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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Que pretendes?, perguntou em grego. Venho render-te, disse o homem.



  A sua viagem fora preparada com todo o pormenor. Aterrou no aeroporto de Hania, recolheu a mala, passou pelo balcão da Hertz, recolheu as chaves do carro. Três dias?, perguntou-lhe o empregado, atónito. Que tem isso de estranho?, disse ele. Ninguém vem a Creta fazer três dias de férias, respondeu o empregado com um sorrido. É um fim-de-semana prolongado, disse ele, para o que tenho de fazer, chega.
  Era bonita, a luz de Creta. Não era mediterrânica, era africana; para chegar ao Beach Resort levaria hora e meia, duas, no máximo, mesmo que fosse devagar havia de chegar pelas seis, um duche e punha-se logo a escrever, o restaurante do hotel estava aberto até às onze, era quinta-feira à tarde, contou pelos dedos: sexta, sábado, e domingo inteirinhos, três dias por inteiro. Era o bastante: já levava tudo escrito na cabeça.
  Por que virou à direita naquele semáforo era coisa que não saberia dizer. Os pilares da via rápida avistavam-se perfeitamente, a uns quatrocentos ou quinhentos metros entraria na marginal, a caminho de Heraklion. E no entanto, virou à direita, onde uma pequena placa azul assinalava uma localidade desconhecida. Pensou que já lá estivera, porque viu tudo num segundo: uma estrada ladeada de árvores com meia dúzia de casas, uma praça acanhada com um monumento desengraçado, uma moldura rochosa, uma montanha. Foi um fulgor. Uma daquelas coisas estranhas que a medicina não sabe explicar, disse para com os seus botões, chamam eles a isto déjà vu, algo que já se viu, nunca me tinha acontecido. Mas aquela explicação não o tranquilizou, porquanto o já vivido persistia, era mais forte do que aquilo que ele via, envolvia como uma membrana a realidade circunstante, as árvores, os montes, as sombras do entardecer, o próprio ar que respirava. Sentiu-se tomado por uma forte vertigem e receou ser sugado por ela, mas foi coisa de um instante porque, ao dilatar-se, aquela sensação sofria uma estranha metamorfose, como se uma luva, ao voltar-se do avesso, levasse consigo a mão que a protegia. Tudo mudou de perspectiva, num ápice experimentou a embriaguez da descoberta, uma náusea subtil e mortal melancolia.
  Mas também um sentimento infinito de libertação, como quando percebemos finalmente qualquer coisa que sabíamos desde sempre e queríamos ignorar: não era o já visto que o engolia num passado nunca vivido, ele é que o capturava num futuro ainda por viver. Enquanto conduzia naquela estrada rodeada de olivais a caminho das montanhas, sabia que a certa altura havia de encontrar uma velha chapa ferrugenta cravejada de buracos onde estava escrito: Monastiri. E que havia de segui-la. Agora tudo se tornara claro.

António Tabucchi, “Contratempo”, in O Tempo Envelhece Depressa, D.Quixote, 20094,  p.143