sexta-feira, 4 de julho de 2014

Grita comigo

"Merda para a choradeira!
- Grande é o homem e a vida, meu caro! Limpa o rabo a isso!
Apressa-te, apressa-te! A vida urge, a vida não espera. Que cretinice, por exemplo, dizeres "faz hoje dois anos que vim para a Universidade" ou "daqui a três anos estou formado". Não digas! Não digas! Não digas que "faltam três anos para que a minha formatura seja uma coisa morta". Grita comigo, não que "faço hoje vinte e três anos" mas que "faz hoje vinte e três anos que eu estava para ser o que vou ser hoje". Grita comigo qualquer coisa que não seja a morte antes da morte."

Vergílio Ferreira (1990), Apelo da Noite, Venda Nova, Bertrand Editora, p.25.

domingo, 22 de junho de 2014

Aqui, no Pedrógão


Faço minhas estas palavras

“Há coisas que nos marcam para sempre. Uma imagem, um cheiro, um som, uma palavra, um silêncio.
O Pedrógão também me marcou para sempre. O seu Mar imensamente azul, e aquele seu Sol que sempre nasce tímido, mas que se põe encostado ao azul das águas, deslumbrado, foram, quantas vezes, os meus companheiros!...
No Pedrógão passei muitos dos meus tempos de lazer, mas também de reflexão para a acção. (...) Aqui, no Pedrógão, encontro um sol que se põe em paz por entre tons de vermelho e de amarelo vivos, renasço em felizes e saudosas recordações de outros tempos, revivo momentos de felicidade simples, esqueço-me do dia de amanhã, das filas de trânsito, do egoísmo mesquinho de alguns e da perfídia maldosa de tantos outros.
Aqui, no Pedrógão, construo a utopia do espírito de solidariedade, da vivência da amizade, de partilha de sentimentos e de experiências. Este sítio é, para mim, como que a mesa de café onde me encontro com amigos e discuto de tudo... é o porto de abrigo onde atraco o meu barco viageiro para refazer forças... é a box onde encosto o carro da vida quando finalizo mais uma corrida...
Quando era muito novo, e só vinha no mês de Agosto, a chegada era um alvoroço mas a partida era dolorosa. Sentado no paredão da esplanada, pensava, olhando o mar, como teria começado tudo aquilo, quem teria sido o primeiro habitante e por que teria escolhido aquele sítio de sonho, entregue às gaivotas, aos ventos e às espumas.
Lá estão elas, acima do mar e da costa, brancas, ligeiras, finas. Elas voam, puras e livres, como eu gostava de ser!...”

António Inácio Nogueira, Praia do Pedrógão, Locais, Gentes e Memórias, Magno Edições, 2006, partes do Prefácio.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Mais

Mais do que tudo, odeio
Tantas noites em flor da Primavera,
Transbordantes de apelos e de espera,
Mas donde nunca nada veio.



Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética I, Caminho

quinta-feira, 20 de março de 2014

também apanhaste o teu cuspo

"O reconhecimento de um homem por outro homem, não do lado triunfante mas da humilhação, não do da alegria mas do sofrimento, não do da saúde mas de um corpo apodrecido  (...) Mas é preciso olhar-me aí, ver-me aí metido no teu corpo, sem pensar muito no que está antes e depois", p.70

"Não me violentaram o corpo, foi ele que se desagregou. De todo o modo, acabou-se, meu irmão no sofrimento. (…) Gostava em todo o caso de saber como te aguentarias se te visses a apodrecer. Não te queixarias do Pai que te abandonou mas se calhar de todos os teus irmãos em humanidade. Ou talvez te queixasses só de ti, do teu corpo vil, porque só ele te tinha abandonado. (…) Mas não quero diminuir-te o sofrimento, que sempre é de doer. Porque de todo o modo também apanhaste o teu cuspo. Não apenas dos que te cuspiram mas do teu próprio corpo em ruína. Deves ter olhado as tuas chagas e sentir-te ofendido na destruição do teu corpo, da tua inteireza, do conforto que devias ter em sentir-te todo em ti. Porque só um corpo destruído é tão humilhante", p.73

Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra, 2004, Bertrand Editores.

Proveniente de Trás-os-Montes, possivelmente de finais do séc. XVII. Fotografia cedida pela Professora Berta Afonso.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A Dança, de Carpeaux

imagem aqui
A escultura de Jean Baptiste Carpeaux foi esculpida entre 1865 e 1869:  5 figuras femininas, ninfas que dançam em torno de um jovem músico com uma pandeireta, a alegoria da Dança.

O trabalho foi encomendado para embelezar a Fachada da Ópera Garnier de Paris, no entanto, aquando da sua inauguração, foi considerada um escândalo na época, ofensiva devido à esplícita nudez e foi inclusive alvo de destruição pelo público que procurou danificá-la com tinta. Mais tarde, foi realizada uma cópia e a original guardada no interior da Ópera, anos depois no Museu do Louvre, juntamente com outras obras de Carpeaux. Encontra-se, hoje em dia, no Museu d'Orsay.

O autor idealizou uma imagem de dança que não se coadunava com os padrões rígidos do ballet clássico que se dançava na Ópera de Paris. A dança aqui adquire uma energia e uma força inigualáveis, as criaturas giram em torno da figura central, as cabeças para trás, os cabelos soltos, o rosto a rir, leve e descontraído, quase parece que as mãos se vão soltar a qualquer momento e que as estátuas sairão dali a rodopiar.

Para os interessados em pormenores estéticos e históricos:  vídeo 1 e vídeo 2.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio.

Forte de S.Julião da Barra, fotografia minha, 22 de Fevereiro de 2014

à avó Rosária, 24 anos depois


"(Acende-se um foco pouco intenso que ilumina
Matilde e Sousa Falcão. Matilde veste uma saia
verde e Sousa Falcão está inteiramente vestido de
negro.)

MATILDE
(Com amizade)

Ele ainda está vivo, António. Não devia ter
vindo de luto. Olhe: vesti a minha saia verde. Vê?

(...)

MATllDE
O clarão da fogueira! Quando o virmos, já ele
está aqui ao pé de nós! Foi para o receber que eu
vesti a minha saia verde!

(Pausa)

Vem dizer-nos adeus, António, vem abraçar-nos pela última vez.
Nunca partiu para uma batalha sem se despedir
de mim e, agora, que se acabaram as batalhas,
vem apertar-me contra o peito!
Quer que o veja pela última vez de uniforme, o
uniforme que eu o ajudava a vestir antes das
batalhas...

(...)

Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio.
Aquela fogueira, António, há-de incendiar esta
terra!

Adeus, meu amor, adeus. Adeus! Adeus! Adeus!

(...)


Felizmente há luar!
(É quase um grito)."

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente há luar,

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

é outra coisa

Não é o fantástico que pretendo, porque o fantástico é muitas vezes um real de fantasia. É outra coisa, o desajustamento subtil do imediato que nos dá um brevíssimo arrepio.

Vergílio Ferreira, Conta- Corrente 3, Lisboa, Bertrand, 1983, p.406.