terça-feira, 31 de maio de 2022

à escuta do corpo que somos

Gratidão ao Pe Paulo, por estas reflexões no Instagram, tão contrárias ao que tal plataforma preconiza de falsidade e ilusão.
Grata pelo texto, através dos olhos de um padre, sobre o amor, a homossexualidade, o divórcio, etc. (não fosse ele jesuíta...)

pauloduartesj

[Secção coisas de corpo] 

Foi publicado hoje no @pontosj.pt um texto que escrevi sobre Corpo. Aqui fica um excerto: 

“Ainda assim, que corpo é este? Quem somos nós em corpo? Parece-me fundamental tomar consciência deste sentido da existência enquanto corpo para se fazer reflexões sérias e adultas sobre temas complexos como os da afectividade e sexualidade. Ao ler e escutar discussões, opiniões e conversas sobre este tema, apercebo-me que ainda se vive a tensão dualista, onde, por um lado, se prima por uma pureza de alma, com a mais ou menos subtil castração, muitas vezes em nome de Deus. Por outro, uma hipersexualização da realidade, que reduz a pessoa a um mero objecto de prazer. Ambos extremos, causam danos sérios na pessoa e nas suas relações. Ajustando a realidade, parece-me importante encontrar a virtude no meio, através da integração da pessoa nas suas dimensões física, emocional, racional, relacional e espiritual.”

texto integral aqui

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Mais um murro no estômago

Pela frescura da manhã, poucos alunos hoje, mas assim também dá para conversar de forma mais pessoal.

Hoje vieram à baila os casamentos e o facto de os muçulmanos poderem casar com 4 mulheres. Riram-se quando eu disse que era injusto as mulheres não terem a mesma opção, ou comem todos ou há moralidade... 

Fora de brincadeiras, os mais velhos comentavam que não era bom, não havia equilíbrio quando é mais do que dois, o casal constrói-se nesse balance.

E soube que duas delas aguardam há dois anos para reunir com os maridos. Mais um murro no estômago. Abençoado Whatsapp, não é? Imaginem no tempo em que se escreviam cartas...

Há dois anos separados, retidos os maridos na Turquia e elas a fugir do Afeganistão para Portugal. A morrer de saudades diariamente sem saber quando poderão ver-se, separados por uma guerra.

Isto sim, é amor.

Tudo o que é afastamento voluntário por pequenas raivas e amuos e falta de comunicação não poderá nunca ser amor, nem aqui nem em lado nenhum, nem nesta vida, nem em nenhuma outra.

 


 

domingo, 29 de maio de 2022

et l'amour, toujours l'amour

J'avais besoin d'éclairer les choses, tu le savais...
mais je suis tombé dans des erreurs passés, c'est vrai
et toi? tu interprètes tout comme des fautes à moi
et tu oublies les tiens?

alors
pour toi
je ne suis plus que la folle femme qui a persécuté l'idée

et qui n'a reçu que des mensonges des personnes qui tu penses que sont tes amis


et toi? as tu raconté à tes amis que tu m'a menti? que tu as occulté
ton secret et qui a été précisément ton secret qui nous a séparés?
tu ne crois pas et, quand même, je ne fais confiance à personne comme je fais en toi
et maintenant

je t'ai perdu et tu m'a perdu aussi

car tu n'as vu que les sombres lugubres et moi, je n'ai vu que notre lumière
et l'amour, toujours l'amour
je pars d'une autre place et tu ne t'as donné la opportunité de me voir avec
des yeux de l' Amour
qui peut vaincre

Je t'embrasse pour toujours, mon ami, mon amant, mon compagnon

Adieu

terça-feira, 24 de maio de 2022

colher e acolher

Ai meninxs, que eu devia estar a estudar e estou deliciada em leituras.

"As mulheres e a solidão

Não creio que as mulheres tenham problemas de solidão. Estão preparadas para a solidão e, em geral, para toda a espécie de sofrimento; a natureza dotou-as com singulares poderes de resistência, o que os doutos alquimistas diziam ser humor frio e incapaz de maturidade intelectual. Acho mesmo que a solidão é um estado natural da mulher; e por isso todos os movimentos ascéticos que envolviam retiro e culto de experiência espiritual, desde as vestais de Roma às Damas do Amor Cortês, na Provença, partiam dum sentimento feminino muito acentuado. Os homens não encaram bem este protótipo de mulher espiritual, porque ele é o único que recria a independência feminina depois do primeiro Éden. E diz-se primeiro Éden porque, segundo as Escrituras, houve, antes de Eva, uma mulher mulher pura, inteligente e igual ao homem, de grande condição metafísica, porém cruel e sumamente poderosa. Chamava-se Lilith. Em suma, o mito da mulher fatal, que o homem teme e, ao mesmo tempo, pretende conhecer como sua verdadeira metade."

Agustina Bessa-Luís, in Dicionário Imperfeito

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"No começo era a grande Deusa e a Grande Deusa era a Terra e a Terra era a Grande Deusa, Lilith. 

Escrito num relevo sumério

Era uma vez uma mulher. Essa mulher era amada. Por ser amada, era reconhecida como inteira em si mesma. Por ser reconhecida, era livre para existir. Essa mulher vivia com os pés na terra e a cabeça nas nuvens, possuía todos os atributos de uma deusa. Era humana e ao mesmo tempo divina e havia algo de selvagem em seus olhos que nenhuma civilização ou religião poderiam domar. Por isso mesmo, essa mulher foi temida e, por ser temida, foi reprimida e banida do convívio dos demais. Ela foi queimada nas fogueiras da ignorância, amordaçada nas malhas da censura, presa nas correntes da indiferença. Após tantos séculos de repressão, aqueles que a haviam desprezado acreditavam que sua luz havia finalmente se extinguido; que sua natureza selvagem e aterradora havia desaparecido por completo. Porém, essa mulher faz parte da natureza, ela é a própria natureza e não pode ser aniquilada. De sua completude temos apenas resquícios mas ela sobrevive nas histórias e nos contos de fada e no fundo da alma de todos, homens e mulheres que sentem um profundo sentimento de vazio e solidão em suas vidas.

Clarissa Pinkola Estees

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No tempo actual, a voz da mulher junta-se ao coro de vozes discordantes da humanidade, tendo outras raízes - é uma flor gritante que vai dar frutos, mas tem de se aperceber disso e pensar melhor na relação com o Outro. Já nenhuma parede de vidro a protege. Agora, o diálogo das vozes é um novo e duro corpo a corpo: uma batalha que se desenha. E no fundo, ela quer vencer, ser uma nova Amazona, mas não deseja perder um seio. Não deve perder a feminilidade, a singularidade do seu ser, a origem da sua criatividade específica. O seu contributo é o espírito. Mesmo quando se transforma em acto, a sua mão não deve esquecer-se de que existe para colher e acolher. Essa é a capacidade específica da mulher: produzir, mas não reproduzir apenas.

Ana Hatherly, Entrevista ao DN"


Citações do Prefácio de Lilith, a Mulher Primordial, o Feminino e o Sagrado, de Rosa Leonor Pedro


 

Somos uns sortudos e nem sabemos

Agradecer, sempre!

Mimos pela manhã e assim vejo reconhecido o meu trabalho de uma forma doce e com a qual não contava, trabalho esse que não posso considerar trabalho, pois ensinar e ajudar é das coisas que mais amo fazer.

Tenho uma aluna com o mesmo nome que eu, mas com o sopro inicial Hana.

São da Síria, de Homs, uma cidade que foi completamente destruída. Já me emocionei a ver fotografias da cidade deles, outrora belíssima.

Já não é a primeira vez que Hana me traz algo no intervalo. Há tempos, quando aprendíamos a dizer o que gostávamos e não gostávamos e eu falei diversas vezes em café, trouxe-me, tal como os meninos antigamente ofereciam a maçã à professora, um termo de café árabe e biscoitinhos de tâmaras que ela tinha cozinhado. A Hana faz acessórios vários, carteiras, colares, pulseiras, anéis, brincos, de uma elegância incrível e hoje, no intervalo, surpreendeu-me com uma pulseira linda, feita por ela à mão e trouxe o telemóvel com frases escritas em árabe e a tradução portuguesa, para eu ler: "este presente feito por mim à mão, para a professora, pelo seu esforço".

Abracei-a com força, não tinha palavras, só me saía gratidão, gratidão, shukran, shukran, de emoção e voz embargada.

Esforço??? eu? esforço fizeram estas almas a vir desterrados para Coimbra, aprender uma língua linda mas complexa, a anos luz das suas casas e terra natal, fugidos de uma guerra pavorosa. Isso é um esforço, o medo, nem conseguimos imaginar, neste país "de brandos costumes, à beira mar plantado", no sossego das vinhas e dos pores do sol sobre o mar... não é? Somos uns sortudos e nem sabemos.

Eu não faço esforço algum, pois nada mais faço do que o que mais gosto. E não podia estar mais grata pela oportunidade. 

Amor, dedicação, admiração mútua, comunicam-se simplesmente, seja por palavras seja por gestos destes e estas duas (H)Anas fizeram-no.

Agradecer, sempre...

Shukran

(شكراً)


quinta-feira, 19 de maio de 2022

duas neuroses compatíveis

Além da magnífica metáfora da cadeira (tem de possuir 4 pernas sólidas: comunicação, honestidade, amizade e intimidade, ou seja, sexo a rodos; se retirarmos uma perna, a cadeira tomba) - "uma relação amorosa funcional é a junção de duas neuroses compatíveis" a trabalhar em equipa (citando João Tápia, Psicoterapia Corporal Biodinâmica e com laivos do je).