quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Palavras denteadas de revolta mordida

Ai, quem nunca se abraçou a um tronco não sabe o que seja ser sozinha! Arada até ao âmago da pedra, até ao nódulo da secura, com a alma rasamente aplainada, roçados, a foices de desesperanças, os trigais ainda verdes do desejo, mal despontadas as lânguidas giestas, rumurosas, onde acolher-se?
Nenhum perdão, nenhum berço para a angústia.
Restavam as palavras. Nelas ia morar. Só elas possuíam a imponderável agitação da asa ou o peso, esmagante, da pedra. Amalgamados, o frémito e a quietude, a brevidade e o eterno, que o tempo é lento a comer.
Tinha-as amado tanto! Do fundo da alma da menina que fora.
Tilintavam, caíam sobre ela, como pingos de chuva, grossa, a espapaçarem-se em terra fofa. Eram girassóis de luz raiada. Soltas. Pássaros voantes? Tranças em liberdade? Deixavam-se partir em degrauzinhos felizes (...) e podiam enrolar-se em ternuras diminutivas. Tão guardadoras da meiguice de qualquer nome! (...) a quererem amarrar o tempo, a duração tão breve, das coisas, de tudo, agora o sabia. Vermelhas, sumarentas, medronhos ou bocas maduras. E pisadas, roxas (...) Com a dureza do granito: não! Ou a macieza das dunas: sim! Poliédricas de intenções...
Mágicas. Mágicas. Mágicas.

Luísa Dacosta, Corpo Recusado, pp.16-18

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