quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

E se nada houver para lá do mergulho?




A paciência desvanece-se no ar como o fumo do cigarro que teimosamente me queima ainda os dedos. A desconfiança ata-se num apertado nó com o desejo; o embate frontal é chocante. Desejo de conhecimento, sofrer pela descoberta de si mesmo. A aparição de si a si mesmo fascina, deslumbra mas é um acidente de carro com tripla capotagem. Ou cair nas ravinas da alma, arrancando pedaços de pele. E se nada houver para lá do mergulho? E se não nos pudermos já reconhecer e amar depois de saltar o abismo? Alguém escreveu que devemos sair sob a chuva e molhar-nos. O provérbio procura aquietar-nos porque depois da tempestade vem a bonança.
Eu sou a tempestade, sempre.
Confia, fala, sente, explica, vê e deixa-te ser vista, mente inquieta.
Dói o reconhecimento, pois é πάθει μάθος, sofrer pelo conhecimento. Dói muito mudar de pele.
Oh se pudesse adormecer e despertar apenas quando a música tornasse a tocar e não tivesse que dançar no nevoeiro silencioso, movendo-me no incerto, palmilhando novos caminhos que rasgam a carne a cada momento.
Voar. Cair. Nada mais resta do corpo que a dança e o movimento. Corpo vivido.
Espera. Não já. Não te faças ao mar, é cedo. Sente.

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