Melo, 2 de Setembro
Estou escrevendo, com este, um outro diário. Traslado para aqui as minhas impressões de hoje:
1 pão ------------------------------2.80
2 quilos de batata -------------- 2.40
1/2 quilo de arroz -------------- 4.80
Peço desculpa à literatura.
Vergílio Ferreira, Diário Inédito 1944-1949 , ed de F. Irene Fonseca, Bertrand Editora, Lisboa 2008, p.101
"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve", Vergílio Ferreira, Escrever
domingo, 30 de dezembro de 2012
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Escrevo
Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal ou do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir
às fontes.
E voltar a nascer.
Eugénio de Andrade, "Os sulcos da sede", Poesia
Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal ou do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir
às fontes.
E voltar a nascer.
Eugénio de Andrade, "Os sulcos da sede", Poesia
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
mas tu não estás lá
![]() | ||
| Quadro de Edvard Munch, Three Stages of Woman (1894) http://www.edvardmunch.org/woman-in-three-stages.jsp |
Se tu viesses. Gostava tanto de te ver. Em qualquer idade da vida, que em todas estarias certa com a minha necessidade de te amar. Na idade jovem do teu cabelo à garçonne, na tua idade azougada em que eras mais enérgica do que a vida, mulher eléctrica, quando eu ficava estoirado só de te ver. Ou mais tarde, à hora desta deusa Primavera que tenho aqui. Ou mesmo já no fim, quando te levava pela mão, já trôpega, atrapalhada com todas as peças de seres, e íamos almoçar ao restaurante em frente de casa. (...)
Só eu conhecia o teu corpo, o percurso nele do meu prazer. Da tua beleza. É preciso um esforço, eu sei. É preciso uma atenção infinita para lhe descobrir o seu rasto. (...)
Lavo o teu corpo mas tu não estás lá. Lembro-me. Outrora vinhas de dentro de ti e chegavas até ao limite dos dedos, das unhas, dos cabelos. Estavas em todo o teu corpo e eu reconhecia-te. Na pele, nos gestos. Nos olhos eléctricos, vivacíssimos. Mas agora está só o teu corpo sem ninguém que se responsabilize por ele.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
síntese do sono
O Sono
O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.
O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.
Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.
Meu Deus, tanto sono!...
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Se eu atravessar uma aldeia a cavalo, não há dúvida de que vou mais depressa, mas se for a pé vejo mais coisas e os meus amigos podem convidar-me a entrar na sua cabana. Raramente se ganha em chegar mais depressa ao fim da viagem. O Papalagui corre sempre para um determinado fim. A maior parte das suas máquinas destina-se a fazê-lo atingir mais depressa esse fim. E mal ele o atinge, logo parte com outro destino. O Papalagui leva, pois, toda a vida a correr até perder o fôlego, e cada vez mais se esquece do que é andar, passear, caminhar alegremente para um fim que virá ao nosso encontro sem que o tenhamos procurado.
O Papalagui, p.86
O Papalagui, p.86
domingo, 28 de outubro de 2012
"E de súbito dei conta que estava sozinho. Olhei ao lado e tu não
estavas. Sozinho.
E o coral dos padres era incomodativo. Foi quando te
vi no espaço da Sé, rodavas à volta e no ar.
Não era talvez o teu exercício de ginástica, era uma coisa leve e doce que já não era ginástica mas estava para lá disso e era uma dança aérea, coisa alada. E estavas talvez nua e não se pensava na tua nudez. Os padres cantavam aquela música deles que é do céu e do inferno, música bela e terrível. E tu dançavas e eles não te viam, eu sim. (...) E tudo isto se ligava entre si mas eu não entendia, como em todo o mistério visível. Os cantos reboavam pelas arcadas da Sé e era muito doce ver-te dançar na eternidade. Sentia-me eu suspenso também, fora do meu peso terrestre."
Vergílio Ferreira, Em nome da terra, p.176
Pina Bausch, coreógrafa e bailarina (aqui, em "Café Müller"1978)
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
“No verdadeiro domínio da arte, porém, um valor novo quebra ainda a agressividade
da tragédia: a sua integração num plano universal, aí onde o nosso caso
concreto se dissolve e assume uma indizível necessidade,
aí onde, pois, reconhecemos o nosso destino e nos investimos dele.
Ter-se-á explicado tudo? Mas nada do que apenas é se explica.
E a arte simplesmente é...”,
Vergílio Ferreira, Espaço do Invisível I, Bertrand Editora, Lisboa, 1990, p.30
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