Maria Francisca franze o nariz. A sério? O tipo da toalha ao lado, que acabou de chegar à praia, mal se senta, liga o bluetooth do telemóvel a uma coluna... Tipo, não vim para ouvir música, não quero ouvir a tua música, não tens uns phones? Quando quero ouvir música, pago para ir a um concerto. Na praia fluvial gosto de ouvir as cigarras e o burburinho da malta na água.
Virei uma velha do Restelo, pensa. Foi como naquela sexta-feira, havia quase três semanas. Separada havia quatro anos, instigada por duas amigas por não ter tido ninguém, lá acedeu aos rogos de instalar aquela afamada aplicação no telemóvel. Eram 15h36 da tarde. Duas fotografias de rosto, o primeiro e o último nome, que raras vezes usava, se gostava de acampar, caminhadas, enfim, lá respondeu ao inquérito breve, clicou que não queria acrescentar mais nada ao perfil e abriu para ver como funcionava.
Choveram "olás" de moços com descrições como "uma jóia de rapaz, segundo a minha avó" ou pérolas como "Queres ser a minha Tinderella?". Contam-se pelos dedos de uma mão os verdes e mais de mil os NOPES.
Trabalhou, lanchou, estudou, as notificações caíam vorazmente ao longo da tarde e ao serão. Maldisse as amigas e aquela ideia contra a qual lutara tanto tempo e, pelos vistos, com as suas razões. Não é para mim, está visto.
"Tão linda e tão longe!" (revirava os olhos de tédio).
"Olá, estás bem?" (não se lembrava de ter estado doente e aquela pessoa não a conhecia, mas adiante) "Olá Francisca, que idade tens?" (pimbas, este não sabe ler, a idade está lá escarrapachada... next)
Enfim.
O desencanto. Se a conversa não flui nem é interessante, não é um sorriso colgate que salvaria o dia. Tudo insípido, como se fazia a comida para os diabéticos, antes de se saber o que se sabe hoje. Oh sorte, pensou.
Nada, e nem é por uma prateleira de fotografias que se julga uma pessoa. Isto é difícil assim. Sou mesmo uma velha do Restelo. Tenho saudades de uma boa conversa, de um olhar, de uma mão a roçar na mão, para arrepiar o outro. Esconder-se atrás de um ecrã é tão fácil e ao mesmo tempo tão triste...
Chegou a casa tarde das aulas, fatigada, começou a despir-se, a preparar-se para dormir.
A lavar os dentes, choveu mais um plim plim da APP. Ena, espreitou ainda sem abrir, este escreveu um parágrafo inteiro. Pode ser que seja mais promissor.
Terminou de se arranjar e deitou-se nos lençóis frescos, abrindo a janela da conversa: "Olá Francisca! Tudo bem? Preferes sushi no restaurante ou pizza no sofá a ver TV?"
Tempuras, eu gosto é de tempuras.
Morreu. Não dá. Clicou com o indicador persistentemente, durante uns segundos: "Desinstalar?"
Sim, por favor. Olhou de soslaio para o relógio, eram 23h46, nem oito horas durara a APP. Desligou o candeeiro. Talvez um dia, por um acaso, esbarre com alguém de jeito, em presença, ao vivo, "à antiga". Deitada de bruços, abraçou a almofada e adormeceu.
Tinder, a mais breve história de desamor.