A Avó Luisette
Por vicissitudes várias,
desencontros, quezílias familiares, outros absurdos, a Avó Luisette, avó paterna, nunca foi
uma Avó presente até eu me indignar do alto dos meus 12 anos rebeldes e decidir
que, como todos os adolescentes, queria voltar a dizer a frase tão natural:
“Vou a casa da Avó”.
E fui mesmo, a casa dos Avós,
aliás.
Breve foi o nosso encontro,
uma vez mais por vicissitudes várias, desencontros, quezílias familiares,
outros absurdos, mas a Avó Luisette esteve, está e estará sempre presente,
sobretudo nas pequenas coisas que são as que não se esquecem nunca.
Nos meus doze, treze, catorze
anos rebeldes e pouco femininos, via uma Avó bonita, de brincos e colares de
pérolas e verniz cor-de-rosa nas unhas. Não esqueço o dia em que me colocou o
colar ao pescoço e me pavoneei casa fora sentindo-me uma senhora.
A Avó Luisette foi a avó que
me ensinou os sinais de trânsito, que me ensinou a fazer ovos mexidos! (Pudera!
Quando não se podia comer ovos mexidos ao lanche, em casa, porque os pais
proibiam, aproveitava-se para fazer essas maroteiras em casa dos Avós com os
primos! E com que alegria eles nos deixavam! O Avô Rui até fotografias disso
tirava!)
Todos os dias faço ainda
questão de escrever à mão, apesar do uso diário do computador, porque não
esqueço a caligrafia linda que a Avó tinha e o brio que me incutiu de manter
sempre a minha também! Guardo as primeiras cartas que me foram endereçadas, com
o destinatário “ Ao cuidado da Exma Menina Ana Maria”, escritas do Pedrógão
pela letra bonita da Avó! E lá estão guardados os postais que eu lhe mandava,
com o Mickey, e a falar de bandas de música e das férias, os primeiros escritos
que enviei por correio!
Foi ainda a Avó Luisette que
me ensinou a bordar...Ponto de Cruz, Ponto Pé de Flor... Crochet é que a Avó
não conseguiu, não por falta de mérito pedagógico seu, mas pela minha azelhice
com as agulhas! Mas ainda hoje, sempre que possível, lá sai mais um bordado...
Não sei se terei filhos,
muito menos netos, mas sei que eles vão saber quem foi a Avó Luisette e o que
me ensinou, e só espero ter o sorriso e a paciência para transmitir esses
ensinamentos como ela teve para comigo, paciência infinita para escutar as minhas ininterruptas perguntas, a minha vontade teimosa e para ter-me concedido tratá-la por "Tu", por muito que lhe fosse estranho.
Bem-haja.
Ana Seiça Carvalho
Valência, 13 de Outubro de 2014