"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve", Vergílio Ferreira, Escrever
domingo, 31 de janeiro de 2021
do que é o amor nas noites de chuva
Ou tenho pesadelos ou não durmo. either way, o meu cérebro não descansa.
sábado, 30 de janeiro de 2021
Dos pesadelos, parte IV, 2º confinamento
estamos escondidos numa casa sem janelas.
tenho medo mas tu estás a sorrir-me.
Hitler dizima quem não lhe obedece. ofendo-te dizendo que o teu Deus é hitleriano e preconiza o fim de um mundo e a morte de pessoas como eu, a tua mulher, que não acredita nele.
o amor tem razões que a razão desconhece. sorrio-te também.
estrondo. apanham-me.
estou num cadafalso, uma multidão grita que é a vontade de Deus, mas também não é o teu.
conseguiste fugir. Hitler pergunta-me se desejo renunciar à esquerda e às actividades às quais me dedicava para abraçar a nova ordem e baptizar-me.
sorrio de novo. tu estás a sorrir-me e a abraçar-me a apertar-me as costelas e a pegar-me ao colo feliz, casámos.
passam-me as imagens pela cabeça, os meus olhos riem, iluminan-se.
não posso abdicar do amor e da liberdade. Hitler grita, aquele bigode ridículo, penso. sorrio serenamente. não, nunca abraçaria algo em que não acredito. nunca seria hipócrita.
morro.
acordo.
Dos pesadelos, parte III (2º confinamento)
é tarde na noite..
tu foste, pela calada, no escuro, buscar comida. vivemos escondidos num anexo sem janelas, com o Philos, outro gato amarelo que desconheço e um gato com cabeça de pinguim.
durmo, leio, danço, leio, danço durmo. procuro cozinhar qualquer coisa. tenho medo que não voltes.
tenho sempre.
tal como tu tens quando sou eu a sair.
vivemos escondidos porque a tua religião não é a vigente no país. vivemos escondidos porque eu, a tua mulher, não tenho religião e recuso-me a subjugar-me.
ajudo amigos lgbt, sou a favor da democracia e da liberdade, sou acusada de me ter manifestado pela liberdade conjugal. a vizinha da nossa antiga casa denunciou-nos.
tenho medo, mas tento sorrir-te e fazer amor contigo com o ânimo de outrora.
temos uma tartaruga, mas é de desenhos animados. estou a tentar limpar a banheira e o Philos e a Tartaruga brincam e não me deixam trabalhar. às tantas enfureço-me e atiro os dois pelo ar. a tartaruga parte a carapaça.
acordo a suar.
sábado, 21 de novembro de 2020
Remembering
Où est-tu maintenant?
Tu penses à moi quand tu t'endors?
Je t'imagine toujours à ma droite, en me souriant doucement "Tu veux venir à ta place?"
Tu es dans ma mémoire quotidienne, ton odeur en moi, je veux t' embrasser et rêver que je ne t'ai jamais perdu
sábado, 24 de outubro de 2020
As árvores morrem de pé
“Morta por dentro, mas de pé, de pé como as árvores”

Palmira Bastos, em As Árvores morrem de pé
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/as-arvores-morrem-de-pe-i-parte/
domingo, 30 de agosto de 2020
"o tempo de Deus não é o nosso, entendeu?"
Não sei ser só Juno, embora enraíze em mim a estrutura da partilha dual.
Não sei ser só uma coisa.
Não sei esperar que me digam o que fazer, como fazer.
Não sei.
Iluminar as sombras é surpreendente e, ao mesmo tempo, assustador; mudar de pele ao longo do crescimento vital é um processo transformador e doloroso, mas necessário.
"Nós iluminamo-nos nas sombras" e a idealização e admiração mútuas são belas, mas se não nos pusermos na pele um do outro, se não procurarmos ver o mundo, de quando em vez, pelo olhar do outro, o nevoeiro cinza manter-se-á.
Porque um aguenta o relâmpago, o outro não.
Dói como estalo a trovoada que se gera, o silêncio da escuridão parece mais fácil do que gritar na luz.
Nós somos dois signos cardinais, dois galos em teimosia a ver quem mais tempo se aguenta no poleiro e que, ao mesmo tempo, se dão as mãos para o outro não cair.
Simplesmente eu quero correr, sair da escuridão, arrancar-te dela e sei que saberei acompanhar-te na libertação ao encontro do teu eu, e tu pareces querer embrenhar-te mais um pouco na sombra de sempre, na zona de conforto.
Esperar.
Oh, tenho a minha lua negra tão exaltada, a minha fera Lilith a escorrer espuma das fauces turbulentas. Todas nós a temos, mas a minha Lilith cresceu, agigantou-se no desamor dos últimos anos, nos gritos e nas trevas nebulosas negras em que me deixei enredar. Mas Lilith tem o lado não-submisso que mesmo na luz guardarei.
Lilith abandonou Adão. ai não! virar costas e partir, dizer não à submissão.
Quando penso em Lilith, penso nas Sílfides dos Ballet Russes, criaturas da noite, aladas, que dançavam e associadas a demónios; e penso na dicotomia Odette/Odile do Lago dos Cisnes. E
E ela tem de existir para atingir o equilíbrio, só não deveria estar tão explosiva.
Curiosamente, a minha Lilith toca o teu Sol, é poderosa essa união, mas para caminharmos em harmonia devo saber lamber as minhas feridas ancestrais que oh! estão ainda em chaga.
I see you
I acknowledge you
I free you
Luto e caio e levanto-me e luto e caio e levanto-me.
E nessa varanda estrelada, uma deliciosa criatura, uma árvore de belas raízes disse-me: "filha, o tempo de Deus não é o nosso, entendeu?" Sorri, "não entendi, não", nem tinha como pois não tenho essa chama em mim. "A gente luta sempre, querida, mas só quando Deus quer é que surge". Mas é só chamar-lhe outro nome então (e Shakespeare não nos diz que a rose by any other name would smell as sweet?): quando os planetas se alinham (?), quando o eu está enfim preparado (?), quando o Universo se abre (?), não é quando a mente quer forçando-se a si e ao corpo porque no fundo, o tempo de Deus é quando tudo flui. Não importa o que lhe chamemos se designamos o mesmo e aqui o olhar mútuo poderá enfim compreender-se em plenitude.
Há anos que as palavras de Pablo Neruda se me incrustraram na pele:
"Si nada nos salva de la muerte, al menos que el amor nos salve de la vida".
E vou crendo n'Ele, no Amor. Porque Ele é Amor, não é assim?
Nem poderia ser algo diferente.
E o amor une. E mergulhar no teu peito é ser... é estar em casa.
terça-feira, 30 de junho de 2020
a lucidez dói tanto no rebate de uma raquete
Apolíneo e Dionisíaco
a dicotomia complexa de lidar no dia a dia.
Ter força interior e ela não sair. Alguém que me enxovalhou há demasiado pouco tempo disse que eu me contradizia. Cá está.
Acumula-se a raiva nos dentes, a tensão no pescoço e nos trapézios exacerba-se sempre.
Diónisos canta e bebe o vinho alegre ou transforma-se numa tempestade e leva tudo à sua frente. não se deixa pisar, que deus o faria na sua condição superior?
Apolo é a luz e tenho dias luminosos, em que vejo o Belo e o Bem, o Correcto, a Lealdade, o Amor, outros em que me afundo na escuridão, no meu ser ébrio e embrulhado nas trevas dos meus pensamentos. E está tudo bem, ambos são necessários, concomitantes, tangentes, são o par de dança mais completo.
Sou teimosa, digo.
Não, não és - diz a formadora com aquele tom de voz doce - ou, se és, não demonstras. Fazes as coisas de forma subtil com receio de erguer a tua voz. Posso pedir-te um favor? Pega numa raquete, escolhe à vontade.
Escolhi a maior e mais brilhante, prateada, era a de ténis. As minhas colegas que testemunharam ficaram incrédulas. Pois que gestos fiz eu? Como uma dança, movimentos amplos e suaves, mais o lado direito do que o esquerdo. Procurou-se equilibrar depois os dois lados, o formigueiro das mãos atenuou-se.
O meu olhar meio disperso. Dancei a dança das penas do badminton, como uma borboleta, "leve breve suave", Fernando Pessoa não diria melhor. Vamos, "dança a dança da manhã de hoje", parece que ouço o Poeta a falar comigo, já não com a Fada Oriana. Ninguém percebeu por que raio não atirei com força e por que não se sentiu o vento enquanto eu rebatia a bola imaginária. Porque não era feito com força e sim com suavidade, inaudível, pé ante pé, na leveza dos dias para evitar ser criticada. É esta então a minha dicotomia? Quero dizer o que penso e não sai cá para fora? Escolho a raquete de ténis, maior e com a qual devo fazer gestos mais assertivos, que atinjam o chão e marquem pontos e pego nela e manejo-a como uma raquete de badminton que atinge o volante para o manter sempre no ar sem atingir ninguém?
Oh, tantas vezes ela dizia, tantas vezes ela me disse, canta, que lo tienes ahí todo y tiene que salir. Não consigo cantar, porque me sei inferior no canto, porque sei que desafino, ao contrário de outros elementos da família que cantam, eu não o sei fazer. Mas eu sei que a voz já sai, ainda que seja apenas sob a forma de um suspiro saudoso, em memória das canções que ficaram por entoar.
Quando ferida, sai nas sombras da noite com uma força quase prepotente, dionisíaca, obscura, arreganha a dentuça face ao medo e ao futuro incerto. E não é ele sempre incerto? Parece alicerçar o quotidiano num sorriso matreiro, tal como o deus Diónisos que engana os marinheiros para depois lhes ofertar as mais belas vinhas.
Sei que consigo chegar à luz apolínea, já lá estive e ela está em mim, mas está soterrada no lodo. Não me digam o que fazer, não me acusem de mentiras.
Outra vez, outra vez... Bateste no fundo de novo.
Recomeça se puderes, mas desta vez sob angústia e alguma pressa. Ohh Torga... "Só é tua a loucura", sempre, e a lucidez dói tanto.
