quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Sou a beleza da vida

GAL COSTA MUSA DE QUALQUER ESTAÇÃO

Me visa, me bisa
Me planta na imaginação
Me queira, me cheira
Me usa como definição
Me dá minha bola
Que eu mato no peito
Entro na área e faço um gol de efeito
Me ama, me chama
De porta-estandarte
Que eu sou uma obra de arte
Me leia, me creia
Faça fé no meu violão
Me cota, me vota
Me cai no gosto da multidão
Por que me eleger só no verão
Se eu sou musa de qualquer estação?
Sou sol e a chuva
A fruta e a flor
Eu sou um ano inteiro de amor
Sou a beleza da vida
Sou o que der e vier
A natureza da nova mulher
Sou um milagre que existe
Um coquetel da paixão
Bonitos acordes dessa canção.

Gal Costa, Musa de Qualquer Estação (1986)

Gratidão aos meus pais por me darem a conhecer Gal Costa, um dos meus vinys preferidos.
A ouvir boa música desde a barriga da mãe e canções sobre a emancipação feminina desde forever.


Gratidão, Gal Costa, pela tua arte e luta pela liberdade e poder da mulher
(26/09/1945-9/11/2022)






terça-feira, 8 de novembro de 2022

Tens carne, tens fadiga e tens pudor

CÂNTICO
Rio de Janeiro , 1946


Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde - são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante... a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas...
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

eterno o movimento do teu corpo

Fica dentro de mim, como se fosse
eterno o movimento do teu corpo,
e na carne rasgada ainda pudesse
a noite escura iluminar-te o rosto.
No teu suor é que adivinho o rastro
das palavras de amor que não disseste,
e no teu dorso nu escrevo o verso
em pura solidão acontecido.
Transformo-me nas coisas que tocaste,
crescem-me seios com que te alimente
o coração demente e mal fingido;
depois serei a forma que deixaste
gravada a lume com sabor a cio
na carícia de um gesto fugidio.


António Franco Alexandre, DUENDE
(Poeta distinguido com o Grande Prémio de Poesia Diogo Bernardes, APE / Município de Ponte da Barca, 2022)








terça-feira, 25 de outubro de 2022

petit chou d'amour

Bougainvillé, Riachos, Torres Novas

 


À Clémence, Thierry, Philomène et Aloíce

la bougainvillée et l'avocat

Il était une fois, deux jeunes filles qui finissaient leur doctorat, une en géographie et l'autre en littérature portugaise. Elles se sont rencontrées chez un Airbnb où la deuxième attendait aussi ses cours de danse.

Elles ont partagés de la soupe, des marrons grillées et surtout des sourires, des idées philosophiques et de l'amour et de l'amitié, jusqu'à nos jours.

Le temps s'est passé, elles ont réussi leurs doctorats et la vie partagée continuait son chemin, de temps en temps au sud, de temps en temps au centre, avec des belles visites et des belles soirées. 

La petite Philomène est née et ils sont tous venus visiter les beaux monuments de la ville du nord. Après, la famille est allée vivre à la terre des chevaux. La pandemie l' a obligé d'être fermée et les visites repoussées, mais le monde est devenu plus riche avec la naissance d'Aloíce, un petit chou d'amour.

Et maintenant, le centre-nord visite finalement la terre des chevaux ailés, avec une belle bougainvillée dans la voiture et un avocat. C'est le cadeau pour le baptême d'Aloíce et elles vont planter l'arbre et la fleur toutes ensemble.

En dormant dans l'autocaravane, elle a été réveillée à l'aube par le son fort du coq chanteur. Elle souriait devant les merveilles du monde et son bonjour était le plus beau, en regardant les choses plus simples, les chants de la messe, les petits bras d'Aloíce qui l'embrassait et les plaisanteries de Philomène, les bras forts de Thierry qui la serraient et la tendresse de Clémence. 

Il n'y aura jamais des mots suffisantes pour montrer la reconnaissance et l'honneur d'avoir partager cet événement, la bougainvillée et l'avocat vont croître et les enfants vont grandir et nous n'oublierons jamais le geste collectif et amoureux de les planter et de les voir pousser.


domingo, 16 de outubro de 2022

las puertas de la vida

    



"O Sorriso", Photo by LS, Ponte de Lima

A  LS

TU RISA

Quítame el pan, si quieres,
quítame el aire, pero
no me quites tu risa.

No me quites la rosa,
la lanza que desgranas,
el agua que de pronto
estalla en tu alegría,
la repentina ola
de plata que te nace.

Mi lucha es dura y vuelvo
con los ojos cansados
a veces de haber visto
la tierra que no cambia,
pero al entrar tu risa
sube al cielo buscándome
y abre para mi todas
las puertas de la vida.

Amor mío, en la hora
más oscura desgrana
tu risa, y si de pronto
ves que mi sangre mancha
las piedras de la calle,
ríe, porque tu risa
será para mis manos
como una espada fresca.

Junto al mar en otoño,
tu risa debe alzar
su cascada de espuma,
y en primavera, amor,
quiero tu risa como
la flor que yo esperaba,
la flor azul, la rosa
de mi patria sonora.


Ríete de la noche,
del día, de la luna,
ríete de las calles
torcidas de la isla,
ríete de este torpe
muchacho que te quiere,
pero cuando yo abro
los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van,
cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire,
la luz, la primavera,
pero tu risa nunca
porque me moriría.

Pablo Neruda, cancioneiro 'Los versos del Capitán', 1952

meus olhos longos de escutar sem fim

SAUDADES TRÁGICO-MARÍTIMAS

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.
Na praia, de bruços,
fico sonhando, fico-me escutando
o que em mim sonha e lembra e chora alguém;
e oiço nesta alma minha
um longínquo rumor de ladainha,
e soluços,
de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

São meus Avós rezando,
que andaram navegando e que se foram,
olhando todos os céus;
são eles que em mim choram
seu fundo e longo adeus,
e rezam na ânsia crua dos naufrágios;
choram de longe em mim, e eu oiço-os bem,
choram ao longe em mim sinas, presságios,
de além, de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Naufraguei cem vezes já...
Uma, foi na nau S. Bento,
e vi morrer, no trágico tormento,
Dona Leonor de Sá:
vi-a nua, na praia áspera e feia,
com os olhos implorando
– olhos de esposa e mãe -
e vi-a, seus cabelos desatando,
cavar a sua cova e enterrar-se na areia.
– E sozinho me fui pela praia além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Escuto em mim, – oiço a grita
da rude gente aflita:
– Senhor Deus, misericórdia!
– Virgem Mãe, misericórdia!
Doidos de fome e de terror varados,
gritamos nossos pecados,
e sai de cada boca rouca e louca
a confissão!
– Senhor Deus, misericórdia!
– Misericórdia, Virgem Mãe!
e o vento geme
no bulcão
sem astros;
anoitecemos sem leme,
amanhecemos sem mastros!
E o mar e o céu, sem fim, além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Ah! Deus por certo conhece
minha voz que se ergue, branca e sozinha,
– flor de angústia a subir aos céus varados
p'la dor da ladainha!
Transido, o clamor da prece
do mesmo sangue nos veio
Deus conhece os meus olhos alongados;
onde o mar e o céu deixaram
um pouco de vago anseio
nesse mistério longo do seu halo...
Rezam em mim os outros que rezaram,
e choraram também;
há um pranto português, e eu sei chorá-lo
com lágrimas de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Ó meu amor, repara
nos meus olhos, na sua mágoa clara!
Ainda é de além
o meu olhar de amor
e o meu beijo também.
Se sou triste, é de outrora a minha pena,
de longe a minha dor
e a minha ansiedade.
Vês como te amo, vês?
Meu sangue é português,
minha pele é morena,
minha graça a Saudade,
meus olhos longos de escutar sem fim
o além, em mim...

Chora no ritmo do meu sangue, o mar

Afonso Lopes Vieira, Ilhas de Bruma, 1917


São Jorge, Açores, Junho 2022



domingo, 9 de outubro de 2022

O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou

Castelo da Lousã, fotografia de AS (5/10/2022)




SERRA-MÃE

O agoiro do bufo, nos penhascos,...
foi o sinal da Paz.
O Silêncio baixou do Céu,
mesclou as cores todas o negrume,
o folhado calou o seu perfume,
e a Serra adormeceu.

Depois, apenas uma linha escura
e a nódoa branca de uma fonte antiga :
a fazer-me sedento, de a ouvir,
a água, num murmúrio de cantiga,
ajuda a Serra a dormir.

O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou
e anda agora à procura, pela Serra,
da verdade dos sonhos que na Terra,
nunca alcançou.

E outros murmúrios de água escuto, mais além :
os Poetas embalam sua Mãe,
que um dia os embalou .

Na noite calma,
a poesia da Serra adormecida
vem recolher-se em mim.
E o combate magnífico da Cor,
que eu vi de dia :
e o casamento do cheiro a maresia
com o perfume agreste do alecrim ;
e os gritos mudos das rochas sequiosas que o Sol castiga
--passam a dar-se em mim .

E todo eu me alevanto e todo eu ardo.
Chego a julgar a Arrábida por Mãe,
quando não serei mais que seu bastardo.

A minha alma sente-se beijada
pela poalha da hora do Sol-pôr ;
sente-se a vida das seivas e a alegria
que faz cantar as aves na quebrada ;
e a solidão augusta que me fala
pela mata cerrada,
aonde o ar no peito se me cala,
descem da Serra e concentrou-se em mim.

E eu pressinto que a Noite, nesse instante,
se vai ajoelhar ...

...............................................


Ai não te cales , água murmurante !
Ai não te cales , voz do Poeta errante !

-- se não a Serra pode despertar.


Poema de Sebastião da Gama