terça-feira, 16 de agosto de 2022

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

escrever porque sim

A poeta Ana Luísa Amaral faleceu há quatro dias, a 6 de Agosto.

Escrevia, segundo dizia, porque assim tinha de ser. Bem-Haja pela sua obra!


Assim se Revisita o Coração

Só mal tocando as cordas
Da memória
Consegue o coração ressuscitar

Porque era este lugar
que eu precisava agora
como em deserto até
ao infinito,
e de repente,
uma gravidez imensa,
um cacto verde e limpo

Porque os olhos conhecem
estes sons
de dar à luz o vento
e são-lhe amantes
de tangível luz

Só mal tangendo as cordas
da memória
como estas flores
se tingem de alegria

Porque era neste azul
que eu me queria
como a rocha transpira
e se resolve
em mar

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

irão estar sempre aqui

Ao V

Fui despedir-me de um amigo, na casa onde dou aulas. Uma enchente de amigos calorosos, um choro comum reunido. A mesma idade dos meus pais. Apertei o braço dos dois com força.

Ao abraçar a mulher e as filhas, recordei-me deste belíssimo poema, quando ela disse, "seremos sempre 4, e agora 5, um dia 6", referindo-se às netinhas.

Porque enquanto vivermos, as pessoas que nos são queridas e que recordamos viverão também.

na hora de pôr a mesa, éramos cinco

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Luís Peixoto, in 'A Criança em Ruínas'

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

um corpo que dança


Entre muitas outras informações preciosas que este documentário bem conseguido de Marco Martins nos traz, narra a história do Ballet Gulbenkian, de 1965 a 2005, cruzando-se com a vida portuguesa, no seio da ditadura salazarista, depois com Marcelo Caetano, a Pide, a Guerra Colonial, a Emigração em massa, o analfabetismo, a pobreza e a cultura elitista. 
Tão, mas tão bom, com imagens de arquivo da RTP inéditas, ver tantas figuras do mundo da dança, como Jorge Salavisa, Clara Andermatt, Vera Mantero, Olga Roriz, Vasco Wellemkamp, misturadas com Zeca Afonso, Carlos Paredes, Ramalho Eanes, Mário Soares...

É incrível o que os bailarinos da época procuraram criar, trazer para Portugal novas ideias, tornar a dança cultural, levá-la ao Portugal profundo e analfabeto, levar a mensagem da classe operária a palco, enfim, o muito que lutaram para tornar digno o ser-se bailarino, pois eram olhados de lado, nem era considerado profissão...

Maurice Béjart, conhecidíssimo coreógrafo francês, esteve a trabalhar com a companhia em 1968 e numa noite do seu espectáculo Romeu e Julieta, no Coliseu dos Recreios, que coincidiu com o dia do assassinato do presidente Kennedy, nos EUA, pediu um minuto de silêncio ao público, após o bailado, em nome também de todas as vítimas de todos os regimes fascistas. Escusado será dizer que, no dia seguinte, foi extraditado silenciosa e discretamente pela Pide, que o levou até à fronteira espanhola e o deixou lá, cancelando os restantes espectáculos. Béjart regressou, obviamente, depois de Abril de 74!

Porque dançar é respirar!

resumo: aqui

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Eid Mubarak



عيد مبارك

Na aula, contaram-me que sábado, domingo e segunda-feira é festa, Eid, uma festa muçulmana, em que agradecem a Deus a honra da vida. Hoje à noite, as raparigas adornam-se com henna na pele; no fim de semana vestem vestidos do Afeganistão e visitam-se, dançam, partilham comida.

Já me ensinaram os primeiros passos de Attan e convidaram-me a participar da roda.

Grata por tanta aprendizagem!

Attan Dance

you must learn to join the dance

Eid Mubarak a todos os meus alunos!!!

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Make Love Not War


 Bom saber que as teorias de Reich, o pai da Psicoterapia Corporal, também inspiraram este movimento!

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Tinder - a mais breve história de desamor

Maria Francisca franze o nariz. A sério? O tipo da toalha ao lado, que acabou de chegar à praia, mal se senta, liga o bluetooth do telemóvel a uma coluna... Tipo, não vim para ouvir música, não quero ouvir a tua música, não tens uns phones? Quando quero ouvir música, pago para ir a um concerto. Na praia fluvial gosto de ouvir as cigarras e o burburinho da malta na água.

Virei uma velha do Restelo, pensa. Foi como naquela sexta-feira, havia quase três semanas. Separada havia quatro anos, instigada por duas amigas por não ter tido ninguém, lá acedeu aos rogos de instalar aquela afamada aplicação no telemóvel. Eram 15h36 da tarde. Duas fotografias de rosto, o primeiro e o último nome, que raras vezes usava, se gostava de acampar, caminhadas, enfim, lá respondeu ao inquérito breve, clicou que não queria acrescentar mais nada ao perfil e abriu para ver como funcionava.

Choveram "olás" de moços com descrições como "uma jóia de rapaz, segundo a minha avó" ou pérolas como "Queres ser a minha Tinderella?". Contam-se pelos dedos de uma mão os verdes e mais de mil os NOPES. 

Trabalhou, lanchou, estudou, as notificações caíam vorazmente ao longo da tarde e ao serão. Maldisse as amigas e aquela ideia contra a qual lutara tanto tempo e, pelos vistos, com as suas razões. Não é para mim, está visto.

"Tão linda e tão longe!" (revirava os olhos de tédio).

"Olá, estás bem?" (não se lembrava de ter estado doente e aquela pessoa não a conhecia, mas adiante) "Olá Francisca, que idade tens?" (pimbas, este não sabe ler, a idade está lá escarrapachada... next)

Enfim.

O desencanto. Se a conversa não flui nem é interessante, não é um sorriso colgate que salvaria o dia. Tudo insípido, como se fazia a comida para os diabéticos, antes de se saber o que se sabe hoje. Oh sorte, pensou.

Nada, e nem é por uma prateleira de fotografias que se julga uma pessoa. Isto é difícil assim. Sou mesmo uma velha do Restelo. Tenho saudades de uma boa conversa, de um olhar, de uma mão a roçar na mão, para arrepiar o outro. Esconder-se atrás de um ecrã é tão fácil e ao mesmo tempo tão triste... 

Chegou a casa tarde das aulas, fatigada, começou a despir-se, a preparar-se para dormir. 

A lavar os dentes, choveu mais um plim plim da APP. Ena, espreitou ainda sem abrir, este escreveu um parágrafo inteiro. Pode ser que seja mais promissor.

Terminou de se arranjar e deitou-se nos lençóis frescos, abrindo a janela da conversa: "Olá Francisca! Tudo bem? Preferes sushi no restaurante ou pizza no sofá a ver TV?"

Tempuras, eu gosto é de tempuras. 

Morreu. Não dá. Clicou com o indicador persistentemente, durante uns segundos: "Desinstalar?" 

Sim, por favor. Olhou de soslaio para o relógio, eram 23h46, nem oito horas durara a APP. Desligou o candeeiro. Talvez um dia, por um acaso, esbarre com alguém de jeito, em presença, ao vivo, "à antiga". Deitada de bruços, abraçou a almofada e adormeceu.

Tinder, a mais breve história de desamor.