![]() |
| Francisco Matias, "Vista de Coimbra - neblina matinal" (exposição 7-21 Abril de 2001) |
Tinha 15/16 anos quando o conheci. Um sorriso que iluminava um semblante já de si doce, coroado por uma linda e farta cabeleira branca e um tom de voz de rádio.
As mangas azuis, de alpaca, para não manchar a camisa branca enquanto trabalhava. Um asseio, um aprumo, um cavalheirismo que conhecia também do meu pai e que me encantava.
Francisco Matias tinha uma deliciosa galeria de pintura no Girassolum, centro comercial centralíssimo na vida de Coimbra então.
Andava eu no Liceu Dona Maria, era jovem, romântica, escrevia uns poeminhas (que cheguei a publicar no jornal do Liceu) e desenhava (ou pensava eu que sim...).
Numa das aberturas inaugurais de uma exposição, num sábado de inverno chuvoso, a família almoçou na Vasco da Gama, restaurante que coroava o 3º e último piso do Centro Comercial e apresentou-se pontualmente às portas da Galeria, no 2º andar, às 15h, tal como dizia no convite.
Abriu-se um mundo de aguarelas maravilhosas e óleos com técnica de espátula, umas em tons outonais, outras azul pálido.
Percorri em silêncio a galeria duas vezes, enquanto diversas entidades a visitavam e cumprimentavam o pintor e os meus pais e a mana pequenina apreciavam os quadros e conversavam com o Senhor Matias amavelmente.
Estanquei diante de um quadro. Vista de Coimbra, neblina matinal e as lágrimas começaram a correr silenciosamente. Recordava-me de alguma forma o nevoeiro do meu Pedrógão, as ondas revoltas e, ao mesmo tempo (como pode um quadro encerrar tanta reminiscência) apertou-me no peito uma saudade do colo dos meus avós maternos e o ninho da infância, como se a Torre da Universidade albergasse em si mesma, na imagem do seu perfil recortado à luz dos primeiros tímidos raios da manhã de nevoeiro, não só o mar dos meus fins de semana, mas a sombra reconfortante do Mosteiro da Batalha.
Chorava calmamente e sorria diante do Belo. Veio o meu pai reconfortar-me e perguntou-me em vão por que chorava. O Senhor Matias sorriu e disse que aquele era o quadro de que mais gostava. Não pensara vendê-lo, mas se fosse para nossa casa, iria visitar-nos (e visitá-lo) com gosto. Com firmeza eu disse que era o quadro que mais gostava. O meu pai teve a bondade (e felizmente, podia fazê-lo) de pedir para embrulhar e levá-lo para casa.
Quando, pela primeira vez, saí de casa dos meus pais, aos 23 anos, a Neblina Matinal seguiu-me. Quando fui morar para a Fernandes Tomás, na Baixa de Coimbra, o quadro embrulhado com cuidado, foi pendurado na sala. Mais tarde, fui viver para os Olivais, onde permaneci 6 anos. Curiosamente, nunca cheguei a pendurá-lo. Nunca pensei que permanecesse naquela casa tanto tempo e o embrulho de papel pardo foi ficando adormecido no armário.
Mudei há dois meses para a Rua Natália Correia, regresso às origens, perto do ninho paterno. A casa maior, de paredes vastas brancas, recordou-me o quadro que merecia finalmente um lugar de destaque. É das primeiras coisas que se vê quando abrimos a porta.
Soube hoje de manhã que o Senhor Matias nos deixou. 5 de Setembro de 2018.
Afaguei a moldura do quadro e lembrei-me de uma visita tímida que lhe fiz um dia, quando saí das aulas da manhã do Liceu. Levava uma pasta azul comigo e um manto de vergonha em cima. Bati à porta, da Galeria, saudei um "Bom dia" baixinho, depois mais alto porque percebi que se afadigava na oficina atrás do biombo e lá apareceu a farta cabeleira, os óculos de massa, o sorriso: "Olha, a Anita! Que te traz por cá?".
A medo, perguntei se podia ler os meus poemas e apreciar os meus desenhos, aconselhando-me e dizendo-me francamente a sua opinião. Esperei num sufoco, em silêncio.
Elogiou as cores, criticou a forma como tinha desenhado as mãos das personagens (ainda hoje as mãos são para mim um tormento quando tento desenhar pares a dançar), cuidadosamente aconselhou-me a ter aulas de desenho, se assim o quisesse e afirmou sinceramente que precisaria de algum trabalho para atingir o que desejava.
Leu os poemas. Sorriu. Sobre a escrita disse apenas: nunca deixes de escrever.
A Galeria fechou anos mais tarde, o Senhor Matias reformou-se. O meu pai encontrava-o algumas vezes aqui na rua, mas nunca mais o vi, a não ser na luz do quadro sempre que o olho.
Corri a vasculhar, na despensa, uma enorme caixa onde tenho milhares de desenhos antigos, e encontrei a pasta azul com os desenhos. E noutra, finalmente, os meus poemas.
Francisco Matias escrevia também e houve um poema em particular que me deixou sempre encantada. Infelizmente ainda não consegui encontrá-lo no meio de tanta papelada desarrumada, mas terminava assim:
"Coimbra, és minha".
Dei por mim, há dias, a desenhar, de novo. Fui buscar os desenhos para os comparar aos da pasta, da Ana de há 16 anos atrás. "Ai estas mãos, ai tudo", lamentei-me... Mas sorri e decidi finalmente vir escrever esta linda memória antes de ir despedir-me deste Amigo.
“Não deixes que ninguém abandone o milagre de escrever.”
(Vergílio Ferreira, Escrever, 2001: 195).
![]() |
| Tentativas minhas de desenhar (Agosto de 2018) |


Sem comentários:
Enviar um comentário