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terça-feira, 23 de junho de 2015

O plano inclinado: Vergílio Ferreira pelo Teatro O Bando


O plano inclinado: Vergílio Ferreira pelo Teatro O Bando



Ao João Diogo Loureiro


As primeiras impressões são mais do que agradáveis. Depois de um dia repleto de passeio, sol, pique nique e descanso museológico, saímos de Palmela bem indicados por um simpático desportista: a tarde caía já e o caminho deserto levava-nos até à sede do Grupo de Teatro O Bando.
Uma casa comprida no meio das árvores aparece-nos na estrada. Cortamos à direita na tabuleta e estacionamos. A vista para Palmela é lindíssima e tiramos algumas fotos aproveitando a luminosidade que torna quase postal o planalto do castelo. É cedo ainda, falta um quarto para as oito e já lá pousam dois automóveis. Subimos o caminho e as escadinhas e entramos num antigo celeiro todo decorado com chapéus de chuva coloridos, sofás pretos, almofadões. As vigas do tecto estão pintadas com poemas a letra gorda e redonda. À esquerda mesas meias postas, um balcão com petiscos. À direita uma mesinha com duas meninas a receber. Lá dizemos ao que vimos, as reservas feitas, querem petiscos ou o prato principal para jantar?, dois bilhetes. Lasanha e salada é o prato da noite, vinho a colmatar, mas os petiscos são ainda mais convidativos, o pão a espreitar da cestinha, o queijo, os pastelinhos de bacalhau. A sopa quentinha está divinal pois apesar do dia quente começou já a arrefecer e avizinha-se um serão fresco. Quando reservamos o bilhete por email, o grupo aconselha os espectadores a trazer roupa confortável e quente, mas que de qualquer modo, estarão sempre prevenidos com sacos cama e sacos de água quente… estranhamos a mensagem, mas vamos preparados com agasalhos, No carro, casacos a mais, uma camisola e meias. Em boa hora! Exploramos um pouco o terreno e caminhamos pelo monte e pela estrada, observando os carros que vão chegando. Voltamos para dentro, o celeiro enche e um rapaz de sobretudo encarnado vem tocar o sino e chamar a atenção do grupo que o circunda. Seguimo-lo, quase às escuras, monte acima, por outras escadinhas, outro edifício por trás, onde duas meninas nos entregam efectivamente um saco-cama e um saco de água quente a cada um. Aceito ambos e seguimos para fora desta segunda casa. Sentamo-nos na fila da frente de cadeiras e nada se vislumbra, apenas uma cerca alta dentro da qual se vê o topo de um carrinho de mão vermelho. A peça inicia com o queimar de incenso em dois grandes vasos de barro laterais.
Estamos numa plateia ao ar livre, crepitam as chamas, ouvem-se cigarras, estamos em plena Serra da Arrábida e o incenso é fortemente especial e entra pelas narinas fundido com o cheiro a terra, a luz ténue a iluminar os troncos de videira retorcidos em cima do carrinho de mão.
Ergue-se um homem sentado nos troncos, começa a peça, é João Vieira, o idoso a quem a filha coloca num lar. Surge a D.Felicidade, dona do lar, interpretada por uma actriz que se desdobra em muitas outras. Mais tarde, aparece a filha Márcia e o filho Teo, personagens planas que não se alteram, os dois principais desdobram-se em mil e desfilam aos nossos olhos: D Felicidade, Mónica, as enfermeiras, o Salus, as velhinhas do lar, o Holofernes, o Capelão, a voz do Cristo, a Voz da rádio salustiana, a médica que decide a amputação da perna. O Cristo é um tronco, ou dois, em cruz… tudo se conjuga no cenário, as roupas escuras, pretas, esfarrapadas, a lembrar o que é velho e destruído.
As cenas dos banhos são focadas, há banho de cinza, de terra, há o rio sempre evocado “ali em baixo” e muito bonito, na memória de quem não poderá lá voltar.
E “são horas” diz D.Felicidade, são sempre horas, do banho, do almoço, da visita, do banho de novo, são sempre horas e as horas passam e não voltam atrás, daí a velhice que caminha no suave plano inclinado que é o carrinho de mão. À medida que a noite avança, a escrita de João torna-se mais caótica, o titubear da cabeça, a baba quando come, sinais da sua visível deterioração que cresce ininterrupta e o carrinho de mão bascula, o palco inclina-se, João vai caindo, a cabeça mais baixa para o seu destino que é a terra. D.Felicidade/Mónica chama sempre “são horas” e são sempre horas e as horas passam e João repete, com voz cada vez mais sumida: “Já vou”.
Estremeço, conhecer a obra a fundo permite-nos vivê-la, se possível, mais ainda, mas também levar connosco expectativas que poderiam gorar o prazer da visualização, será que o encenador vai seleccionar esta cena? Será que vão repetir esta frase chave deste episódio? 
E o André que nunca está, o terceiro filho desterrado voluntariamente para parte incerta… Mónica, André - grita João. Já vou. São horas.
O céu estrelado da Serra da Arrábida, o carrinho de mão basculante guindado no ar, chia terrível e o plano quase já na vertical... D.Felicidade agarra-se como pode, ainda não é a sua hora, João reconhece que é tempo, a Morte dá a sua pancadinha no ombro, o sinal de que são horas e João responde “está bem”. Coloca dois pedaços de videira sobre os olhos numa imagem clássica das moedas de Caronte. Dobra os braços sobre o peito, corpo acabado, e o carrinho de mão na vertical, João desce, desce, resvalam os ramos de videira com estrondo, resvala João.
Engulo as lágrimas que brotam sem parar, levanto-me dentro do saco cama, cai-me o saco de água quente ao chão, ecoam as palmas pela Serra da Arrábida.
São horas.
Está bem.
Palmela, Domingo 24 de Maio de 2015,

Ana Seiça