
É a castração total de emoção e movimento, da criatividade, do fazer e do ser.
Hoje consigo olhar os passarinhos da panificadora, mas não deixo de estremecer por dentro à ideia de me petrificarem.



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