sábado, 16 de março de 2013

Escada horizontal. Cilindro curvo.

A nave de Alcobaça

Alcobaça, 13 de Janeiro de 2013, foto de AS&LM

Vazia, vertical, de pedra branca e fria,
longa de luz e linhas, do silêncio
a arcada sucessiva, madrugada
mortal da eternidade, vácuo puro
do espaço preenchido, pontiaguda
como se transparência cristalina
dos céus harmónicos, espessa, côncava
de rectas concreção, ar retirado
ao tremor último da carne viva,
pedra não-pedra que em pilares se amarra
em feixes de brancura, geometria
do espírito provável, proporção
da essência tripartida, ideograma
da muda imensidão que se contrai
na perspectiva humana. Ambulatório
da expectação tranquila.
Nave e cetro,
e sepulcral resíduo, tempestade
suspensa e transferida. Rosa e tempo.
Escada horizontal. Cilindro curvo.
Exemplo e manifesto. Paz e forma
do abstracto e do concreto.
Hierarquia
de uma outra vida sobre a terra. Gesto
de pedra branca e fria, sem limites
por dentro dos limites. Esperança
vazia e vertical. Humanidade.

Jorge de Sena, Araquara, 27/11/1962

segunda-feira, 4 de março de 2013

"-Olha- queres ouvir-me?"

Ao Tó João


"Hoje as aves nem cantam" (Carolina)

"(...)

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

(...)


Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves"


Eugénio de Andrade, Poema à Mãe, in Poesia, Modo de ler, 2011, p.58

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

um templo, um poema

Imagem aqui
O Mosteiro da Batalha

"(...)

E ei-lo aí que se levanta
Com majestosa grandeza,
Daquela gentil proeza
Sublime recordação:
Ei-lo aí aos céus erguido,
Como um colosso gigante
Apontando ao caminhante
O sítio da grande acção.

Altos pórticos, lavores
D'ostentosa arquitectura,
Coruchéus d'imensa altura
Roçando a fronte nos céus;
Dentro, a nobre majestade
Do santuário profundo,
Onde, extinta a voz do mundo,
Só lembra o passado, e Deus.

Sobre os góticos pilares
Brilham trémulos fulgores,
Que das vidraças de cores
Entorna a mística luz.
Tudo cala, mas, se o órgão
Por entre as naves ressoa,
Tudo se anima, e apregoa
O santo Verbo da cruz.

Então a mente se enleva
Nas torrentes da harmonia
Que da abóbada vazia
Retumbam pela multidão;
E, abrasada nos fulgores
Dos vivos, sagrados lumes,
Sobre as asas dos perfumes
Revoa à etérea mansão.

Se tudo cai em silêncio,
Cai em si mesma, e medita,
Recordando a data escrita
Nesses góticos umbrais.
Pensa então nos heroísmos,
E crenças de meia idade,
Combatendo a escuridade
Daqueles tempos feudais;

(...)

E pensa também no artista,
Nesse arquitecto inspirado,
Que um poema sublimado
Ali traçou a cinzel;

(...)

Que as gerações passando reverentes
Possam, volvendo as páginas da história,
Largas eras saudar, curvando as frentes,
Esse padrão d'imerredoira glória!"


Soares de Passos, Poesia, Colecção Mnésis, Assírio Bacelar 1983, pp.165-171.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A vida zumbe à volta/ das pétalas fechadas dos sentidos

Epithalamium

 I

As persianas todas abre e o dia deixa entrar
como um ruído ou um mar.
Que da inútil sombra nenhum recanto
os pensamentos da noite constranja
ou o confronto traga
de algumas coisas serem tristes.
Porque hoje é o dia de todos se alegrarem.
É manhã! É a plena manhã! Inteiro
o sol nasce do abismo onde
por trás da oculta orla da sombra do horizonte
ontem à noite mergulhou.
(...)

Fernando Pessoa, "Epithalamium", English Poems III, tradução de Natália Correia, in Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e SatíricaDos Cancioneiros Medievais à actualidade, Antígona&Frenesi, Lisboa 1999, p.350.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Pretextos para fugir do real

A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher
E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência 
Nua nos meus braços

              *

Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos



Alexandre O´Neill
Poesias Completas
1951/1981
Biblioteca de Autores Portugueses
Imprensa Nacional  Casa da Moeda

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Mar, Mar e Mar

Tu perguntas, e eu não sei,
eu também não sei o que é o mar.

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos
ao reler uma carta, quando é de noite.
Os teus dentes, talvez os teus dentes,
miúdos, brancos dentes, sejam o mar,
um mar pequeno e frágil,
afável, diáfano,
no entanto, sem música.

É evidente que a minha mãe me chama
quando uma onda e outra onda e outra
desfaz o seu corpo contra o meu corpo.
Então o mar é carícia,
luz molhada onde desperta
meu coração recente.

Às vezes o mar é uma figura branca
cintilando entre os rochedos.
Não sei se fita a água
ou se procura
um beijo entre conchas transparentes.

Não, o mar não é nardo nem açucena.
É um adolescente morto
de lábios abertos aos lábios da espuma.
É sangue,
sangue onde a luz se esconde
para amar outra luz sobre as areias.

Um pedaço de lua insiste,
insiste e sobe lenta arastando a noite.
Os cabelos da minha mãe desprendem-se,
espalham-se na água,
alisados por uma brisa
que nasce exactamente no meu coração.
O mar volta a ser pequeno e meu,
anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.

Eu também não sei o que é o mar.
Aguardo a madrugada, impaciente,
os pés descalços na areia.


Eugénio de Andrade, "As palavras interditas", in Poesia, Modo de Ler, Abril 2011, pp.83-84

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

eras novo ainda

mal sabia reconhecer os teus própios erros

e o uso violento que de noite eu fazia deles

esta cama de minerais acesos

escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo

escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca

e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido

onde a memória te imobilizou

enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis

surpreendo-te quando me surpreendes

pela janela espio a paisagem destruída

e o coração triste dos pássaros treme

quando escrevo mar

o mar todo entra pela janela

onde debruço a noite do rosto tocado...me despeço 
 

Al Berto
[eras novo ainda] 

Infelizmente, não consigo decifrar a que obra pertence


Pelo aniversário de Al Berto, Alberto Raposo Pidwell Tavares, nascido a 11 de Janeiro de 1948, na minha cidade, Coimbra. Não é à toa que somos do mesmo dia, com 37 anos de diferença: ambos compreendemos tão bem o mar.