"O reconhecimento de um homem por outro homem, não do lado triunfante mas da humilhação, não do da alegria mas do sofrimento, não do da saúde mas de um corpo apodrecido (...) Mas é preciso olhar-me aí, ver-me aí metido no teu corpo, sem pensar muito no que está antes e depois", p.70
"Não me violentaram o corpo, foi ele que se desagregou. De todo o modo, acabou-se, meu irmão no sofrimento. (…) Gostava em todo o caso de saber como te aguentarias se te visses a apodrecer. Não te queixarias do Pai que te abandonou mas se calhar de todos os teus irmãos em humanidade. Ou talvez te queixasses só de ti, do teu corpo vil, porque só ele te tinha abandonado. (…) Mas não quero diminuir-te o sofrimento, que sempre é de
doer. Porque de todo o modo também apanhaste o teu cuspo. Não apenas dos
que te cuspiram mas do teu próprio corpo em ruína. Deves ter olhado as
tuas chagas e sentir-te ofendido na destruição do teu corpo, da tua
inteireza, do conforto que devias ter em sentir-te todo em ti. Porque só
um corpo destruído é tão humilhante", p.73
Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra, 2004, Bertrand Editores.
| Proveniente de Trás-os-Montes, possivelmente de finais do séc. XVII. Fotografia cedida pela Professora Berta Afonso. |