quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Se eu atravessar uma aldeia a cavalo, não há dúvida de que vou mais depressa, mas se for a pé vejo mais coisas e os meus amigos podem convidar-me a entrar na sua cabana. Raramente se ganha em chegar mais depressa ao fim da viagem. O Papalagui corre sempre para um determinado fim. A maior parte das suas máquinas destina-se a fazê-lo atingir mais depressa esse fim. E mal ele o atinge, logo parte com outro destino. O Papalagui leva, pois, toda a vida a correr até perder o fôlego, e cada vez mais se esquece do que é andar, passear, caminhar alegremente para um fim que virá ao nosso encontro sem que o tenhamos procurado.


O Papalagui, p.86

domingo, 28 de outubro de 2012

"E de súbito dei conta que estava sozinho. Olhei ao lado e tu não estavas. Sozinho. 
E o coral dos padres era incomodativo. Foi quando te vi no espaço da Sé, rodavas à volta e no ar. 
Não era talvez o teu exercício de ginástica, era uma coisa leve e doce que já não era ginástica mas estava para lá disso e era uma dança aérea, coisa alada. E estavas talvez nua e não se pensava na tua nudez. Os padres cantavam aquela música deles que é do céu e do inferno, música bela e terrível. E tu dançavas e eles não te viam, eu sim. (...) E tudo isto se ligava entre si mas eu não entendia, como em todo o mistério visível. Os cantos reboavam pelas arcadas da Sé e era muito doce ver-te dançar na eternidade. Sentia-me eu suspenso também, fora do meu peso terrestre."

Vergílio Ferreira, Em nome da terra, p.176


Pina Bausch, coreógrafa e bailarina (aqui, em "Café Müller"1978)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

“No verdadeiro domínio da arte, porém, um valor novo quebra ainda a agressividade da tragédia: a sua integração num plano universal, aí onde o nosso caso concreto se dissolve e assume uma indizível necessidade, aí onde, pois, reconhecemos o nosso destino e nos investimos dele.
Ter-se-á explicado tudo? Mas nada do que apenas é se explica.
E a arte simplesmente é...”,

 
Vergílio Ferreira, Espaço do Invisível I, Bertrand Editora, Lisboa, 1990, p.30

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

21 de Junho (quinta) - Não passes mais na minha memória, não passes. Aquieta-te no sem-fim do lembrar. Para invenção de mim nas horas difíceis de abandono ao impossível que está sempre na minha memória sem razão. Não há realidade no real que relembro, porque essa realidade sou eu. Sossega no teu nada não voltes mais. O que escrevo não foi, é o absoluto do meu imaginar. Esfuma-te na balada que eu ouça, está só na sua música de pobreza e sê lá só a ficção de ti. Que a sombra que te trouxe te leve de novo para sempre. E a melancolia que nela vive seja a razão verdadeira de te esquecer.

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente, nova série II, Bertrand Editora, Lisboa, Abril de 1993, p.158

Ele há Manifestos



http://youtu.be/vpRJapo5xJI

Manifesto Anti-Cavaco, reescrito a partir do Manifesto Anti-Dantas pelo genial Mário Viegas,
 em 1995, respeitando e muito o texto de Almada Negreiros


http://blog-do-manel.blogspot.pt/2012/01/manifesto-anti-cavaco-escrito-por-mario.html

Aqui, o texto completo.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

queridos irmãos que não pensais

Nunca encontrei verdadeira tranquilidade e nunca senti, como então, tantas saudades da minha cabana de Samoa, onde só o que há é uma esteira e um rolo de dormir, onde só o que chega até mim é a suave brisa do mar...


É verdade que nós exercemos pouco o saber a que o Papalagui chama "pensar", mas a questão que se põe é a de saber qual dos dois é mais estúpido, se aquele que não pensa muito ou se aquele que pensa em demasia. O Papalagui não pára de pensar: "A minha cabana é mais pequena do que a palmeira; a palmeira verga-se por causa da tempestade; ou isto é o fragor da tempestade!" É assim que ele pensa no que o preocupa. Mas também ele próprio é objecto dos seus pensamentos. (...)
Mas o Papalagui pensa tanto, que o acto de pensar se tornou um hábito, uma necessidade, e até mesmo uma coacção. Vê-se obrigado a pensar continuamente. Só muito a custo consegue não fazê-lo e deixar viver todas as partes do seu corpo ao mesmo tempo.  Na maior parte do tempo vive apenas com a cabeça, enquanto os sentidos dormem um profundo sono. Muito embora isso o não impeça de andar normalmente, de falar, de comer e de rir, permanece fechado na prisão dos seus pensamentos - os quais são fruto da reflexão. Deixa-se por assim dizer embriagar pelos seus próprios pensamentos. Quando brilha um belo sol, logo ele pensa: "Que belo sol que está agora!" E continua a pensar, sempre a pensar: "Mas que belo sol!" Ora isso é falso,  absolutamente falso, é uma aberração, pois quando o sol brilha, vale mais não pensar em nada. Qualquer Samoano sensato irá estender e aquecer o seu corpo ao sol, sem mais reflexões. E goza do sol não só com a cabeça, mas também com as mãos, com os pés, com as coxas, com o ventre, em resumo, com o corpo todo. Deixa a sua pele e os seus membros pensarem por si próprios, e eles pensam à sua maneira, por certo diferente da da cabeça. Os pensamentos barram amiúde o Papalagui, como um grande bloco de lava impossível de deslocar. (...)
O Papalagui é, regra geral, um ser vivo dominado por uma perpétua luta entre os seus sentidos e o seu espírito, um ser humano dividido em dois. (...)
Há, de resto, muitas maneiras de pensar e toda a espécie de alvos convém às setas do espírito. Que triste sorte a do homem que pensa em coisas tão longínquas como por exemplo: "Que irá acontecer amanhã, ao alvorecer do dia?" (...) É tão vã esta maneira de pensar, como é vão tentar ver o sol de olhos fechados, não se consegue. (...) Foi atingido pela grave doença de estar sempre a pensar.
Na Europa, dizem que este modo de proceder torna o espírito mais aberto e sedutor. Quando alguém pensa muito e com rapidez, diz-se que é uma grande cabeça. (...)
Nunca ninguém conseguiu trepar mais alto do que o cocoruto da palmeira a que se agarrou; chegando ao cimo teve que parar, por não haver mais tronco a que se agarrar para continuar a subir. Além do mais, o Grande Espírito não gosta da curiosidade dos homens; é por isso que estendeu, sobre todas as coisas, grandes lianas sem princípio nem fim. Eis a razão pela qual todo o indivíduo que siga até ao fim o fio dos seus pensamentos, se vê forçado a reconhecer que nem por isso ficou a saber algo mais (...)
Mas a maior parte dos doentes do pensamento persiste na sua voluptuosa paixão. (...)
Ser instruído significa: atravancar a cabeça com saber, até ela quase estoirar. (...) Todo o Papalagui tem por obrigação, acima de tudo, saber e pensar. (...)
Queridos irmãos que não pensais (...) será que realmente desejareis imitar o Papalagui e aprender a pensar como ele? Por mim digo "Não!" Pois devemos evitar tudo o que não fortifique o corpo (...) Acautelemo-nos, sobretudo, contra tudo o que nos possa fazer perder a alegria de viver, contra tudo o que possa ensombrar-nos o espírito, roubando-lhe a sua luz radiante...

O Papalagui, discurso de Tuiavii chefe de tribo de Tiavéa nos mares do Sul, trad. de L. Jorge, Edições Antígona, Lisboa 1988 (9ª ed), pp.111-120

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Trago na palma da mão a luz diurna: e a ferida no flanco.
O meu deus, o meu demónio, respira fundo e alto. 
Ela, a minha múltipla companheira,
é uma coluna silenciosa e ardente. 
A luz sela esta aliança entre o sopro e a matéria 
e uma voz se eleva nos barcos do silêncio.

António Ramos Rosa, "Três lições materiais", Antologia poética (1989)