domingo, 9 de setembro de 2012

E hei-de acabar assim, a dizer-lhe que não.

Coimbra, 10 de Dezembro de 1958 - há vinte e cinco anos a lidar profissionalmente com a morte, e cada vez me sinto menos capaz de a compreender e aceitar. A meio caminho entre o puro campónio e o puro cerebral, perante ela nem consigo ter a paz do rústico, que olha o trânsito de cada existência como um ciclo da natureza, nem a dor do intelectual, que o vê em função de categorias mentais. Mal a descortino à cabeceira dum doente, reajo sempre da mesma maneira instintiva e sobressaltada. E, sem querer saber das suas razões, passo a guerreá-la encarniçadamente com as armas de que disponho. Esgoto o arsenal da farmacopeia e da esperança. Metido quase fisiologicamente na pele do enfermo, e servido pela terapêutica que a ciência me fornece, luto até não poder mais. E quando é ela que triunfa, apenas pragmaticamente aceito a derrota. Vencido mas não convencido, retempero os conhecimentos e a coragem, e preparo-me para o combate seguinte. E hei-de acabar assim, a dizer-lhe que não.


Coimbra, 20 de Janeiro de 1961 - A pergunta é sempre a mesma, mas o tamanho da resposta varia consoante a disponibilidade e a pachorra.
-A medicina dá muitos escritores! Por que será?
Pacientemente, dobro a receita, tiro os óculos, levanto-me e começo o sermão, que hoje me saiu um pouco sincopado:
- Não é ela que os dá. Limita-se, simplesmente, a preservar esse dom aos que nasceram com ele, o que já não é pouco. Ao invés doutras profissões, que estrangulam no indivíduo o espírito de aceitação e compreensão do semelhante, esta faz o contrário. O médico, como tal, nem pode fechar as portas da alma, nem apagar a luz do entendimento. É todo o humano que o solicita a todas as horas: o que sofre, o que simula, o que teme e o que desvaria. E só a graça de uma certa dimensão afectiva e mental permite corresponder eficientemente a tantos e tão diversos apelos. Ora, essa dimensão está implícita na condição do artista, o mais receptivo e perceptivo dos mortais. Por isso, quando o acaso sobrepõe a uma vocação criadora uma condenação clínica, não há dramas sangrentos. A caneta que escreve e a que prescreve revezam-se harmoniosamente na mesma mão.

Miguel Torga, Diário, excerto in A caneta que escreve e a que prescreve , Doença e Medicina na Literatura Portuguesa, Antologia (org. de C. Rocha), Verbo, babel, Lisboa 2011 pp.200-201

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