quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Fernando Namora, As frias Madrugadas

Nocturno

(...)
Noite...
(apetece-me repetir o teu nome)
alagaram a cidade com mistério
- que brutos, que brutos os deuses!,
sinto mãos viscosas, aranhiços
a bajularem-me os braços,
andam fantasmas à solta, pelas ruas,
ossos de uma brisa
de voz cava.

É noite.
Quem saberá distinguir
o teu e o meu grito,
a febre e o arrepio,
as carícias e os punhais?

Noite.
nesta rua onde me deslasso,
filósofo estremunhado,
há uma luz baça
que, ébria, tropeça
na calçada.

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