sábado, 5 de fevereiro de 2022

bathed in moonlight

à Rosária,

"The day my mother died, I wrote in my journal, "A serious misfortune of my life has arrived." I suffered for more than one year after the passing away of my mother. But one night, in the highlands of Vietnam, I was sleeping in the hut in my hermitage. I dreamed of my mother. I saw myself sitting with her, and we were having a wonderful talk. She looked young and beautiful, her hair flowing down. It was so pleasant to sit there and talk to her as if she had never died. When I woke up, it was about two in the morning, and I felt very strongly that I had never lost my mother. The impression that my mother was still with me was very clear. I understood then that the idea of having lost my mother was just an idea. It was obvious in that moment that my mother is always alive in me.

I opened the door and went outside. The entire hillside was bathed in moonlight. It was a hill covered with tea plants, and my hut was set behind the temple halfway up. Walking slowly in the moonlight through the rows of tea plants, I noticed my mother was still with me. She was the moonlight caressing me as she had done so often, very tender, very sweet... wonderful! Each time my feet touched the earth I knew my mother was there with me. I knew this body was not mine but a living continuation of my mother and my father and my grandparents and great-grandparents. Of all my ancestors. Those feet that I saw as "my" feet were actually "our" feet. Together my mother and I were leaving footprints in the damp soil.

From that moment on, the idea that I had lost my mother no longer existed. All I had to do was look at the palm of my hand, feel the breeze on my face or the earth under my feet to remember that my mother is always with me, available at any time."


~ Thich Nhat Hanh, monge budista (faleceu dia 22 de Janeiro)

 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

O no!


 

Let me not to the marriage of true minds

Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove.
O no! it is an ever-fixed mark
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wand'ring bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.
Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
If this be error and upon me prov'd,
I never writ, nor no man ever lov'd.

sonnet 116, by William Shakespeare

domingo, 30 de janeiro de 2022

e é sobretudo por isso que se usam óculos escuros :)

"L'enfer sont les autres", Jean-Paul Sartre

Porque como diz o meu Vergílio Ferreira (Pensar) "O inferno são os outros, disse Sartre. E é sobretudo por isso que se usam óculos escuros" 😎

Bom domingo de eleições, por Abril, sempre!



sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

que manhã cedo ensaia a dança

 

Um homem na cidade

Agarro a madrugada
como se fosse uma criança
uma roseira entrelaçada
uma videira de esperança
tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem por força da vontade
de trabalhar nunca se cansa.

Vou pela rua
desta lua
que no meu Tejo acende o cio
vou por Lisboa maré nua
que se deságua no Rossio.

Eu sou um homem na cidade
que manhã cedo acorda e canta
e por amar a liberdade
com a cidade se levanta.

Vou pela estrada
deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresça na vela da canoa.

Sou a gaivota
que derrota
todo o mau tempo no mar alto
eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.

E quando agarro a madrugada
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada
um malmequer azul na cor.

O malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém
o malmequer desta cidade
que me quer bem que me quer bem!

Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis que me quer bem!

Ary dos Santos

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

e quem nunca? eppur si muove... :)

Mártires da Ciência

O poder não gosta da ciência porque ela o coloca em causa, em busca da luz ou das possíveis luzes e verdades. Galileo foi obrigado a negar a sua teoria heliocêntrica, por contrariar os dogmas religiosos e, por isso, foi mantido em prisão domiciliária toda a vida (eppur si muove!).

Giordano Bruno, filósofo italiano, poeta, foi julgado e condenado à morte na fogueira por heresia, por se negar a desmentir o que havia proclamado: era um místico e propôs a ideia de que o Universo é infinito, concebendo-o como um continuum. Mas não só. 

O que talvez tenha ditado a sua sentença foram, sem dúvida, as suas ideias pouco ortodoxas, que o puseram na linha de fuzilamento da Inquisição - ter duvidado (e quem nunca?) da Trindade, da Transubstanciação, da Condenação Eterna (aka Inferno) e da própria divindade de Cristo. Mais do que propriamente o peso das suas ideias filosóficas de um pluralismo cósmico, de um Universo continuum, sem centro, onde nada é fixo, nem as estrelas, e tudo é relativo como o tempo e o movimento, e onde Deus é a mente universal, a substância inerente a todas as coisas e nunca externa. Giordano apresentou ainda a proposta das estrelas serem sóis distantes, cada uma delas rodeada por mais planetas. e voamos para o livro Escrever, de Vergílio Ferreira: "Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela? Põe-na lá.

Ohhh!

E que bela ideia a de Giordano, se reflectirmos, a de um acentrado continuum universal, pois se estamos sempre em evolução... se estamos sempre em movimento e (e)motion, em translação e rotação, o cérebro não pára, não é? Um brinde a quem diz o que pensa (sob pena de não aceitação e até mesmo de condenação à morte), e a quem mais não quis senão partilhar ideias, lutando pela união dentro das diferenças e a tolerância na cristandade e nunca defendendo a cisão sangrante que continuadamente se verifica.


Giordano Bruno, estátua de bronze por Ettore Ferraro, Campo de' Fiori, Roma (local de execução)
Giordano Bruno, estátua de bronze por Ettore Ferraro, 
Campo de' Fiori, Roma (local de execução)


Knower - Worlds Upon Worlds

domingo, 23 de janeiro de 2022

Fome de viajar

"A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:

Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre".

Fome de viagem - Inês Homem de Melo

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

What have you learned?

Thank you, R, for the beautiful movie* 



  • (Laurence Olivier) "I took you to pieces like a watch. And put you together again. It was a very intimate experience. I have never been able to forget it. May I ask you a question?"

  • (Anthony Quinn) "You never hesitated before."

  • (Laurence Olivier) "That is true."

  • (Laurence Olivier) "This is you. Political prisoner 103592R, Kiril Pavlovich Lakota. All of you is here, from the day you were born until now. Except for the answer to one question. What have you learned in twenty years of confinement?"

  • (Anthony Quinn) "That is a big question, Piotr Ilyich."

  • (Laurence Olivier) "The answer is important to me, you know."

  • (Anthony Quinn) "What I have learned? I have learned that without some kind of loving a man withers like a grape on a dying vine."

  • (Laurence Olivier) "Is that all?"

  • (Anthony Quinn) "I am trying to learn more."

  • (Laurence Olivier) "Have you learned enough to face freedom?"

  • (Anthony Quinn) "I have been free for a long time. Not entirely, perhaps. But you have not answered my question. Why have you brought me here?"

  • (Laurence Olivier) "I want to show you a world gone mad."
The Shoes of the Fisherman, 1968