quarta-feira, 26 de outubro de 2022

eterno o movimento do teu corpo

Fica dentro de mim, como se fosse
eterno o movimento do teu corpo,
e na carne rasgada ainda pudesse
a noite escura iluminar-te o rosto.
No teu suor é que adivinho o rastro
das palavras de amor que não disseste,
e no teu dorso nu escrevo o verso
em pura solidão acontecido.
Transformo-me nas coisas que tocaste,
crescem-me seios com que te alimente
o coração demente e mal fingido;
depois serei a forma que deixaste
gravada a lume com sabor a cio
na carícia de um gesto fugidio.


António Franco Alexandre, DUENDE
(Poeta distinguido com o Grande Prémio de Poesia Diogo Bernardes, APE / Município de Ponte da Barca, 2022)








terça-feira, 25 de outubro de 2022

petit chou d'amour

Bougainvillé, Riachos, Torres Novas

 


À Clémence, Thierry, Philomène et Aloíce

la bougainvillée et l'avocat

Il était une fois, deux jeunes filles qui finissaient leur doctorat, une en géographie et l'autre en littérature portugaise. Elles se sont rencontrées chez un Airbnb où la deuxième attendait aussi ses cours de danse.

Elles ont partagés de la soupe, des marrons grillées et surtout des sourires, des idées philosophiques et de l'amour et de l'amitié, jusqu'à nos jours.

Le temps s'est passé, elles ont réussi leurs doctorats et la vie partagée continuait son chemin, de temps en temps au sud, de temps en temps au centre, avec des belles visites et des belles soirées. 

La petite Philomène est née et ils sont tous venus visiter les beaux monuments de la ville du nord. Après, la famille est allée vivre à la terre des chevaux. La pandemie l' a obligé d'être fermée et les visites repoussées, mais le monde est devenu plus riche avec la naissance d'Aloíce, un petit chou d'amour.

Et maintenant, le centre-nord visite finalement la terre des chevaux ailés, avec une belle bougainvillée dans la voiture et un avocat. C'est le cadeau pour le baptême d'Aloíce et elles vont planter l'arbre et la fleur toutes ensemble.

En dormant dans l'autocaravane, elle a été réveillée à l'aube par le son fort du coq chanteur. Elle souriait devant les merveilles du monde et son bonjour était le plus beau, en regardant les choses plus simples, les chants de la messe, les petits bras d'Aloíce qui l'embrassait et les plaisanteries de Philomène, les bras forts de Thierry qui la serraient et la tendresse de Clémence. 

Il n'y aura jamais des mots suffisantes pour montrer la reconnaissance et l'honneur d'avoir partager cet événement, la bougainvillée et l'avocat vont croître et les enfants vont grandir et nous n'oublierons jamais le geste collectif et amoureux de les planter et de les voir pousser.


domingo, 16 de outubro de 2022

las puertas de la vida

    



"O Sorriso", Photo by LS, Ponte de Lima

A  LS

TU RISA

Quítame el pan, si quieres,
quítame el aire, pero
no me quites tu risa.

No me quites la rosa,
la lanza que desgranas,
el agua que de pronto
estalla en tu alegría,
la repentina ola
de plata que te nace.

Mi lucha es dura y vuelvo
con los ojos cansados
a veces de haber visto
la tierra que no cambia,
pero al entrar tu risa
sube al cielo buscándome
y abre para mi todas
las puertas de la vida.

Amor mío, en la hora
más oscura desgrana
tu risa, y si de pronto
ves que mi sangre mancha
las piedras de la calle,
ríe, porque tu risa
será para mis manos
como una espada fresca.

Junto al mar en otoño,
tu risa debe alzar
su cascada de espuma,
y en primavera, amor,
quiero tu risa como
la flor que yo esperaba,
la flor azul, la rosa
de mi patria sonora.


Ríete de la noche,
del día, de la luna,
ríete de las calles
torcidas de la isla,
ríete de este torpe
muchacho que te quiere,
pero cuando yo abro
los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van,
cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire,
la luz, la primavera,
pero tu risa nunca
porque me moriría.

Pablo Neruda, cancioneiro 'Los versos del Capitán', 1952

meus olhos longos de escutar sem fim

SAUDADES TRÁGICO-MARÍTIMAS

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.
Na praia, de bruços,
fico sonhando, fico-me escutando
o que em mim sonha e lembra e chora alguém;
e oiço nesta alma minha
um longínquo rumor de ladainha,
e soluços,
de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

São meus Avós rezando,
que andaram navegando e que se foram,
olhando todos os céus;
são eles que em mim choram
seu fundo e longo adeus,
e rezam na ânsia crua dos naufrágios;
choram de longe em mim, e eu oiço-os bem,
choram ao longe em mim sinas, presságios,
de além, de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Naufraguei cem vezes já...
Uma, foi na nau S. Bento,
e vi morrer, no trágico tormento,
Dona Leonor de Sá:
vi-a nua, na praia áspera e feia,
com os olhos implorando
– olhos de esposa e mãe -
e vi-a, seus cabelos desatando,
cavar a sua cova e enterrar-se na areia.
– E sozinho me fui pela praia além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Escuto em mim, – oiço a grita
da rude gente aflita:
– Senhor Deus, misericórdia!
– Virgem Mãe, misericórdia!
Doidos de fome e de terror varados,
gritamos nossos pecados,
e sai de cada boca rouca e louca
a confissão!
– Senhor Deus, misericórdia!
– Misericórdia, Virgem Mãe!
e o vento geme
no bulcão
sem astros;
anoitecemos sem leme,
amanhecemos sem mastros!
E o mar e o céu, sem fim, além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Ah! Deus por certo conhece
minha voz que se ergue, branca e sozinha,
– flor de angústia a subir aos céus varados
p'la dor da ladainha!
Transido, o clamor da prece
do mesmo sangue nos veio
Deus conhece os meus olhos alongados;
onde o mar e o céu deixaram
um pouco de vago anseio
nesse mistério longo do seu halo...
Rezam em mim os outros que rezaram,
e choraram também;
há um pranto português, e eu sei chorá-lo
com lágrimas de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Ó meu amor, repara
nos meus olhos, na sua mágoa clara!
Ainda é de além
o meu olhar de amor
e o meu beijo também.
Se sou triste, é de outrora a minha pena,
de longe a minha dor
e a minha ansiedade.
Vês como te amo, vês?
Meu sangue é português,
minha pele é morena,
minha graça a Saudade,
meus olhos longos de escutar sem fim
o além, em mim...

Chora no ritmo do meu sangue, o mar

Afonso Lopes Vieira, Ilhas de Bruma, 1917


São Jorge, Açores, Junho 2022



domingo, 9 de outubro de 2022

O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou

Castelo da Lousã, fotografia de AS (5/10/2022)




SERRA-MÃE

O agoiro do bufo, nos penhascos,...
foi o sinal da Paz.
O Silêncio baixou do Céu,
mesclou as cores todas o negrume,
o folhado calou o seu perfume,
e a Serra adormeceu.

Depois, apenas uma linha escura
e a nódoa branca de uma fonte antiga :
a fazer-me sedento, de a ouvir,
a água, num murmúrio de cantiga,
ajuda a Serra a dormir.

O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou
e anda agora à procura, pela Serra,
da verdade dos sonhos que na Terra,
nunca alcançou.

E outros murmúrios de água escuto, mais além :
os Poetas embalam sua Mãe,
que um dia os embalou .

Na noite calma,
a poesia da Serra adormecida
vem recolher-se em mim.
E o combate magnífico da Cor,
que eu vi de dia :
e o casamento do cheiro a maresia
com o perfume agreste do alecrim ;
e os gritos mudos das rochas sequiosas que o Sol castiga
--passam a dar-se em mim .

E todo eu me alevanto e todo eu ardo.
Chego a julgar a Arrábida por Mãe,
quando não serei mais que seu bastardo.

A minha alma sente-se beijada
pela poalha da hora do Sol-pôr ;
sente-se a vida das seivas e a alegria
que faz cantar as aves na quebrada ;
e a solidão augusta que me fala
pela mata cerrada,
aonde o ar no peito se me cala,
descem da Serra e concentrou-se em mim.

E eu pressinto que a Noite, nesse instante,
se vai ajoelhar ...

...............................................


Ai não te cales , água murmurante !
Ai não te cales , voz do Poeta errante !

-- se não a Serra pode despertar.


Poema de Sebastião da Gama

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Creio no incrível, nas coisas assombrosas



Publicação de Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, I.P.

"Natália Correia nasceu no dia 13 de setembro de 1923 em São Miguel, nos Açores:

‘Creio nos anjos que andam pelo mundo’

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo
pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.


- Natália Correia, in ‘Natália Correia – Antologia Poética’



Foi poeta, dramaturga e jornalista, tendo deixado uma vasta obra que se estende por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio.

Organizou também várias antologias de poesia portuguesa como “Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses” ou “Antologia da Poesia do Período Barroco”. Com a sua personalidade carismática, desafiou as convenções, nomeadamente nos anos em que foi deputada na Assembleia da República. Na década de 80, foi autora da série “Mátria”, da RTP, que apresentava uma visão do lado matriarcal da sociedade portuguesa.

Recebeu o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores em 1991, pelo livro “Sonetos Românticos”. No mesmo ano, foi-lhe atribuída a Ordem da Liberdade. Em 1981, tinha já sido feita Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.

Morreu no dia 16 de março de 1993, em Lisboa."



sábado, 10 de setembro de 2022

vocação urgente




Co-criações, com Carlos Gomes (Maio 2022)


DÁ-ME AS TUAS MÃOS


As mãos foram feitas
para trazer o futuro,
encurtar a tristeza, encher
o que fica das mãos
de ontem - intervalos
(duros, fiéis) das palavras,
vocação urgente
da ternura, pensamento
entreaberto até
aos dedos longos
pelas coisas fora
pelos anos dentro.

Vítor Matos e Sá, in 'Companhia Violenta'