domingo, 22 de março de 2015


O acto de ler reabre feridas. Nos livros
em que isso acontece, com frequência,
poderia ao menos haver um aviso na capa;
assim como se faz com as carteiras de tabaco,
embora se saiba que poucos deixam
de fumar
por isso.


Teresa M. G. Jardim
in Jogos Radicais

quarta-feira, 11 de março de 2015

Agora as Palavras

Obedecem-me agora muito menos
agora as palavras. A propósito
de nada resmungam, não fazem
caso do que lhes digo,
não respeitam a minha idade.
Provavelmente fartaram-se da rédea,
não me perdoam
a mão rigorosa, a indiferença
pelo fogo-de-artifício.
Eu gosto delas, nunca tive outra
paixão, e elas durante muitos anos
também gostaram de mim: dançavam
à minha roda quando as encontrava.
Com elas fazia o lume,
sustentava os meus dias, mas agora
estão ariscas, escapam-se por entre
as mãos, arreganham os dentes
se tento retê-las. Ou será que
já só procuro as mais encabritadas? 


Eugénio de Andrade, O Sal da Língua

quinta-feira, 5 de março de 2015

(que os meus egrégios avós me perdoem)

Portugal 
 Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude eu apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

Jorge Sousa Braga
Em De Manhã Vamos Todos Acordar Com Uma Pérola No Cu, 1981

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

com uma esferográfica cravada no coração

Mais Nada se Move em Cima do Papel

mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto, “O Medo”

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Segurar a mãos ambas um sentido para tudo isto

-Conhecias o Pina? Sim, o noivo da Ester. Teve um desastre, operei-o, morreu.
-O Pina...?
Mas reagiu prontamente, animando o marido:
- Fizeste o que pudeste, tenho a certeza. Porque te afliges?
-Tinha vísceras esmagadas, um braço esmagado, Paula. Operei-o, morreu. Ia casar em breve. Morreu.
Ela ficou em silêncio, de mãos dadas no regaço, e a noite cresceu entre eles - uma noite maravilhosa, absoluta, fremente de memórias. "Recuperar a vida com a morte no meio. Acreditar, embora se saiba que se acredita no nada. Tão difícil. E tão raivosamente necessário.".
-Se tu tocasses um pouco, Paula.
-Mas tu... Tão tarde, Cipri. Os filhos dormem.
-Baixinho.
Paula não tocou. Mas armou o gira-discos, regulou a intensidade do rádio. E a noite revelou-se numa profunda harmonia, como uma verdade tranquila. Cirpiano abriu as janelas para a cidade, para o rio ao longe, olhou ao alto, no céu húmido, pelos espaços abertos entre as nuvens, o brilho fugitivo das estrelas. "Segurar a mãos ambas um sentido para tudo isto. E ser feliz na resignação". Bach cantava. Cantava nos limites do universo para a luz fria dos astros, para o silêncio dos espaços, fechado de recolhimento, de melancolia grave. E Cipriano, segurando a mão de Paula, sentia comovidamente que o mistério do mundo, da vida e da morte, se revelava a seus olhos, apaziguado, como uma simples flor aberta...

Vergílio Ferreira (1982), Cântico Final, Círculo de Leitores, p.118.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Que pretendes?, perguntou em grego. Venho render-te, disse o homem.



  A sua viagem fora preparada com todo o pormenor. Aterrou no aeroporto de Hania, recolheu a mala, passou pelo balcão da Hertz, recolheu as chaves do carro. Três dias?, perguntou-lhe o empregado, atónito. Que tem isso de estranho?, disse ele. Ninguém vem a Creta fazer três dias de férias, respondeu o empregado com um sorrido. É um fim-de-semana prolongado, disse ele, para o que tenho de fazer, chega.
  Era bonita, a luz de Creta. Não era mediterrânica, era africana; para chegar ao Beach Resort levaria hora e meia, duas, no máximo, mesmo que fosse devagar havia de chegar pelas seis, um duche e punha-se logo a escrever, o restaurante do hotel estava aberto até às onze, era quinta-feira à tarde, contou pelos dedos: sexta, sábado, e domingo inteirinhos, três dias por inteiro. Era o bastante: já levava tudo escrito na cabeça.
  Por que virou à direita naquele semáforo era coisa que não saberia dizer. Os pilares da via rápida avistavam-se perfeitamente, a uns quatrocentos ou quinhentos metros entraria na marginal, a caminho de Heraklion. E no entanto, virou à direita, onde uma pequena placa azul assinalava uma localidade desconhecida. Pensou que já lá estivera, porque viu tudo num segundo: uma estrada ladeada de árvores com meia dúzia de casas, uma praça acanhada com um monumento desengraçado, uma moldura rochosa, uma montanha. Foi um fulgor. Uma daquelas coisas estranhas que a medicina não sabe explicar, disse para com os seus botões, chamam eles a isto déjà vu, algo que já se viu, nunca me tinha acontecido. Mas aquela explicação não o tranquilizou, porquanto o já vivido persistia, era mais forte do que aquilo que ele via, envolvia como uma membrana a realidade circunstante, as árvores, os montes, as sombras do entardecer, o próprio ar que respirava. Sentiu-se tomado por uma forte vertigem e receou ser sugado por ela, mas foi coisa de um instante porque, ao dilatar-se, aquela sensação sofria uma estranha metamorfose, como se uma luva, ao voltar-se do avesso, levasse consigo a mão que a protegia. Tudo mudou de perspectiva, num ápice experimentou a embriaguez da descoberta, uma náusea subtil e mortal melancolia.
  Mas também um sentimento infinito de libertação, como quando percebemos finalmente qualquer coisa que sabíamos desde sempre e queríamos ignorar: não era o já visto que o engolia num passado nunca vivido, ele é que o capturava num futuro ainda por viver. Enquanto conduzia naquela estrada rodeada de olivais a caminho das montanhas, sabia que a certa altura havia de encontrar uma velha chapa ferrugenta cravejada de buracos onde estava escrito: Monastiri. E que havia de segui-la. Agora tudo se tornara claro.

António Tabucchi, “Contratempo”, in O Tempo Envelhece Depressa, D.Quixote, 20094,  p.143


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A Avó Luisette


A Avó Luisette

Por vicissitudes várias, desencontros, quezílias familiares, outros absurdos, a Avó Luisette, avó paterna, nunca foi uma Avó presente até eu me indignar do alto dos meus 12 anos rebeldes e decidir que, como todos os adolescentes, queria voltar a dizer a frase tão natural: “Vou a casa da Avó”.
E fui mesmo, a casa dos Avós, aliás.
Breve foi o nosso encontro, uma vez mais por vicissitudes várias, desencontros, quezílias familiares, outros absurdos, mas a Avó Luisette esteve, está e estará sempre presente, sobretudo nas pequenas coisas que são as que não se esquecem nunca.
Nos meus doze, treze, catorze anos rebeldes e pouco femininos, via uma Avó bonita, de brincos e colares de pérolas e verniz cor-de-rosa nas unhas. Não esqueço o dia em que me colocou o colar ao pescoço e me pavoneei casa fora sentindo-me uma senhora.
A Avó Luisette foi a avó que me ensinou os sinais de trânsito, que me ensinou a fazer ovos mexidos! (Pudera! Quando não se podia comer ovos mexidos ao lanche, em casa, porque os pais proibiam, aproveitava-se para fazer essas maroteiras em casa dos Avós com os primos! E com que alegria eles nos deixavam! O Avô Rui até fotografias disso tirava!)
Todos os dias faço ainda questão de escrever à mão, apesar do uso diário do computador, porque não esqueço a caligrafia linda que a Avó tinha e o brio que me incutiu de manter sempre a minha também! Guardo as primeiras cartas que me foram endereçadas, com o destinatário “ Ao cuidado da Exma Menina Ana Maria”, escritas do Pedrógão pela letra bonita da Avó! E lá estão guardados os postais que eu lhe mandava, com o Mickey, e a falar de bandas de música e das férias, os primeiros escritos que enviei por correio!
Foi ainda a Avó Luisette que me ensinou a bordar...Ponto de Cruz, Ponto Pé de Flor... Crochet é que a Avó não conseguiu, não por falta de mérito pedagógico seu, mas pela minha azelhice com as agulhas! Mas ainda hoje, sempre que possível, lá sai mais um bordado...
Não sei se terei filhos, muito menos netos, mas sei que eles vão saber quem foi a Avó Luisette e o que me ensinou, e só espero ter o sorriso e a paciência para transmitir esses ensinamentos como ela teve para comigo, paciência infinita para escutar as minhas ininterruptas perguntas, a minha vontade teimosa e para ter-me concedido tratá-la por "Tu", por muito que lhe fosse estranho.
Bem-haja.

Ana Seiça Carvalho
Valência, 13 de Outubro de 2014