"Matar cachorros a grito"
Às oito da matina iniciaram a subida para o Pico. Três horas e meia para cima.
Maria queria desistir na primeira etapa. Adivinhava o sofrimento que se avizinhava, o menisco a dar de si, a chuva e o vento a aumentar. O grupo unido não a deixou, não abandonamos ninguém, subimos juntos e descemos juntos. A uma hora de atingir a cratera, a parede de neblina levantou por cinco minutos, puderam compreender que estavam acima das nuvens, para lá da altura da Serra da Estrela.
Maria descobriu vários sentimentos, frustração por estar a chover e neblina, regozijo durante parcos minutos quando o sol abriu e perceberam o que a paisagem teria prometido, não fôra a meteorologia pregar-lhes partidas. As lágrimas vieram aos olhos de felicidade.
Mas chegaram lá acima e conseguiram ver o Piquinho durante uns cinco minutos apenas até toldar tudo de novo. As rajadas de vento levantavam a 150km/hora e uma colega, franzina e leve, deu uma cambalhota e só não caiu ravina abaixo porque foi agarrada pelos bons reflexos de outro companheiro do grupo.
Já ninguém subiu a última etapa do Piquinho nesse dia. Na verdade, já mais nenhum grupo empreendeu a subida, foram todas canceladas. O guia recomendava partirem quanto antes. Iniciaram imediatamente a descida, pois o frio não permitia descansar ou comer na cratera.
Tudo o que sobe tem de descer. Maria sabia que a problemática estava justamente aí. Já desde criança adorava subir às árvores, o pior era sair de lá de cima.
Afadigavam-se como formigas num carreiro organizado, mal respirando quase com o vento de frente, gélido.
Bloqueou várias vezes, parou, pensou que ficava ali, chorando de raiva a descer e ao mesmo tempo com um sentimento de superação.
Como dizia o seu paizinho, Maria ia ali num estado que "só Deus e ela é que sabiam.."
"Matar cachorros a grito", uma expressão de origem antiga brasileira mas muito usada pelos açorianos, aqui se aplicaria totalmente, um sentimento desesperado, de pequenez incrível contra a lava sólida e o gigante que se erguia, o ponto mais alto de Portugal. Só o saber que realmente a lava não escorregava e sentir a aderência das botas lhe trazia um pouco de paz, passageira, a cada passo, encharcada até à roupa íntima, apesar da capa impermeável, a Mãe-Natureza não perdoava um minuto e ela sofria com a decisão.
Mas orgulhosamente, lágrimas a escorrer do rosto em silêncio, vislumbrou a Casa da Montanha e dá em chover copiosamente então à chegada, e os pingos grossos de chuva misturavam-se com as lágrimas, começou a rir nervosamente, a trautear o I'm singing in the rain como louca, com a estupidamente feliz sensação de dever cumprido, se ultrapassara aquilo, ultrapassaria tudo.
Porque há sempre um raio de sol que trespassa as águas da chuva e o arco-íris há-de aparecer algures, quando menos se espera.



Sem comentários:
Enviar um comentário